A Odisseia | 2026
Homero, que por muitos outros motivos é digno de louvor, também o é porque, entre os demais, só ele não ignora qual seja propriamente o mister do poeta.”
Aristóteles, Poética.
O filósofo estagirita Aristóteles foi um dos primeiros a escrever uma análise sistematizada sobre a arte. No cânone da estética está sua Poética, livro onde caracteriza os efeitos possíveis pela tragédia grega, uma das mais elevadas formas de representação de nossa condição existencial. O dramaturgo, quando imita um dilema humano no palco, é capaz de dar-nos aos sentidos múltiplos caracteres que se debatem entre dores e angústias que não são nossas, mas, ao mesmo tempo, se tornam histórias que nos afetam profundamente. Portanto, a arte cria um complexo exercício de alteridade que nos coloca diante de nós mesmos através do outro.
Mesmo tendo classificado Homero como um poeta e não um trágico, Aristóteles o diferencia na forma de representação, já que em conteúdo sua genialidade atinge este mesmo objetivo. Entre tantos elogios ao autor grego, o filósofo o reconhece como modelo de um método narrativo utilizado na epopéia Odisseia, que viria a se tornar a base da tradição literária ocidental. O que é mister ao poeta é silenciar-se no texto para dar espaço aos personagens, para que deles nasça a catarse, efeito de purificação contemplativa guiada por uma figura de caráter elevado enfrentando uma aventura física e moral.
Assim, desde então, as obras dramáticas encontraram seu grande anseio: lançar o espectador em uma nova representação da vida, fora de sua zona de conforto, enfrentando reflexões tão íntimas que nunca puderam ser ditas de outra forma. A jornada de Odisseu (ou Ulisses em algumas edições) reverbera na contemporaneidade, inclusive no cinema. Um herói ou uma heroína que precisa passar por todo tipo de provação para afirmar ou mudar seu caráter, para validar ou negar sua fé, carrega Odisseu consigo. A narração clássica nasceu ali, e não à toa Aristóteles reconheceu Homero como o poeta grego por excelência.
Quando o cineasta Christopher Nolan anunciou sua adaptação de Odisseia, gerou-se uma euforia entre a cinefilia. Por um lado, é inegável seu apreço por produções de grande escala, então, esperava-se, mais uma vez, grandes efeitos especiais práticos e sua já característica filmagem em IMAX. Porém, de outro, surgiram questionamentos sobre sua capacidade dramática ao contar tal história basilar e universal. Se, para Aristóteles, Homero é exemplar na arte de fazer refletir sobre a existência humana, conduzindo seus versos cada vez mais belos para levar o sofrimento de Odisseu, Penélope e Telêmaco ao clímax de redenção, como se comportaria Nolan, tão criticado por racionalizar demais seus roteiros e, consequentemente, limitar seu efeito catártico?
Essa questão tem alguns méritos que devemos considerar em nossa análise. Pensando que a Odisseia foi composta por volta do século VIII a.C., no mundo grego imerso na mitologia, a epopéia está, justamente, inserida em uma tradição oral que operava o pensamento por imagens na busca por sentido diante do desconhecido. Um mito não explicava racionalmente o mundo, mas buscava habitá-lo simbolicamente. Àquilo que não se entendia aplicava-se uma segunda via que tinha no medo e na fé suas principais armas para moldar a moralidade de um povo. As forças da natureza, representadas pelos deuses, e as humanas, eram indissociáveis naquela realidade. Portanto, ao homem grego da época, histórias como a de Odisseu representam valores muito além de si, que remetem ao mistério da vida no universo e sua suposta ordem natural.
Em 2026, falar sobre mitologia certamente não carrega esse mesmo significado. O filme A Odisseia transita por um outro caminho, e que, surpreendentemente, é seu maior acerto. Se o mito na atualidade tem outros contornos, Nolan compreende que precisa abordar as canções de Homero com novo viés. Seu trabalho prefere desviar da questão simbólica do mito para questionar a sua própria criação. É como se sua obra fosse a exemplificação de como uma mitologia funcionava na época.
A estrutura narrativa que o cineasta utiliza dialoga com a de Homero. Há um in media res que recorta a história entre presente e passado, mudando de foco diversas vezes, algo inovador na antiguidade grega, mas comum hoje em dia, inclusive no trabalho do próprio diretor e de muitos outros. Mas, aqui, Nolan parece fazer do tempo um artifício para construir Odisseu como um narrador não confiável. Seus delírios, a falta de memória e a ausência de testemunhas sempre colocam em suspenso o que é contado por ele. Existiu a batalha com o Ciclope? E o encontro com Circe? Várias perguntas são colocadas em pauta.
E não seria essa a lógica por trás da criação de um mito? A interpretação de Matt Damon reforça essa concepção, se olharmos para ele como alguém quase sempre em estado de confusão, inclusive perdendo a confiança de seus soldados durante o retorno de Tróia. Não é exatamente a figura astuta do poema. Quando sua suposta lembrança lhe é recobrada, aí sim, ele se torna a força inquebrantável chamada Odisseu. Não se trata de assumir-se como uma mentira e entrar no personagem, mas de acreditar que mistérios foram vividos com algum propósito e que sua chegada à Ítaca é muito mais do que geográfica.
Nos flashbacks que nos contam o calvário de Odisseu, Nolan esbanja seus já conhecidos aparatos técnicos. Barcos em mar revolto, soldados sendo modelados em porcos por Circe (Samantha Morton em curta, porém grandíssima atuação), uma parada no Hades para conversar com seus guerreiros mortos. Tudo sob uma fotografia fria, como as armaduras que vestem em batalha, e acompanhados pela trilha sonora de Ludwig Göransson, que utiliza coros assustadores nos momentos de maior tensão. Neste sentido, tem-se o que já é protocolar aos trabalhos recentes do diretor, sem inovações, mas sempre ao lado de excelentes profissionais.
Quando Odisseu chega a Ítaca disfarçado como mendigo, temos a preparação para a grande catarse: toda a superação do calvário necessário para o autoconhecimento e a aceitação do mistério da vida. Se em Homero voltar para casa é reiterar seu lugar patriótico enquanto humano em um mundo dos deuses, para Nolan o regresso é a afirmação do mito como verdade simbólica da humanidade. Nosso sofrimento se reorganiza quando é narrado, talvez seja por isso que criamos a mitologia.
Assim, o realismo imposto pelo diretor não é um demérito, pelo contrário, é a investigação de como se cria um mito. Porém, o que é essencial ao poeta não é a escolha do cineasta. Se Aristóteles elogiava o apagamento de Homero para dar lugar à pureza catártica de seus personagens, Nolan faz algo que também é comum a seus últimos trabalhos: coloca-se sem sutilezas para irromper com o efeito de seu próprio filme.
Sua necessidade em reforçar ideias já dadas é muito mais um reflexo do cinema que adotou para si do que algo desproposital. Christopher Nolan faz cinema mainstream e, para tal, atende as demandas de seu público. Isso se tornou quase um cacoete de seus roteiros, ainda mais evidente no premiado Oppenheimer (2023).
Em A Odisseia esses momentos são mais escassos, mas, mesmo assim, perceptíveis. Assim como Calipso (Charlize Theron) precisa forçar a memória de Odisseu, Nolan sente a necessidade de fazer isso com o espectador. Um dos momentos mais belos do poema é o encontro de Odisseu com seu cão Argos, que apenas o aguarda para a morte. Uma cena bonita se constrói no filme, mas é quebrada por um flashback rapidíssimo do cão filhote com seu tutor. Todo embate com Antínoo (Robert Pattison) precisa trazer a imagem de seu irmão, Sinon (Elliot Page), ou dos dois ainda adolescentes. Não parece ser essa a atribuição do grande poeta, como diria Aristóteles.
Ainda assim, o cinema épico de Nolan em A Odisseia é louvável porque atinge seu propósito. Ao deslocar o mito do sobrenatural para a experiência humana, o diretor demonstra que algumas histórias permanecem vivas não porque explicam o mundo, mas porque continuam oferecendo sentido ao desconhecido. Há aqui um eco da concepção aristotélica de poesia, ainda que Nolan se recuse ao apagamento em prol de seus personagens.
