Belén – Uma História de Injustiça | 2025

Belén – Uma História de Injustiça | 2025

Em cada sociedade onde as figuras que ocupam posições de poder refletem um histórico patriarcal e machista, haverá empenho, custe o que custar, pela manutenção daquilo que existe em prol desse status. O controle de corpos femininos é propício quando os titulares desses espaços de privilégio são homens. Portanto, não interessa aos integrantes dos poderes legislativos, executivos ou judiciários de qualquer lugar do mundo mudar aquilo que lhes beneficia. Cabe aos prejudicados e desprivilegiados a pressão externa pelos direitos que lhes são negados. 

Na Argentina, foi preciso que (mais) uma jovem permanecesse presa e fosse condenada injustamente de forma tão evidente para que uma mobilização mundial impulsionasse a regulamentação de direitos reprodutivos, até a aprovação da que ficou conhecida como lei da interrupção voluntária da gravidez. Esse é o Caso Belén, uma mulher pobre que, em 2014, procurou atendimento médico em um pronto socorro na província de Tucumán, com fortes dores abdominais causadas por um aborto espontâneo, e de lá saiu presa, acusada de homicídio. O processo criminal que sucedeu sustentou-se em desobediência ao devido processo legal e aos direitos básicos da acusada, respaldado por provas precárias, contraditórias e manipuladas, enviesadas em proteção ao conservadorismo. O movimento, denominado #LibertadParaBelén, foi forte o suficiente para pressionar a opinião pública, o sistema judiciário argentino e também o poder legislativo.  

Dolores Fonzi transformou o caso em cinema, adaptando, em Belén – Uma História de Injustiça, filme indicado pela Argentina como seu representante para a categoria melhor filme internacional do Oscar 2026, o livro de Somos Belén, de Ana Correa. A diretora, que também protagoniza o longa, acompanha a linha histórica do ocorrido e o embate legal que o permeou, principalmente do ponto de vista de Soledad Deza (Fonzi), que assumiu o caso como defensora após a condenação da jovem a 8 anos de prisão. 

Belén é o nome escolhido pela própria vítima em proteção ao seu verdadeiro, Julieta (Camila Plaate), já que a repercussão atraiu não só o movimento #LibertadParaBelén, mas provocou perseguição e ameaças de grupos religiosos e conservadores anti-aborto. Além da evidente necessidade de anulação do processo que a condenou, tendo em vista todas as suas irregularidades, ficou claro que, desde o tratamento recebido por Julieta no hospital até toda a sorte de opressões legais por ela sofridas, tudo foi motivado não só pelo gênero e pelo controle de corpos, mas também em razão de sua classe social. Belén, mulher pobre, buscou o serviço público e recebeu como devolutiva indiferença, desumanidade e injustiça.

Veja-se que estamos diante de uma obra cinematográfica cujo título remete não só a uma mulher, mas a uma história. Belén – Uma História de Injustiça é título que reflete uma importante decisão de Dolores Fonzi, que influencia o modo de condução da expressão desse acontecimento nas telas e também nossa leitura quanto ao seu objetivo – Belén deixa de ser apenas uma pessoa, para ser um caso, para ser todas as mulheres. Entretanto, a diretora coletiviza o indivíduo para tornar seu longa, na realidade, não sobre Belén ou a luta propriamente, mas sobre Soledad Deza, a advogada, e sua empreitada como líder, enquanto as outras mulheres que acompanham, inclusive a própria Belén, exercem funções adornativas.

Obviamente há muita dignidade no trabalho da defensora, cujo papel foi crucial ao movimento e à mudança alcançada. É fundamental que aqueles que detém algum poder falem em nome dos oprimidos para muito além do papel natural da advocacia, como ela o fez. Entretanto, soa injusto (nova injustiça?) e, digamos, elitista, inclusive, que um longa que carrega um peso temático tamanho no próprio título, orbite ao redor não da causa, mas da advogada, que se torna, pelo ponto de vista adotado por Fonzi, a heroína inspiradora que salvou a vítima pobre e emudecida pelo sistema. 

À própria intérprete de Julieta, Camila Plaate, poucas falas são atribuídas. De fato, há mínima chance para que as demais atrizes, a exemplo de Laura Paredes (do excelente Trenque Lauquen), façam algo além de dar suporte à própria Fonzi como protagonista. A decisão por essa delimitação finda por superficializar a causa, com reflexo nas interpretações, que soam distantes, como o próprio interesse da diretora na figura de Belén. Quiçá, há memorável e genuína gentileza com Julieta em Belén – Uma História de Injustiça tão somente quando somos comunicados do resultado do recurso que lhe concede liberdade:  uma ligação recebida pela personagem e sua expressão emocionada são suficientes para nossa dedução. E esse breve momento é um dos melhores do filme, pois carrega uma capacidade de envolvimento e uma pessoalidade que foge ao remanescente da obra. 

O filme é protocolar tanto em sua forma como em seu conteúdo. Quanto ao segundo, sua burocracia é pertinente porque reflete uma das vertentes aprisionadoras de Belén, qual seja, a do próprio sistema ineficiente que se recusa a lhe garantir o mínimo. A lentidão politicamente proposital dos trâmites, a inacessibilidade dos autos, a precariedade da defesa, são todos fatores que a diretora expressa como modo de fazer sobressair a potência da injustiça e o caráter descartável e mecânico com que Belén foi tratada. A forma, entretanto, parece-nos responsável pelo esvaziamento de uma decupagem que mostra certa dificuldade em impor-se como linguagem que traz significado para além da relevância de sua história.

Há de se reconhecer que uma distância pertinente mantida por Belén – Uma História de Injustiça é a da religião. A diretora não dá grandes destaques aos grupos religiosos fanáticos que perseguiram tanto advogada como defendida, entretanto, permite que um debate sutil sobre a religiosidade e aborto (e aqui, não a religião) esteja presente como um conflito que é, de fato, socialmente imposto pelas instituições, já que traz Soledad como uma mulher líder de um movimento que clama pela descriminalização do aborto que não abandona sua fé.

Em que pese Belén – Uma História de Injustiça guarde suma importância como expressão histórica, tratando uma temática polêmica sem polemizar ou adotar um discurso político excessivo, trata-se de uma obra que preferiu trocar o protagonismo  do ocorrido motivada pela classe social, superficializando a vítima, a luta e suas origens sociais para (continuar) privilegiando, agora outro, indivíduo, o que lhe afeta com um esvaziamento e um distanciamento que sentimentos de nossos lugares como espectadores. 

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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