Mãos à obra | 2025
A dor de tentar bancar quem se é
A etimologia da palavra “fotografia” nos traz que ela vem do grego e significa “escrever com a luz”. Em Mãos à obra, longa-metragem dirigido por Valérie Donzelli, o ofício de Paul (Bastien Bouillon) é, nitidamente, escrever; seja com a luz, a partir da fotografia, seja com as palavras, na feitura de textos. Contudo, passar de uma forma de escrita para outra custa caro e, por vezes, muito mais do que se pode bancar.
Ao abandonar a sua consolidada carreira como fotógrafo, Paul pretende fazer o que lhe atrai verdadeiramente, a escrita. Esta mudança de carreira, na perseguição do que de fato é a sua paixão, custa caro. Não demora para que o dinheiro guardado acabe e ele necessite entrar em uma empresa/aplicativo chamada “Jobber”, em que as pessoas indicam um serviço que necessitam (desmontar um móvel, desentupir um vaso sanitário, esvaziar um porão, etc.) e inúmeros trabalhadores se digladiam para pegá-lo. São serviços “braçais” que, à primeira vista, não combinam com a intelectualidade de Paul. Mas, na busca por sobreviver, ele não tem escolha, ainda que isso se apresente de forma completamente oposta. Explico.
Donzelli é extremamente hábil em, de forma crua e direta, mostrar a perversidade desta “uberização”, marca evidente da contemporaneidade neoliberal, em que nos vemos como concorrentes uns dos outros e, ao mesmo tempo, livres por não estarmos “trabalhando para ninguém”, afinal, somos “empreendedores” ou “empresários de si mesmo”, os únicos responsáveis pelo próprio destino.
A liberdade de Paul em aceitar o trabalho que quiser e quando quiser, esconde a perversidade ínsita a este sistema, afinal, esta liberdade neoliberal só possui valor se ela permite acessar oportunidades de lucrar. Os preços oferecidos por ele devem ser cada vez menores, posto que sempre há alguém que ofereça o mesmo serviço por menos. E “menos” é melhor que “nada”, então aceita-se os serviços por preços aviltantes, ao agrado do consumidor.
A quantidade de ofertas, como as possibilidades de trabalho à Paul que chegam pelo celular, levam à uma exploração da psique humana que não tem outro ponto de chegada que não o burnout..
Utilizando a filosofia de Byung Chul-Han, tem-se que o isolamento trazido pela contemporaneidade neoliberal não faz com que sejamos livres. A liberdade, em verdade, é explorada. De acordo com ele, “o sujeito do desempenho, que se julga livre, é na realidade um servo: é um servo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora voluntariamente a si mesmo” .
É interessante como Donzelli traz, de forma muito assertiva, a ideia de que, nesta “selva”, não basta ser bom. No que se refere à escrita de Paul, a crítica era boa, a qualidade inconteste, mas as poucas vendas daqueles romances fizeram com que a editora desestimulasse. Não serão dadas outras oportunidades, não irão publicá-lo. Suas chances acabaram. Contudo, não é tão simples assim destruir um sonho.
A crueza com que o roteiro trata uma questão tão atual e cotidiana faz com que seja muito difícil ao espectador não recordar de alguma história envolvendo um amigo, um familiar ou até mesmo a sua. A dificuldade na escolha em fazer o que se quer ou aquilo que se espera que façamos (pela família, pela comunidade) ou, até mesmo, o que devemos fazer para apenas manter as contas pagas e nada mais, já que hoje “apenas isso” já é uma grande vitória. Em um mundo em que “o bem-estar corporativo tomou o lugar do bem-estar social” estas escolhas só ficam mais e mais difíceis.
Desprezar esta pressão externa e, de certa forma, desprezar também a busca desenfreada por dinheiro que é permeada pela competitividade de todos contra todos para perseguir um sonho (mesmo que isso acarrete em uma vida marcada pela precariedade) é visto quase que como uma falta moral e não apenas como “um equívoco econômico”. Diante da lógica do pai e da irmã, Paul deve se “comportar como um adulto”, pois, ao não se curvar “às coisas como elas são”, age como um inconsequente, um irresponsável.
A dificuldade do dia-a-dia de Paul, em (boa) parte explicitada na tela a partir do excepcional trabalho de Bastien Bouillon, que foi ganhador do prêmio de melhor roteiro em Veneza 2025, faz com que seja difícil não recordar de filmes de Ken Loach, no que destaco o “Sorry we missed you”.
O mesmo roteiro também tem o mérito de não fazer com que aquele périplo de Paul caia em um dramalhão barato, um “um coitadismo” que salta na tela. Pelo contrário, a altivez do personagem que é extraordinariamente interpretado por nos mostrar que ele sofre, claro, mas com honradez. Seu sofrimento é contido (e sentido pelo espectador), seu comportamento é valoroso. Há uma “devoção” dele pela escrita, o amor que persiste mesmo diante das dificuldades.
Neste cenário, destaco as cenas de Paul e seus filhos, que moram em outra cidade. São cenas de forte apelo emocional, construídas maravilhosamente bem, a partir, sobretudo, dos silêncios, do não-dito, do peso que seus filhos também precisam arcar por ver o pai naquela situação de penúria financeira.
Ainda no campo deste não-dito, por mais que soe paradoxal, a coragem de Paul, sua honradez, altivez e caráter é o seu grande legado, muito mais do que os bens materiais que poderia amealhar sendo um frustrado fotógrafo.
Partindo de um roteiro assertivo e extremamente competente, uma direção segura e que aposta na contenção e estrelado por Bastien Bouillon em atuação que o fez ganhar o prêmio César de ator revelação, Mãos à obra é um filme brilhante que nos faz refletir acerca da racionalidade neoliberal e, como fosse possível dissociar, sobre a vida na contemporaneidade e o alto preço a se pegar pela (real) liberdade em um mundo em que o “pobre sempre tem algo a sacrificar”.
