Pai Mãe Irmã Irmão | 2026

Pai Mãe Irmã Irmão | 2026

Um retrato fragmentado das distâncias emocionais dentro da família

Jim Jarmusch é um cineasta que constrói sua filmografia a partir do cotidiano, extraindo das situações mais banais um humor seco e um olhar irônico sobre as relações humanas. Em Pai Mãe Irmã Irmão, o diretor retorna a esse território com um filme que observa, com precisão e certo desencanto, os vínculos familiares na vida adulta.

Dividido em três capítulos que se deslocam geograficamente entre Estados Unidos, Irlanda e França, o longa se organiza de maneira clara ao dedicar seus atos, respectivamente, ao pai, à mãe e, por fim, aos irmãos. Ainda que separados por espaço e personagens, os três segmentos compartilham a mesma dificuldade de conexão genuína.

No primeiro ato, situado em Nova Jersey, acompanhamos o reencontro de dois irmãos com o pai. Interpretado pelo cantor e compositor Tom Waits, colaborador frequente de Jarmusch em filmes como Sobre Café e Cigarros (2003) e Os Mortos Não Morrem (2019), ele surge como uma figura meio ambígua, ao mesmo tempo afetuosa e manipuladora, que vive à margem e se aproveita emocionalmente dos filhos. 

Jeff, vivido por Adam Driver, se mostra o filho mais vulnerável e condescendente, sempre ajudando financeiramente o pai, enquanto Emily, interpretada por Mayim Bialik, enxerga com mais clareza as pequenas farsas do pai, como quando ele ostenta um Rolex no pulso, em contraste com o discurso de escassez financeira. A dinâmica entre os três é marcada por uma apatia silenciosa, na qual qualquer tentativa de aproximação parece esbarrar em anos de afastamento.

O segundo capítulo nos leva a Dublin, onde duas irmãs visitam a mãe em uma casa que reflete uma perfeição quase artificial. A mise-en-scène é precisa, com uma mesa de chá impecável, objetos organizados e uma atmosfera controlada. Nesse ambiente, surgem Timothea, interpretada por Cate Blanchett, introspectiva e contida, e Lilith, vivida por Vicky Krieps, expansiva e provocadora com cabelos cor de rosa e roupas extravagantes. A mãe, interpretada por Charlotte Rampling, observa tudo com um olhar que pende mais ao julgamento do que para a ternura, ao observar como a filha joga seu casaco no sofá da sala e se senta de maneira desleixada na poltrona. 

O encontro, que ocorre apenas uma vez por ano, revela uma relação engessada, na qual gestos e silêncios dizem mais do que qualquer diálogo, como quando a personagem de Blanchett precisa se ausentar e sobe ao banheiro apenas para respirar e fugir da situação desconfortável à mesa.  Aqui, o Rolex reaparece de forma quase casual, exibido por Lilith como um objeto comprado na rua, um detalhe que ecoa o capítulo anterior e reforça o jogo entre aparência, valor e autenticidade.

Já no terceiro ato, em Paris, acompanhamos os gêmeos Skye, interpretada por Indya Moore, e Billy, vivido por Luka Sabbat, que retornam ao antigo apartamento da família após a morte dos pais. Diferente dos outros segmentos, aqui o luto parece abrir espaço para uma conexão mais sensível. Ainda que também exista distância, há momentos de afeto genuíno que emergem em meio à dor, sugerindo uma possibilidade de reconciliação que os outros capítulos não se aproximam tanto. O motivo do relógio caro surge mais uma vez, de maneira discreta, fechando esse ciclo de repetições simbólicas que perpassam pelo filme.

Entre esses três núcleos, Jarmusch constrói um delicado sistema de ecos visuais e temáticos. A água, por exemplo, também atravessa o filme como um símbolo recorrente: no primeiro ato aparece em um brinde constrangedor, no segundo surge como objeto de estranhamento em uma conversa trivial, e no terceiro ganha contornos mais reflexivos, associada à ideia de cura. Esses pequenos elementos funcionam como fios invisíveis que conectam os episódios em Pai Mãe Irmã Irmão, reforçando a sensação de unidade dentro da fragmentação.

Essa lógica de repetição também se manifesta na encenação. As recorrentes cenas dentro de carros não apenas marcam os deslocamentos entre espaços, mas funcionam como cápsulas de intimidade forçada, nas quais os personagens se veem obrigados a compartilhar silêncios e tensões. Trata-se de um recurso já utilizado pelo diretor em Uma Noite Sobre a Terra (1991), em que os veículos também serviam como palco para encontros breves e reveladores. O mesmo se aplica à estrutura dividida em episódios, ou pequenos contos, uma forma narrativa que reaparece aqui e também em Sobre Café e Cigarros.

A estrutura fragmentada do filme encontra vestígios na sua linguagem que conectam os episódios, com planos em zenital (vistos de cima), enquadramentos precisos e breves vistas das cidades em movimento, que ajudam a situar o espectador sem nunca desviar o foco das relações. Há um cuidado em permitir que o tempo das cenas respire, valorizando pausas, olhares e pequenas rupturas.

A trilha sonora, composta pelo próprio diretor em parceria com a cantora e compositora inglesa Anika, reforça essa atmosfera melancólica e contemplativa. Juntos, eles revisitam canções como These Days, de Jackson Browne e Nico, e Spooky, eternizada por Dusty Springfield, incorporando releituras que dialogam com o tom emocional do filme.

Pai Mãe Irmã Irmão é, acima de tudo, um filme sobre aquilo que não se resolve, sobre relações que persistem mais por inércia do que por afeto, e sobre a dificuldade de reconstruir laços quando o tempo já solidificou as ausências. Ainda que sustentado por um elenco de grande presença, o longa encontra sua força na observação minuciosa desses silêncios e na ironia sutil que marca seus encontros.

Ao final, Jarmusch não oferece catarse nem respostas fáceis. O que permanece é a sensação de que, dentro dessas famílias, o afeto existe, mas já não sabe exatamente como se manifestar.

Nota

Author

  • Jornalista por formação, editora e crítica de cinema carioca. Certificada em cinema pela Academia Internacional de Cinema, é apaixonada por filmes de terror e narrativas sobre serial killers. Entusiasta do cinema independente e de obras dirigidas por mulheres.

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