Doutor Monstro | 2026
Um dos mais eficientes escudos de uma mulher contra a violência de gênero é a consciência de que ela pode ser praticada por qualquer pessoa – e que geralmente, o será por pessoas de nosso convívio. Criamos em nossos imaginários, e há de se reconhecer que o cinema colaborou para essa formação, que homens violentos, abusadores e feminicidas serão facilmente identificáveis, dotados de trejeitos, estereótipos e tipos específicos de personalidade. Monstrificamos e vilanizamos, inconscientemente, essas figuras criminosas, o que torna ainda mais difícil a identificação de uma violência quando sofrida. Entretanto, finalmente há um movimento crescente em direção oposta, ainda que a passos muito lentos, de tomada de consciência a respeito da desmistificação de tais homens, que podem e são, na maioria das vezes, ordinários, em muitos casos gentis e pacíficos, ou ainda, pessoas das quais nutrimos algum tipo de afeto. E para essa inversão, também o cinema vem colaborando para a reconstrução desse imaginário.
Pois bem. Em um cenário de evolução, em que invariavelmente a arte é um instrumento poderoso de formação de mentalidades e inconscientes, o que justifica que um filme que se proponha a falar, por exemplo, sobre feminicídio, instigue a responsabilidade da vítima pelo crime que lhe causou a morte, confiando o julgamento e a escolha de “lados” ou “versões da verdade” ao espectador? É pertinente, cabível ou sensato, nos dias atuais e no Brasil, onde uma mulher é estuprada a cada 6 minutos, fugir do maniqueísmo em casos como esses? Ou ainda: como discutir possibilidades de pontos de vista ou justificativas para o feminicídio?
Há, de fato, linhas muito tênues no que se refere ao tratamento de tal temática no cinema, e cruzá-las é um risco tremendo que se corre. Doutor Monstro, dirigido por Marcos Jorge (o mesmo de Estômago) assume o risco de ultrapassar essas linhas delineadas em prol de um cuidado perante as vítimas e, mais amplamente, a todas as possíveis vítimas que somos como mulheres. E infelizmente, para minha sensibilidade e percepção crítica (e somente dela posso falar), os mencionados limites foram superados.
Doutor Monstro é inspirado num horrendo e assustador caso criminal real, ocorrido em 2003, que findou por condenar o médico-cirurgião Farah Jorge Farah pelo assassinato, dissecação e esquartejamento de uma ex-paciente. O filme retrata os acontecimentos que circundaram o caso desde que criminoso, interpretado por Marat Descartes, e vítima, nomeada como Carmen (Marcelina Fialho) se conheceram, até o julgamento do assassino perante o Tribunal do Júri. A fase processual ocupa a maior parte da obra, reproduzindo o que seriam as teses de defesa e acusação nas figuras da promotora de justiça Cláudia (Taís Araújo) e do advogado de Farah, Dr. Pontes (Guilherme Weber), reconstituindo as inúmeras versões dos fatos e provas trazidas pelas testemunhas e pelo próprio criminoso.
Veja-se, por primeiro, que Doutor Monstro não nos traz, em nenhum momento, o possível prisma da vítima. Mas na realidade, em se tratando de um crime como tal, há de se mencionar que não há, ou não deveria haver, margens para outras perspectivas que não essa: uma mulher foi brutalmente morta por um homem que confessou o crime cometido. Essa é a única versão que importa, e qualquer outra vertente ou possibilidade de verdade se insere na esfera do direito de defesa resguardado ao criminoso.
Marcos Jorge, e o próprio título assim o indica, dá centralidade à figura de Farah, e expressa um grande interesse por sua psique e seu suposto processo de monstrificação, ou seja, de revelação de sua capacidade assassina a partir de um sujeito aparentemente calmo, fragilizado, amante de música clássica e ópera, por quem as pessoas nutriam empatia. O filme, ao tentar compreender e até se fascinar com a mente feminicida, parece buscar justificativas para o crime ou encontrar indícios da personalidade criminosa. Com esse objetivo, Doutor Monstro fantasia delírios e enfatiza as alegações defensivas do homicida, quais sejam, a de que a vítima era explosiva, que o perseguia, que transformou sua vida num inferno – e não é preciso dizer que tais teses atribuem a responsabilidade do crime à vítima de uma forma indizivelmente desarrazoada.
É certo que, nos dias de hoje, falar em “culpa da vítima” é um retrocesso tremendo, principalmente considerando a conscientização que mencionamos alhures. Doutor Monstro permite-se, sob nossa visão, dar esse passo para trás, o que é preocupante se pensarmos nas inúmeras mentalidades próximas a de Farah que podem se sentir validadas em seus discursos.
Compreende-se que o filme, ao dar destaque ao processo criminal e às teses de acusação e defesa, almejou expressar que a complexidade do direito à tutela de direitos – que deve ser respeitado independentemente da pessoa a ser defendida. No entanto, nos parece que, seja pela abordagem aqui já discutida, seja pela estética fílmica ou pela construção dos personagens, que Doutor Monstro concede uma abertura muito maior à relativização do crime do que para sua condenação.
O advogado parece, inclusive, carregar traços vilanescos muito mais evidentes do que do próprio algoz condenado, e a impressão que fica é que sua tese defensiva é muito mais cativante ao filme do que outros elementos do processo. A direção opta, ainda, por uma estilização irônica que é, em muitos momentos, incoerente com o que está retratando – recordemos, o assassinato absolutamente cruel de uma mulher.
Nesse contexto, ao conceder palco e performance discursiva a argumentos de indiscutível impertinência, que flertam com a culpabilização e a responsabilização da vítima, e ao dedicar-lhes um espaço significativamente maior, permitindo que o espectador “escolha” sua própria verdade onde sequer deveria haver margem para versões concorrentes dos fatos, Doutor Monstro acaba por caminhar numa zona cinzenta e preocupante. Muito embora não valide tais discursos, o filme corre o risco de endossá-los involuntariamente, oferecendo respaldo a narrativas que são diariamente propagadas e que podem se sentir legitimadas.
