A Última Rodada | 2025
É notório que o consumo de álcool tem sido cada vez menor ao redor do mundo, o que é confirmado por relatórios da Organização Mundial de Saúde, com as gerações mais jovens tendo se aproximado mais de práticas mais saudáveis e, de certa forma, rechaçado o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
Este contexto é interessante para contextualizarmos os protagonistas de A Última Rodada (Le Città di Pianura), longa-metragem dirigido pelo italiano Francesco Sossai, que são dois homens idosos decadentes, alcoólatras, que vivem sem rumo, saudosos de um passado de aventuras. Assim, há (talvez implicitamente) uma certa anacronia daquelas situações, que quase sempre são mediadas pelo consumo exacerbado do álcool.
Como seus personagens principais, Carlobianchi (Sergio Romano) e Doriano (Pierpaolo Capovilla), o roteiro parece, muitas vezes, não ter rumo. O filme se inicia sem que o espectador tenha muitas informações daqueles dois amigos, para além da indicação que estão em uma viagem para recepcionar alguém em um aeroporto e não possuem “um porto seguro”. Esse fato somente fica explícito, posteriormente, na fala Carlobianchi que afirma olhar para as casas iluminadas da rua e pensar que nunca entrará em alguma.
Até que se chegue ao supracitado aeroporto, A última Rodada detém-se em nos trazer as “aventuras” de Carlobianchi e Doriano (e nisso ele se aproxima de um road movie): seja fugindo da polícia por estarem dirigindo alcoolizados, seja testemunhando a tristeza do jovem Giulio, um tímido estudante de arquitetura, após uma garota “quebrar seu coração”. Compadecidos, chamam-no para seguir viagem, tornando-o partícipe das bebedeiras e trambiques ao longo do caminho, no que o ele, em um primeiro momento mais sério e íntegro, acaba por se “contaminar” com o espírito livre e descompromissado dos idosos, o que traz uma sutil e divertida inversão dos (esperados) papéis, onde os “imaturos” são os mais velhos.
Desta feita, na intenção de “mostrar o mundo” àquele jovem entristecido, a jornada prossegue, à medida que, paulatinamente, o espectador passa a conhecer a história de Carlobianchi, Doriano, mas também de Genio (Andrea Pennacchi), o amigo que irão buscar no aeroporto, no que aparece a partir de flashbacks de um passado distante e aparentemente mais feliz.
Antes, os três ganhavam dinheiro roubando óculos de uma fábrica e os revendendo clandestinamente. Tendo o crime sido descoberto, Genio planejou a sua fuga da Itália, não delatando seus comparsas: enterrou uma vultosa quantia em dinheiro e fugiu para a Argentina, ficando muitos anos sem contato com seus amigos.
Tendo muitos anos do ocorrido, o crime estaria prescrito, o que permitia o retorno de Genio ao seu país natal sem qualquer chance de prisão. E é diante deste retorno que Carlobianchi e Doriano decidiram viajar para buscá-lo.
Mas, por que se disse que o roteiro segue sem rumo? Bom, a construção desta jornada segue por situações que não se conectam, não são bem-humoradas ou emocionam e, pior, são pouquíssimo desenvolvidas, fazendo com que certos acontecimentos gerem no espectador mais estranheza do que outro sentimento.
Dentre estes episódios que acontecem no caminho, por exemplo, tem-se a “revelação”, açodada e sem contexto, da orientação sexual de Doriano após um fugaz romance homossexual com uma das vítimas do trio, bem como a indicação que, a despeito daquela vida desregrada, com o cometimento de ilícitos e descontrolada no consumo de álcool, ele tem uma família que lhe recebe e lhe dá acolhimento.
Contudo, o que mais causa estranheza é a sucessão de anticlímaces quando a narrativa vai se direcionando ao final e envolve a chegada à Itália do que poderia ser o personagem mais interessante, Genio, que é quem justifica a viagem dos antigos amigos.
No meio do percurso, a trupe percebe que tomaram a direção errada e, assim, não irão conseguir buscar Genio. E isso, que muda totalmente o que se espera do filme, é posto de forma rápida e seca, jarretando qualquer esperança do espectador de ver aquele reencontro no aeroporto.
Mas, quando parece que esta questão já está definida, em uma cena abrupta e deslocada, o trio encontra Genio em um estacionamento de supermercado, de forma absolutamente inesperada. O reencontro não é emocionante, tampouco bonito, como as memórias de um passado feliz, verbalizadas por Calobianchi e Doriano entre um drink e outro, poderiam sugerir. Há um contato frio, uma conversa protocolar: os anos na Argentina, as histórias que aconteceram nesses longos anos de separação.
Ainda assim, mesmo diante da inexistência de um convite para isso, o Carlobianchi, Doriano e Giulio resolvem auxiliar Genio no resgate da grande quantia que escondera anos antes. Ao chegar onde estaria enterrada, percebem que no local foi construído um prédio e, por certo, durante a fundação, os valores foram descobertos e apreendidos. Mais uma vez, as parcas construções narrativas anteriores, que serviriam em tese para um determinado desfecho, são resolvidas de forma incrivelmente rápida, não dando azo para um desenvolvimento do que, aparentemente, seria a parte “catártica” de A Última Rodada. Assim, o roteiro “fecha portas” sem trazer ao espectador algo que vai além da frustração e desencanto.
Portanto, o filme faz parecer que seguirá por um caminho promissor sobre uma amizade de longa data que foi abruptamente interrompida, contudo, toma decisões narrativas difíceis de compreender, desviando-se desta direção ao focar em acontecimentos estéreis, seja por seu tema em si ou pela forma pobre com que são construídos. Todas as premissas levantadas anteriormente são sumariamente obliteradas da forma mais rápida e desinteressante possível, fazendo com que o fim daquela jornada seja algo vazio e sem emoção. Se a beleza da caminhada está no caminho e não no destino, lamentavelmente aqui a “beleza” parece não estar em lugar nenhum.
