O Morro dos Ventos Uivantes | 2026

O Morro dos Ventos Uivantes | 2026

Por Carol Ballan

O Morro dos Ventos Uivantes é uma obra que já passou por diversas adaptações ao longo dos anos, cada uma delas com as marcas de seu tempo impressas na tela. Quando Emerald Fennell decide fazer sua própria versão após o sucesso de seus filmes Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023), isso já gera uma movimentação de interesse em torno da obra. Quando ela anuncia a escalação de Jacob Elordi como Heathcliff, em um momento no qual o revisionismo histórico está buscando algumas justiças como a questão da origem cigana do personagem, isso também gerou muitas manifestações nas redes sociais. E é apenas com o filme pronto que entendemos que ela criou uma livre adaptação do livro clássico de Emily Brontë, fazendo justamente o que uma diretora de cinema deveria fazer em uma adaptação: a sua própria versão.

O que é impressionante é que em 2026 ainda não haja uma obra que consiga resumir tão bem o cerne dos assuntos tratados pelo livro como as simples palavras de Kate Bush em sua música Wuthering Heights de 1978: “You had a temper like my jealousy/ Too hot, too greedy./ How could you leave me/ When I needed to possess you?/ I hated you, I loved you too.” (em tradução livre “Você tinha um temperamento como o meu ciúmes/ Ardente demais, ganancioso demais/ Como você pôde me deixar/ quando eu precisava te possuir?/ Eu te odiava, eu te amava também.”). A ambivalência dos personagens, a profundidade da conexão entre eles e a tragicidade dos acontecimentos está muito contida em um simples trecho de uma canção.

A história de amor e obsessão de Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi) é conhecida e dialoga com um sentimento muito comum, principalmente na adolescência, quando estamos amadurecendo as noções de paixão e limites pessoais. Não é à toa que esse romance continua repercutindo mais de 100 anos após a sua publicação original e permanece sendo inspiração para novas histórias, como foi o caso da saga Crepúsculo.

Pensando no que Emerald Fennell traz ao filme, o primeiro elemento é uma estética que brinca com o fantástico e já dá uma nova vida ao material base. Dos cenários de pântanos incríveis até os figurinos e maquiagens de Robbie, que conseguem misturar o clássico com elementos do moderno, cria-se toda uma atmosfera que apresenta o clássico para novos públicos. Isso é somado à direção de fotografia de Linus Sandgren, que consegue misturar a captação da natureza do ambiente com o foco nos personagens e seus contrastes. Entre a escolha das externas em locação na Inglaterra e o equipamento que permite gravar em VistaVision, tem-se um visual único e que evoca os clássicos de amor vitoriano com um elemento de modernidade.

O casting de Jacob Elordi impede um elemento importante da obra original que é o contraste social e até racial entre Catherine e Heathcliff que se torna mais um impeditivo para que seu amor possa se transformar em um casamento. Elementos como a crueldade que ele sofre da juventude até a fase adulta têm mais dificuldade em se justificar, ainda que isso não impeça a compreensão da obra. Já a escolha de Margot Robbie é um grande acerto, tanto por sua beleza estonteante quanto pela sua entrega ao papel, traduzindo bem uma personagem que comete erros na mesma medida em que acerta. Alison Oliver, a atriz escolhida para representar Isabella e que já colaborou com Fennel em outros trabalhos, também se destaca com uma atuação que traz a mudança do estado mental através até de uma transformação física.

Algo que foi muito citado na campanha de marketing do filme é que essa era uma versão realizada a partir dos pensamentos específicos da diretora sobre a trama, sendo bastante salientado que isso envolvia um elemento forte de sensualidade. Mas isso se traduziu em algumas simplificações da trama com personagens mais enxutos – o que faz sentido pensando no formato fílmico -, nas escalações justificadas pelas ilustrações do livro que ela leu, e em elementos sensuais bastante vagos e pouco impactantes. É estranho que a obra seja fruto da mesma diretora que fez a icônica cena final de Saltburn.

Bem sintomático dos anos 2020, O Morro dos Ventos Uivantes consegue trazer novos elementos à história clássica, mas passa longe de ser a melhor representação desse amor complexo e cheio de camadas de tesão e repulsa que levou tantos leitores ao livro.

Nota:

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