Labirinto dos Garotos Perdidos | 2025
Uma fantasia queer de excessos e sensações
O cinema e suas infinitas possibilidades seguem fascinantes justamente por sua capacidade de reinventar temas universais através de olhares singulares. Sob o comando de realizadores criativos, experiências comuns ganham novas formas e escapam da banalidade. Em Labirinto dos Garotos Perdidos, Matheus Marchetti aborda questões como amadurecimento, descoberta afetiva e desilusões amorosas por meio de uma estética fantástica, queer e profundamente ligada ao cinema de gênero.
Nessa fábula carregada de erotismo e imaginação, acompanhamos Miguel (Giuliano Garutti), um jovem que deixa o interior em direção à cidade grande em busca de amor, prazer e novas experiências. O filme se inicia com uma bela cena entre dois homens em um quarto. Corpos entrelaçados sobre lençóis brancos, iluminados por uma intensa luz fria, têm sua imagem multiplicada em reflexos infinitos no espelho. O magnetismo daquela intimidade é interrompido pelos sons dramáticos de um piano vindo da sala ao lado. Pouco depois, a atmosfera romântica dá lugar à violência quando um dos homens ataca brutalmente o outro. O assassinato é observado através de uma turva imagem refletida no piano, numa solução visual que remete às transições abruptas entre desejo e morte, tão características do giallo italiano. Há ecos evidentes do cinema de Dario Argento nessa passagem repentina para o horror e o tom do filme é estabelecido.
Uma narração feminina conduz o espectador para dentro do universo onírico de Labirinto dos Garotos Perdidos. “Era uma vez um lugar distante, onde a realidade era um sonho e um sonho era realidade”, ouvimos logo no início. Marchetti abraça a lógica dos contos de fadas e do imaginário fantástico sem qualquer compromisso com o realismo. O resultado é um universo artificial, colorido e quase místico, onde a inocência de Miguel contrasta com a hostilidade encontrada em sua jornada. Entre relacionamentos frustrantes, experiências abusivas e a sombra constante de um serial killer que persegue jovens homossexuais, o filme constrói uma narrativa que conversa simultaneamente com desejo e medo.
O cinema de Marchetti demonstra amadurecimento e personalidade cada vez mais evidentes. Seu interesse por interpretações performáticas, em detrimento do naturalismo, reforça a dimensão fantástica da obra. Há aproximações com o cinema de gênero europeu contemporâneo, especialmente com Bertrand Mandico. Em filmes como Garotos Selvagens (2017), o cineasta francês investe em uma mise-en-scène exuberante, marcada por fumaça, cores saturadas, erotismo explícito, sobreposições visuais e corpos transformados em figuras quase mitológicas. A narrativa frequentemente assume uma estrutura fragmentada, semelhante a sonhos ou memórias distorcidas. Assim como Mandico e Argento, Marchetti parece mais interessado na criação de estados sensoriais do que na lógica dramática convencional.
Para além de suas influências, Labirinto dos Garotos Perdidos encontra uma identidade própria. A musicalidade, elemento recorrente na filmografia do diretor, e a maneira como seus personagens ocupam espaços urbanos contemporâneos estabelecem uma conexão genuína com o cinema brasileiro de gênero. Marchetti parte de inquietações muito particulares da experiência queer para construir um universo autoral que dialoga simultaneamente com o horror, o musical, a fantasia e o romantismo gótico. Obras anteriores, como Verão Fantasma (2022), já apontavam para esse interesse pela sexualidade dissidente e por personagens que transitam entre o desejo e a fantasia.

A trajetória de Miguel se desenvolve como uma narrativa de descoberta e afirmação. À medida que compreende melhor seus desejos, o protagonista se torna mais consciente de si e mais seguro diante do mundo. Curiosamente, o sexo surge de forma mais sóbria do que o supense, tornando o ato a parte mais elegantemente natural do filme, integrando-se organicamente à jornada do personagem.
A constante proximidade da morte funciona como eco de uma vigilância histórica imposta à comunidade LGBTQIAPN+, marcada pelo medo, pela violência e pela permanência do preconceito. Isso diferencia o filme de uma simples fantasia de amadurecimento e aproxima a obra de uma reflexão sobre vulnerabilidade, desejo e violência.
Entre o encanto da fantasia e a ameaça do horror, Labirinto dos Garotos Perdidos reafirma o interesse de Matheus Marchetti por personagens em processo de transformação. Mais do que uma narrativa de amadurecimento, o filme se apresenta como uma experiência sensorial que converte angústias, desejos e fantasias queer em imagens carregadas de estranhamento, beleza e frescor.
