Honestino | 2025

Honestino | 2025

Para muito além de suas importâncias burocráticas e estatísticas, as certidões de nascimento e de óbito carregam significados existenciais: são documentos que atestam que uma pessoa viveu, se tornou sujeito de direitos e encerrou seu ciclo natural neste mundo. Uma pessoa desprovida dessas credenciais identitárias pode até existir no campo fático, mas inexiste como cidadã. O ser humano se torna indigente perante o Estado. 

Quando o próprio Estado transforma o ser humano em indigente, negando-lhe a identidade, isola-o violentamente de seus direitos. Durante a ditadura militar brasileira, não se violaram pessoas somente através da brutalidade física e frontal, mas também por meio do apagamento de suas existências – quantas não foram as mortes não oficializadas e, via de consequência, a impossibilidade de se fechar esses ciclos? Há números: 434 foram as vítimas reconhecidas e posteriormente documentadas como mortas pelo regime. Entretanto, o número de mortes indiretas, a incluir indígenas e camponeses, ultrapassa os 10.000. 

Honestino Guimarães foi um importante líder estudantil, à frente da Ação Popular (AP) e da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (Feub). Na Universidade de Brasília (UnB), onde cursava geologia, nunca pôde concluir a graduação: perseguido político, foi dado como desaparecido em 10 de outubro de 1973, aos 26 anos. O seu falecimento nunca foi oficializado; sua trajetória ficou suspensa, impossibilitada de prosseguir ou de se encerrar. 

Somente em 1996 o Estado reconheceu a responsabilidade por seu desaparecimento, ocasião em que a família recebeu o atestado de óbito do estudante. O documento, no entanto, omitia a razão do falecimento, detalhe que só foi retificado em abril de 2014, quando passou a constar expressamente a causa: “atos de violência praticados pelo Estado”. 

A existência de Honestino Guimarães, por tanto tempo negada, foi atestada não só pela ação estatal absolutamente tardia, com a emissão de sua certidão de óbito, mas também através da obtenção de, digamos, uma certidão cinematográfica, com Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, que, híbrido, funde o documentário e a ficção para devolver ao jovem, tão precocemente vitimado, o direito à vida que lhe fora roubado: uma existência recriada pela arte, é verdade, porém permanente e honrosa à sua memória. 

O documento fílmico assinado por Michiles não poderia ter caráter mais pessoal: o cineasta amazonense viveu o auge da ditadura militar como aluno de Arquitetura da UnB, sendo ele próprio uma das testemunhas e depoentes da obra. O diretor retrata o horror daqueles tempos ao transformar os escritos e cartas de “Gui” – como o líder era carinhosamente chamado pelos mais próximos – em uma narração poética na voz de Bruno Gagliasso, que encarna o jovem na dimensão ficcional do longa. 

Ao mesmo tempo que promove uma conscientização fundamental sobre a relevância histórica dos movimentos estudantis na luta democrática, há, em Honestino, uma bonita fabulação sobre a atmosfera, o tempo, os estudos, a troca de conhecimento e as pessoas que integraram tais coletivos. O diretor não ficcionaliza, propriamente, pela reconstituição  fria dos fatos, mas sim por meio da evocação de memórias que se revelam, simultaneamente, aterrorizantes e afetuosas. 

Quando retrata, na ficção, a universidade, os estudantes e os alojamentos, a fotografia é acalorada e acolhedora, tornando perceptível a nostalgia e até certa idealização de Michiles sobre o que houve de luminoso em tempos tão sombrios: jovens reunidos em torno do mesmo propósito de luta, que estudavam Marx e Lênin em comunhão para se armarem de conhecimento, movidos por idêntica coragem para arriscarem-se por um bem maior – e desejando, no fundo, apenas viver como outras pessoas de sua idade. Esse equilíbrio, ainda que árduo de ser alcançado, é a síntese da figura que somos convidados a conhecer: um jovem pai, casado duas vezes, que gostava de namorar, jogar futebol e ouvir samba. 

Na ficcionalização, portanto, não havendo o compromisso de tratar criativamente a realidade, firma-se um pacto com as possibilidades poéticas do cinema. Enquanto os escritos de Honestino são declamados por jovens coreograficamente dispostos na imponente arquitetura da UnB, evocando nostalgia, respeito e a celebração de uma causa, a experimentação da imagem, a falta de nitidez e as luzes são empregadas de forma mais perturbadora, representativas do terror do regime, das perseguições, dos desaparecimentos e da morte. 

Honestino permite que “Gui” exista não apenas através da interpretação de Gagliasso, mas também pelas vozes daqueles que testemunharam sua jornada. A estrutura documental equilibra as tradicionais entrevistas em cabeças falantes com arquivos visuais e vídeos gravados, sobretudo, no espaço da UnB. Acompanhamos as memórias de suas esposas, de sua filha, Juliana, de parentes e de companheiros de militância – falas que se costuram à encenação, enquanto a realidade crua da violência é apresentada de forma direta por meio dos documentos históricos. Michiles confere movimento às fotos como Raoul Peck faz em suas obras, recurso que aproxima a imobilidade da imagem ao dinamismo do cinema e convida o espectador a um olhar mais profundo ao registro. 

Em que pese a significância de cada relato sobre Honestino, vivo nas memórias proferidas a seu respeito, há dois depoimentos-chave que dimensionam o peso do seu desaparecimento. O primeiro é o de sua filha, Juliana, que não guarda lembranças do pai, já que tinha apenas três anos quando de seu sequestro. O afeto e a relação, dessa forma, são construídos pela força do vínculo e, mormente, pelo enigma das fotografias que ela busca decifrar – o próprio filme, nesse ponto, atua como formador de uma memória faltante. Trata-se da dor da ausência: a dor do não-viver, da interrupção das possibilidades e da especulação do que poderia ter sido. O outro depoimento é o de sua mãe, Maria Rosa: se ela jamais esperaria ter de enterrar o próprio filho, sequer esse direito lhe foi concedido. A ela, permitiu-se uma última visita ao jovem na prisão, direito que logo lhe retiraram – ao chegar ao local, disseram-lhe que “Gui” já não estava ali, e ela imediatamente compreendeu. 

São muitas as formas pelas quais Honestino recebe, postumamente, a existência que lhe foi ceifada. Michiles faz jus à sua memória e dedica-se a construí-la não apenas como homenagem, mas como reparação ao direito de viver que lhe foi abruptamente negado pelo Estado opressor. Ao fazer da dor e da ausência um ato poético, o cinema cumpre o papel que a burocracia estatal falhou em exercer: atestar que Honestino existiu, resistiu e permanece vivo. 

Nota:

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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