Complaint Nº. 713317 | 2026
No emaranhado das relações humanas, situações banais podem revelar tensões profundas e silenciosas. Mesmo que depois tudo se resolva como futilidade, sempre se revela algo de natureza egóica, conflitos tão íntimos que foram escondidos e explodiram em meio a banalidade de tal situação. É o caso de Complaint Nº. 713317, filme egípcio escrito e dirigido por Yasser Shafiey, que transforma uma geladeira quebrada em motor para uma comédia doméstica sobre o convívio de um casal recém-aposentado e sua nova realidade.
O que parecia ser uma vida harmoniosa em um apartamento no Cairo começa a mudar quando Sama (Sherine) se aposenta e passa a viver mais com seu marido, Magdy (Mahmoud Hemeida), que já era aposentado. A princípio os dois se dão muito bem e estão felizes pela nova fase, inclusive comemorando com amigos e familiares em uma confraternização caseira. Isso até o momento em que a geladeira com excesso de gelo passa a ser um problema. Magdy se incomoda e, mesmo após aviso de Sama para que espere o descongelamento no dia seguinte, resolve lidar sozinho com o equipamento. Quando o vemos com um martelo e uma faca na mão tentando retirar o gelo já prevemos o que vai dar errado: um furo na tubulação e vazamento de gás.
De imediato isso não é um problema e os dois calmamente decidem solicitar o reparo no dia seguinte. Certamente, a questão maior não é o refrigerador estragado, mas os dilemas crescentes que vão se acumulando à medida que o conserto se prolonga por semanas. Shafiey tem em mãos a matéria-prima para moldar Complaint Nº. 713317 como uma comédia absurdista, sustentada pelas recorrentes visitas técnicas, pela espera interminável e pela burocracia que transforma o cotidiano de seus personagens em um impasse permanente.
Na cena inicial em que acontece a festa de celebração pela aposentadoria de Sama, várias pessoas estão reunidas conversando e comendo. A câmera transita entre elas por uma steadycam, chegando bem próximo de seus rostos, como se desconfiasse da cordialidade encenada. Não há ligações realmente verdadeiras ali, apenas artifícios para satisfazer uma demanda social. O som reforça esse clima, sempre trazendo barulhos exteriores que não sabemos exatamente o que são para dentro do apartamento, como se aquele único cenário estivesse “apertado” pelo que vem de fora. Quando o casal está sozinho em casa a câmera é estática: não há aparências a serem mantidas.
As atuações de Sherin e e Hemeida são levadas quase sempre em um tom contido, o que cria um aspecto de esquete em Complaint Nº. 713317. As falas são sempre pausadas e claras: uma contraposição irônica ao que se passa com os personagens. Enquanto tentam parecer calmos, afloram-se suas discordâncias. Aquele relacionamento começa a acumular silenciosamente um amontoado de ressentimentos.
O amor e o desamor entre eles fazem cair as máscaras que nem eles próprios sabiam que usavam. Enquanto a assistência técnica não conserta a geladeira o transtorno aumenta a tensão. As comidas têm que ser transportadas para a casa da vizinha. Muito dinheiro é gasto para uma solução que nunca chega. Revelam-se, então, algumas feridas naquela relação que com certeza se refletem nas convenções sociais presentes em muitas famílias mundo afora.
A principal delas é o patriarcado. Sama está sempre a serviço de Magdy, fazendo comida, tarefas da casa e passando pomada em suas costas. A ideia de que ela ganha mais com sua aposentadoria vira uma dor profunda para ele, que inclusive tem que pedir dinheiro emprestado à esposa para pagar o reparo no refrigerador, claro que sem ninguém estar vendo “tamanha humilhação”.
O grande problema de Complaint Nº. 713317 está em como se resolve o abismo em que o casal cai. Depois da 713317º queixa com a empresa que deveria arrumar a geladeira e não o faz mesmo depois de várias visitas ao apartamento, Magdy desconta sua raiva em Sama, mas ela o perdoa facilmente. Ele quer ser o provedor da geladeira, aquele que pode dizer que pagou pelo conserto não aceita que ela compre uma geladeira nova; ele quem mente e é agressivo para se manter com a imagem de “dono da família”. No fim, Magdy consegue, e Sama, mesmo que o custo seja subjugar-se, o abraça em um gesto de carinho, passa-lhe pomada, limpa a casa, faz comida.
Ainda que a ideia de Shafiey fosse fazer desse microcosmo familiar uma representação de como funciona a sociedade machista e capitalista, faltam elementos para um julgamento mais claro e severo sobre esse sistema, fazendo com que essa crítica não se sustente. A boa estrutura satírica montada pelo diretor em Complaint Nº. 713317 se perde ao manter a mesma estrutura daquilo que fazia troça. Quando o casal está de frente com outras pessoas, Magdy ainda é colocado como a grande figura que controla toda a situação caótica, mantendo a aparência de que ele é o provedor e a esposa submete-se à sua posição.
