O Drama | 2026
O que define a maldade e a bondade de uma pessoa são suas ações ou seus pensamentos?
O que define a maldade e a bondade de uma pessoa são suas ações ou seus pensamentos? Ou ainda, quais são os critérios para afirmar que alguém é plenamente bom? Aliás, renovo o questionamento: pessoas assim existem? Há pura benignidade e absoluta perversidade no mundo?
Talvez exista, em algum momento da vida, uma idealização acerca da construção do caráter humano fundada em uniformidades e maniqueísmos. Ao mesmo tempo em que essa divisão orienta o convívio social, que, para funcionar, precisa normatizar condutas e estabelecer quais atos justificam o encarceramento, isto é, aqueles considerados “maus” e passíveis de isolamento, sem adentrar nos abusos desse poder com, por exemplo, o aprisionamento e o extermínio de minorias, é fato que certa maturidade leva à conclusão de que o maniqueísmo é uma falácia.
De fato, não há indivíduo inteiramente bom ou absolutamente mau. A condição humana se constrói nessa tensão entre polos, com um acúmulo de condutas que inclina cada sujeito mais para um lado do que para outro. Ainda assim, a complexidade do tema se aprofunda quando retornamos à indagação inicial: pensamentos podem, por si sós, servirem como critérios definidores do caráter?
Em um meio adoecido como o nosso, no qual pensamentos criminosos encontram validação no mundo externo por meio de espaços de pertencimento – como em grupos supremacistas brancos e comunidades red pill – O Drama, dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli, especialmente a sociedade estadunidense será colocada sob um provocador estudo. Caminhando sobre uma corda bamba, o filme consegue, sem se deixar cair, retratar as zonas que se estabelecem entre o julgamento e a falsa moralidade, escancarando a hipocrisia humana e a confortável facilidade de distribuir indivíduos em categorias rígidas de inclusão e exclusão.
A partir daqui, haverá spoilers importantes no texto.
O ponto de partida desse estudo é, justamente, o contrato social do casamento. A naturalidade do amor entre duas pessoas que desejam conviver, burocratizada como modo de controle social e proteção patrimonial, une Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), nubentes jovens e apaixonados imersos nos preparativos da celebração. A prova do buffet, regada à vinhos cuja qualidade é excessivamente atestada, é palco despojado para que os noivos e os padrinhos Mike (Mamadou Athie) e Rachel (Alana Haim), alcoolizados, comecem a falar sobre as piores coisas que já fizeram em suas vidas. O equilibrado tensionamento dos limites que refletimos na introdução do texto tornam-se claros nessa longa sequência, graças à habilidosa direção de Borgli, que articula cortes, planos e contraplanos como um jogo de espelhamento entre os personagens e faz do humor agridoce e mórbido uma linha dramática tênue, representativa das nuances entre “bom” e “mau” que pretende explorar.
Enquanto os padrinhos e Charlie contam sua supostas malvadezas não criminalizadas – cyberbullying, usar alguém de escudo contra uma mordida de cachorro ou até prender uma criança num armário – a câmera que se alterna entre os personagens sobre a mesa dá especial atenção à Emma, que bebe calada, sorri de forma tímida em contraste com seu olhar visivelmente disperso. Leva um tempo até que seu desconforto se torne perceptível. Mas então chega a sua vez de falar: na adolescência, ela planejou um school shooting.
Há, aqui, dois pontos a serem considerados. O primeiro é que, quando nós — assim como os personagens — recebemos a informação, instaurando-se a compreensível crise de Charlie, já estamos, à semelhança do noivo, de certo modo afeiçoados a Emma. Isso se dá, sobretudo, porque a conhecemos a partir da visão apaixonada dele desde o primeiro encontro, quando ele passa pela constrangedora situação de se aproximar da garota com seu livro O Estrago, fingindo já ter lido a obra, até perceber que não estava sendo ouvido: Emma é surda unilateral. Ela, ao notar o absoluto embaraço do rapaz, quebra o gelo com um inesperado “vamos começar de novo?”, gesto específico e bastante significativo de sua personalidade.
O segundo ponto é que o fato de não encontrarmos, em português, uma tradução específica para o termo school shooting, algo como “ataque a tiros em escola” ou “tiroteio em escola”, diz muito sobre a dimensão dessa doença tão particular do contexto estadunidense (e que se alastra), o que também se revela importante para a compreensão do cenário fílmico e das provocações que a obra propõe.

A revelação absolutamente íntima de Emma evidencia certa ingenuidade de sua parte, tanto por supor estar em um espaço seguro quanto por confiar que o amor do casal não se abalaria por algo que, ao que tudo indica, ela já havia elaborado e deixado no passado, ocorrido há 20 anos, em uma fase difícil de sua vida. O Drama passa, então, a oferecer novos olhares para julgá-la para além do ponto de vista até então apaixonado do futuro marido, que passa a vagar entre devaneios e abismos ao perceber que já não conhece plenamente a pessoa com quem irá se casar.
Seja antes ou depois da dúvida acerca de sua personalidade, Emma quase sempre nos é apresentada por meio dos olhares alheios. Embora tenhamos contato direto com a personagem, são as leituras feitas por terceiros que passam a permear nosso imaginário, levando-nos, como Charlie, a tentar compreendê-la novamente como se fosse a primeira vez. Os pensamentos intrusivos dele nos desnorteiam e traduzem sua própria confusão diante do dilema entre se apegar à mulher que conhece e ama e aquela que passa a imaginar, também influenciado pelo meio, como uma potencial criminosa.
Charlie tem pensamentos intrusivos naturalmente confusos, mas também moralmente duvidosos, com a diferença de que apenas nós temos acesso a essas ideias. Emma, por sua vez, quase levou a cabo, na adolescência, um pensamento criminoso, mas não o concretizou.
Trazer à tona uma ideia extremamente preocupante e perigosa, ainda que situada no passado e restrita ao campo hipotético, ganha proporções exponenciais, a ponto de percebermos que outras pessoas são capazes não apenas de pensar, mas também de agir de forma moralmente questionável. A punição, não necessariamente penal, mas moral, recai, contudo, apenas sobre aquele que expõe seus próprios pensamentos.
O Drama provoca ambiguidades que talvez jamais encontrem resposta – e nem é essa, aparentemente, sua intenção. Por primeiro, em se tratando da esfera individual, há a inegável gravidade do school shooting, que não pode, em hipótese alguma, ser relativizada, estamos diante de uma personagem que, aos quinze anos, não apenas pensou, mas planejou o assassinato de seus colegas. Mas não o fez. Reconheceu-se em um estado depressivo, era alvo de bullying, arrependeu-se de seus planos e pensamentos e passou a se posicionar, inclusive, como militante contrária à política armamentista.
A duas, na esfera coletiva, cabe ressaltar que o school shooting configura um notório problema social, cultural e político dos Estados Unidos. Armar-se naquele país é livre, incentivado e, muitas vezes, associado a status; e, na mentalidade de um adolescente de 15 anos, cuja maturidade e plena capacidade ainda estão em formação, isso pode se apresentar como um falso senso de pertencimento.
Por terceiro, cumpre mencionar o que é evidente, embora de difícil admissão: todos nós, enquanto seres humanos, já experimentamos pensamentos intrusivos e imaginamos, na quietude conturbada de nosso interior, não necessariamente crimes, mas atos imorais ou violentos, seja por instintos, desejos ou pela constante exposição à informações violentas, em diferentes níveis, no cotidiano. Isso nos torna, de algum modo, potenciais agentes de imoralidade ou mesmo de crime, isto é, sujeitos passíveis, em maior ou menor grau, de julgamento e exclusão social.
De certa maneira, é importante que consideremos que sim, pois, especialmente em um mundo ainda marcado pela misoginia e no qual a violência contra a mulher assusta cotidianamente, a consciência acerca da aparente normalidade de pessoas que efetivamente cometem crimes é fundamental para que mulheres sejam protegidas – nem todo agressor, atirador ou criminoso é um notório louco ou psicopata. Pelo contrário, na maioria dos casos, são indivíduos do nosso convívio, pessoas que conhecemos.
Por outro lado, compreender que todos somos, sem exceção, potenciais criminosos humaniza nossa percepção do outro e evidencia a impossibilidade de classificar seres humanos como bons ou maus de forma taxativa. Essa consciência aproxima da empatia, pois, ao nos equipararmos aos demais, sem hierarquias de caráter, passamos a refletir, inclusive, sobre a lógica da ressocialização que a própria Emma, de modo sutil, sugere: vamos começar de novo? Se fosse com você, ou com os seus, uma segunda chance seria justa?
Kristoffer Borgli corre o sério risco de banalizar a discussão do school shooting ao impulsionar O Drama por meio do humor. De fato, caminha sobre uma corda bamba, em uma linha tênue que ameaça ser ultrapassada a todo momento. Ainda assim, é preciso reconhecer que o faz com precisão.
Munido de uma inquietação genuína, consciente das possibilidades de deslize, e amparado por um casal de atores que assimila com facilidade a sutileza dessa nuance, o diretor é cirúrgico ao não oferecer respostas fáceis aos inúmeros questionamentos que lança na crescente espiral de acontecimentos que envolve o casamento – seja porque elas não existem, seja porque sua proposta de instigar por meio do incômodo é plenamente alcançada.
O desconforto causado por O Drama começa no humor que nos instiga a rir de nervoso de situações das mais impróprias, mas também pela dinâmica caótica que administra a direção. Borgli trabalha com cortes ágeis, em uma montagem que nos desorienta no tempo e no espaço, entre fatos e alucinações; faz oscilar a altitude do som entre o abafamento e o exagero, com o intuito de simular a surdez de Emma e o mundo externo que sufoca; e se mostra perspicaz no posicionamento de personagens outrora inseridos em uma aparente normalidade, que passam a ocupar o centro das atenções, mobilizados pela angústia dos olhares, cochichos e julgamentos.
Quando Charlie elabora o discurso apaixonado que pretende ler para Emma na cerimônia – antes que o caos se instale -, ele destaca a capacidade da noiva de transformar seu drama em comédia, como ao, por exemplo, puxar suas calças para baixo em meio a uma discussão séria. Talvez resida aí o maior trunfo de O Drama: desnudar nossas inclinações julgadoras por meio de um humor ácido e desconcertante, sem abrir mão da seriedade da reflexão que propõe.
