Entrevista: CHEIRO DE DIESEL, de Gizele Martins e Natasha Neri 

Entrevista: CHEIRO DE DIESEL, de Gizele Martins e Natasha Neri 

A presença militar nas favelas do Rio de Janeiro, especialmente durante as operações de Garantia da Lei e da Ordem, instaurou um regime de exceção que, longe de se configurar como episódico, passou a integrar o cotidiano desses territórios. A violência foi incorporada aos corpos e à memória dos moradores de forma sensorial, com imagem, som e cheiro.

É a partir dessa vivência que Cheiro de Diesel, de Gizele Martins e Natasha Neri, se constrói. Distante de uma tradição que frequentemente captura a favela sob um olhar externo e estetizado, o filme se organiza como gesto de retomada narrativa, ancorado na escuta e na experiência de quem vive sob essa lógica militarizada.

Nesta entrevista, as diretoras Gizele Martins e Natasha Neri refletem sobre o processo de construção do filme, os limites éticos de lidar com o trauma e o cinema como ferramenta possível, ainda que insuficiente, diante do trauma. Confira:

Natália Bocanera: Considerando que o cinema que representa as favelas o faz muitas vezes sob um olhar externo carregado de uma estetização da pobreza e da violência, de que forma vocês acreditam que Cheiro de Diesel se posiciona como um contraponto combativo a esse olhar exploratório?

Gizele MartinsO Cheiro de Diesel traz desde a pesquisa, a escolha dos protagonistas, direção, narração, um olhar a partir dos comunicadores e comunicadoras e de nós favelados que vivenciamos e sobrevivemos a um Estado militar nas nossas favelas. Ou seja, durante todo o processo estivemos enquanto favelados escolhendo a narrativa que queríamos mostrar. Não queríamos um olhar sensacionalista, nem romantizado. Queremos com ele mostrar um pouco da nossa realidade. Mas fato é que nossa realidade não é só o que tratamos ali, ali está apenas um recorte. Nós temos brincadeira na rua, brincadeira nas lajes, funk, forró, etc. Temos vida na favela, mas o que nos atrapalha é um cotidiano militarizado.

Natália Bocanera: O documentário trabalha com testemunhos de uma violência legitimada e praticada pelo próprio Estado. Como vocês lidaram com a tensão entre a memória como experiência subjetiva da dor e com a memória como potencial elemento de prova de um crime? Em algum momento vocês sentiram que essas imagens operam menos como representação e mais como prova contra o Estado? 

Gizele Martins Sim, desde os depoimentos, a narração, as imagens e fotografias fazem esse filme virar um documentário denúncia. Ele retrata uma realidade cotidiana nossa, mas quando narramos e documentamos, essas nossas vozes ficam segmentadas para quem quer nos ver, ler, ouvir. O documentário vai para outros públicos que muitas das vezes não nos veem, mesmo a gente morando nas mesmas cidades, lado a lado.

Cheiro de Diesel (Imagem: divulgação)

Natália Bocanera: A partir da pergunta anterior, o que foi definitivo na escolha do cinema como instrumento para a denúncia desses crimes praticados pelo Estado em detrimento do formato jornalístico da reportagem?

Gizele Martins: Inúmeros filmes falam sobre a favela e as violações, mas de forma muito sensacionalista. No caso dos filmes famosos que ganharam o mundo. Aqui, a gente quis trazer uma abordagem de respeito, de ética. Toda a narrativa foi construída com os nossos protagonistas, para saber se eles gostavam da imagem ou não, e o que era prioritário para eles. Isso trouxe o aspecto de subjetividade, porque além da violência física, existe uma violência psíquica, sobre a qual não se fala. A gente vive com isso desde 2014, ou desde as experiências das favelas vivendo sob operações policiais, com assassinatos, chacinas todos os dias, helicópteros atirando nas escolas. Então a gente precisava trazer o som. Queria que as pessoas na sala de cinema sentissem um pouquinho do que é ouvir o barulho do tanque. Esse som me persegue até hoje quando eu tento dormir. O barulho do tanque me acompanha aqui, me acompanha quando eu estou andando na rua. Eu tenho pesadelos com o tanque 24 horas, não é só dormindo, mas acordada também. Essa é a experiência de viver num território militarizado, violado. 

Eu queria fazer com que as pessoas sentissem o que a gente sente todos os dias. Então a gente queria incomodar um pouquinho as pessoas que estivessem assistindo. No meu imaginário, eu queria fazer com que as pessoas sentissem o que a gente sente todos os dias. É o Vitor na cadeira de rodas, é a Drica que perdeu um filho, é a Sala Vermelha, é a tortura, são todos os comunicadores e comunicadoras censurados e autocensurados. O próprio nome Cheiro de Diesel vem do depoimento do Vitor, a partir da ideia de sentir o cheiro do tanque de guerra. Isso só foi possível por ser um filme em que a gente respeitou esse lugar de ser favelado, de ser negro, de ser violado, mas numa postura de escuta. Foram sete anos de produção e pesquisa, mas preservando este momento de escuta.

Natália Bocanera: Tanto no título do filme como no formato adotado, o trauma da experiência da violência mostra-se inscrito como uma memória sensorial, impregnada principalmente na audição e no olfato. O cheiro e o som funcionam como gatilhos para reativação dessa dor que dificilmente se apagará. Imagino que o próprio ato de realizar o filme tenha sido um gatilho em si. Como foi equilibrar a urgência da denúncia ao resgate inevitável do trauma de uma forma mais individual?

Gizele Martins: Este é um cotidiano que marca toda a minha infância, adolescência e vida. Hoje, tenho dificuldades de lembrar como eu brincava nas ruas, justamente porque essa brincadeira na rua foi interrompida pelos caveirões e tanques. Na vida adulta passei a narrar e a denunciar tudo isso. Ou seja, os gatilhos são contínuos. Não é tranquilo documentar, dar entrevistas, ouvir os barulhos dos tanques nem no telão quando sinto Cheiro de Diesel hoje, nem ao vivo quando vejo os caveirões nas nossas favelas. Nosso objetivo era fazer as pessoas experimentarem por uma hora e meia essa sensação, esse incômodo, essa dor. Sentir para refletir.

Natália Bocanera: A presença prolongada do Exército com poder de polícia, via GLO implica automaticamente na suspensão prática de direitos. Quando vocês passaram a compreender essa experiência não mais como uma exceção jurídica, mas como parte do funcionamento ordinário do Estado nas periferias?

Gizele Martins: Tivemos que conviver com tanques pelas nossas ruas. Sofríamos com toques de recolher. As escolas eram invadidas pelos soldados. As organizações e mídias comunitárias eram censuradas. Nossa cultura foi proibida. Éramos revistados 24h nas nossas ruas. Depois de todo esse processo sendo sofrido conjuntamente, entendemos que se tratava de um funcionamento muito bem pensado, muito bem organizado e com uma estrutura de controle financiada pelo próprio governo. A Maré foi um laboratório para o que ocorreu no Rio posteriormente.

Natália Bocanera: Em determinado momento, o filme aproxima o contexto da Maré de outras realidades, como a Palestina. Essa conexão foi pensada como analogia política ou como evidência de um mesmo circuito global de violência?

Gizele Martins: Eu estive na Palestina duas vezes. Justamente porque passei a denunciar os equipamentos bélicos na minha favela. Indo à Palestina descobri que os equipamentos bélicos são os mesmos e das mesmas empresas que comercializam armas e munições, além de treinamentos. O bope foi treinar em Israel na época dos megaeventos esportivos. Esta virou uma conexão que faço há dez anos. A ideia de conectar é para denunciar, mas também conectar lutas e pedir boicote a estes armamentos internacionais que nos matam. As armas que nos matam, estão matando na Palestina, estão matando os povos Mapuches, no México, no sul global. Por isso, nossa luta virou uma só. 

Natália Bocanera: Há uma descrença evidente na justiça em Cheiro de Diesel. Vocês acreditam que o filme, por si só, pode assumir, em algum nível, o papel restaurador que a justiça foi incapaz de estabelecer?

Natasha Neri: No processo de realização do filme, desenvolvimento, filmagem, de 2019 pra cá, ficou muito marcado como que os traumas e os impactos da violência das forças armadas nas ocupações de GLOs, de Garantia da Lei e da Ordem são permanentes.

Todas as pessoas com quem a gente esteve nesses anos, que viveram em favelas que foram ocupadas pelas forças armadas, têm muito viva a memória do tanque na sua porta, do cheiro do diesel, da tortura, de ter pessoas presas arbitrariamente sendo levadas para batalhões em vez de delegacias, da falta de informação, porque quando o exército acusa alguém ou vitima alguém, as famílias ficam no escuro, elas não têm acesso à informação, os casos vão para a justiça militar, então nenhum dos casos do filme teve a investigação devida, porque os casos de tortura e de homicídio retratados no filme, de invasões de casa, de violências, todos ficaram a cargo, do próprio exército, das próprias forças armadas investigarem inquérios policiais militares, com o Ministério Público Militar que pede o arquivamento de todas essas violações. 

Ficou muito marcado para mim o impacto da jurisdição militar na vida dessas pessoas, no sentido da ausência de justiça. É muito mais difícil, em casos de violências praticadas pelas forças armadas, que haja algum tipo de acesso à justiça.

Nem no sentido criminal, os casos das violências praticadas são investigadas e nem no sentido da reparação, nem simbólica, nem cível, nenhuma das famílias teve reparação. Nenhuma das famílias teve o mínimo de acesso à informação. A Edrilene não teve nunca acesso porque o caso foi arquivado. O Victor chegou a conseguir botar um cabo no banco dos réus, mas vemos no filme o que aconteceu.

Então a gente, nesse filme, acabou agregando e juntando muitas provas de que as GLOs produzem múltiplas violações que são traumas permanentes para as pessoas; não há reparação e é necessário que a justiça militar não seja mais o foro para o julgamento de crimes cometidos por civis, supostamente contra militares e nem por militares contra civis. 

Então o nosso filme traz um conjunto de provas das ilegalidades perpetradas pelas forças armadas, da ineficácia da justiça militar para investigar e julgar esses casos e da necessidade de reparação coletiva para os territórios afetados pela militarização das forças armadas.

Esperamos que o filme traga à tona violências e traumas causados pelas Forças Armadas na democracia, mas ainda invisibilizados para a maioria do público. O filme tem o objetivo também de preservar a memória das lutas sociais de movimentos de favelas e  vítimas de violações de direitos humanos praticadas pelas Forças Armadas. Buscamos, ainda, a mudança nas leis que transferiram a competência para o julgamento dos casos para a jurisdição militar, cujo julgamento está na pauta do STF, conforme listado abaixo. Ademais, esperamos que o filme ajude na luta das vítimas por justiça e reparação e fortaleça a liberdade de expressão de comunicadores e ativistas de favelas, tão criminalizados e ameaçados pelas forças do estado.

Processos no STF sobre a competência militar:

  • ADI 5.032: PGR requer a declaração de inconstitucionalidade do §7º do art. 15 da LC 97/99; ( Lei das GLOs)
  • ADPF 289, também proposta pela PGR, que requer o reconhecimento da incompetência da Justiça Militar da União para julgar civis em tempo de paz; mais geral. Fala de julgar pessoas civis em quaisquer situações.
  • ADI 5.804, que argumenta a violação dos artigos 5º, LIII e LIV; e 144, § 1º, IV, e § 4º, da Constituição Federal, pelas Leis Federais 13.491/2017 e 9.299/1996, que alteram o art. 9º, II, do CPM; e o art. 82, §2º, do CPPM.

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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