O Fantasma da Ópera e a Abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

O Fantasma da Ópera e a Abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Um filme de 26 minutos transformou-se em um acontecimento esperado com ansiedade na deslumbrante e multicultural abertura da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes – esse o movimento que Júlio Bressane, que completa 80 anos em 2026, é capaz de provocar. O Fantasma da Ópera, que codirige com Rodrigo Lima, foi escolhido para encerrar a noite que homenageou a atriz Karine Teles e sua carreira, e traz o diretor-entidade assumindo e personificando esse título, como criador que se coloca na posição de fantasma, incorporado ao espaço fílmico como um membro indissociável do cinema.

O Fantasma da Ópera é Júlio Bressane em pleno exercício criativo, o condutor da ópera. Fotografado em preto e branco, a câmera acompanha-o pelo set enquanto orienta a produção, seus assistentes (pupilos de seu cinema) e seus atores, dando instruções fervorosas e ditando enquadramentos, enquanto ele próprio é enquadrado em diagonais, ângulos baixos e pouco convencionais, o olhar de um fantasma curioso que observa o outro mais experiente. O elenco, reconhecemos, Paulo Betti está ali, mas sequer é creditado ou consta na ficha técnica. 

Nessa metalinguagem, o que interessa é o cinema como coletividade e a figura de seu condutor. O filme se passa num casarão espectral, de poucos e antigos móveis. Na ópera, a movimentação de pessoas confinadas neste casarão é intensa, e assistimos o realizar fílmico através de cada um desses colaboradores. É fato que Bressane é a alma sobrenatural da obra, mas é também admitindo e aceitando essa posição que ele abre (braços) e portas para o corpo de jovens realizadores que o acompanha e os reconhece como legado.

“Vemos o filme não o cinema, o cinema resta oculto no filme. O Cinema é o Fantasma da ópera.” Se há enigma na sinopse de O Fantasma da Ópera, há clareza na imagem e na relação quase simbiótica entre filme e cinema, e há certeza de que o filme, sendo aqui elevado ao status de proeminência, é muito vivo através das pessoas que o realizam sob a condução de um operador tão afetuoso, preocupado e consciente da necessidade do trabalho coletivo. 

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

    View all posts

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *