21ª CineOP | Helena Solberg: A Entrevista e Meio-Dia

21ª CineOP | Helena Solberg: A Entrevista e Meio-Dia

O cinema é, historicamente, um espaço artístico masculino. Em que pese o pioneirismo de Alice Guy-Blaché e A Fada do Repolho, de 1896, como primeiro filme de ficção da história do cinema, os nomes que permanecem e foram popularizados na memória da trajetória de evolução cinematográfica são outros tantos, e nenhum deles é feminino: Auguste e Louis Lumière, Georges Méliès e D.W Griffith, são apenas alguns dos que são lembrados como representantes tais nas discussões sobre as origens da sétima arte.

Com os movimentos e escolas cinematográficas que surgiram ao redor do mundo, cada qual concedendo ao cinema um caráter particular e regional conforme os contextos e necessidades social ou política, não é diferente. Se ainda há resistência em posicionar Agnès Varda como integrante da Nouvelle Vague, que dirá reconhecê-la como sua pioneira com La Pointe Courte. É fato que cineastas mulheres foram relegadas às margens dos movimentos, e comportam, quando as reconhecem como suas participantes, uma ou duas referências.

Helena Solberg ocupa exatamente esse lugar invisibilizado perante o Cinema Novo Brasileiro. Muito embora seja reconhecida como membra, seu lugar é específico: ela é a única mulher do grupo do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Ainda assim, o margeou – ela mesma reconhece que traçou caminhos diversos dos colegas Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade, e há de se ressaltar aqui o isolamento que é imposto ao gênero. 

Aos 88 anos, a diretora foi homenageada pela 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, que com seu ideal de tratar cinema como patrimônio histórico a ser preservado, possibilitou ao público assistir, de forma gratuita, acessível e democrática, em praça pública, obras de difícil acesso da diretora, algumas restauradas – como A Entrevista, de 1966, seu mais famoso filme, e Meio-Dia, de 1969.

Meio-dia, expressão de uma rebeldia anárquica infantil em tempos de ditadura, é uma descoberta tardia preciosíssima, justamente porque a segregação do cinema feito por mulheres adormece obras nesse sentido ao ponto de se tornarem desconhecidas mesmo por aqueles que mantêm uma relação de intimidade com a sétima arte. Ao som e contexto de Proibido Proibir, canção de Caetano Veloso, o curta de 10 minutos foi o primeiro filme de ficção de Solberg, espelhando um tempo onde o tédio despretensioso evolui para a ânsia de revolta como única solução diante da censura e do silenciamento impostos pela ditadura militar, sob um manto de humor irônico sutil.

Filmado em 35mm na cidade de São Paulo, com traços de Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut (esse sim reconhecido incontroverso como o pontapé inicial da projeção mundial da Nouvelle Vague), a diretora retrata igualmente as atmosferas de tédio e opressão por meio de ações e imagens que soam por vezes infantis, mas que carregam os significados e símbolos de seu tempo: as revistas de fofoca nas bancas de jornais que ofuscam o noticiário, muros pichados, latas sendo chutadas de forma despropositada, o caderno que é lançado na água e mais explicitamente, o saco plástico colocado sobre a cabeça.

A cineasta permite que as crianças afrontem a câmera, quebrando a quarta parede com o olhar, e com isso, confrontando o sistema que as oprime – o exato momento que precede a revolta. O regime que almeja a uniformidade de pensamento e a passividade, que provoca o desânimo e o ócio dos subjugados, é em Meio-Dia representado pela figura do professor da escola diurna, a autoridade (também autoritária) que tenta disciplinar as crianças como rebanho. 

A resposta está na violência como autodefesa, nas vidraças que se quebram, no transe psicodélico construído pela trilha sonora e no frenesi que a montagem e a direção instauram, num movimento de ruptura que faz da revolta uma experiência sensorial, o levante contra a ditadura no formato de indisciplina infantil levada ao extremo.

Por seu turno, rever A Entrevista na imponente tela grande montada na Praça Tiradentes de Ouro Preto, exibido na presença da própria Helena Solberg e outros nomes gigante do cinema feminino brasileiro, como Lúcia Murat e Tata Amaral, além de provocar um sentimento generalizado de, sim (e por que não?), gratidão pelas existências celebradas ali e pelas trajetórias construídas através de seus trabalhos,  é um acontecimento que nos faz rememorar a importância de celebrar o cinema como entidade viva e constante, mas que precisa dos cuidados e reparos dos profissionais da preservação do audiovisual – esses também secundarizados. 

A Entrevista foi lançado apenas três anos após a escritora e ativista do feminismo Betty Friedan revolucionar seu tempo e os nossos com A Mística Feminina, e sua existência está diretamente conectada com o estudo da obra literária pela diretora. Ambos traduzem uma sociedade burguesa que rejeita o feminismo, através da investigação de mulheres que aderem aos papeis domésticos exclusivos que lhe são impostos como esposas, mães e donas de casa.

A narração da mulher entrevistada, que discursa que mulheres precisam ser socialmente perfeitas, preencher suas vidas com aulas e conferências, bem como se submeter a uma educação rígida, se completa com imagens que expressam esse ideal feminino e consumista que é pregado às classes privilegiadas da década de 1960: toalhas delicadamente bordadas com gatinhos, coleções de perfumes importados e sapatos, roupas e corpos impecáveis, e principalmente, pela figura feminina que tece esses fios lançados por Solberg – a noiva, aquela que após uma tarde na praia, se prepara e se embeleza para subir ao altar.

O discurso conservador vem acompanhado da visão sobre virgindade e a idealização do sexo resguardado para o pós-casamento. Trata-se de uma exposição culta, que evidencia tratar-se não só da representação de uma classe social abastada, mas também e consequentemente, que usufruiu da melhor educação – o que só aumenta o caráter contraditório e mordaz da retórica.

De um lado, uma mensagem que afronta cabalmente a ditadura e questiona a censura através do ponto de vista infantil – num filme de dez minutos. De outro, um retrato social eficaz e certeiro da crescente onda conservadora que deu respaldo, de certo modo, ao regime militar – imagem e movimento em vinte minutos. A contribuição de Helena Solberg ao cinema brasileiro e sua imensidão como símbolo da arte feita por mulheres num setor que marginaliza o gênero, é, incontroversamente, inversamente proporcional à duração desses dois filmes – em sua trajetória, o cinema cumpre a função social para o qual também é destinado. Afinal, toda arte é política, e a realizada por Solberg nunca escondeu esse propósito.

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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