Anistia 79 | 2026

Anistia 79 | 2026

Em 31 de março de 1964, o Brasil sofreu um golpe militar. O então presidente João Goulart foi deposto, dando início a um período de 21 anos maculado por repressão, censura, suspensão de direitos e perseguição de opositores, que viviam sob a constante ameaça de serem submetidos à tortura e à morte – o que, de fato, ocorreu com frequência. O regime perdurou até 1985. 

A Comissão Nacional da Verdade, instituída para investigar e apurar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, com especial atenção aos crimes praticados durante a ditadura militar, atuou entre 2012 e 2014 e concluiu que 434 mortes foram oficialmente reconhecidas como diretamente provocadas pelo regime por motivação política. Ainda hoje, porém, os parâmetros adotados pela CNV são objeto de questionamentos, uma vez que seus dados contemplam apenas as mortes de natureza política, deixando de abranger a perseguição aos povos indígenas, aos camponeses e outros óbitos decorrentes, de forma indireta, da repressão.

Sob uma perspectiva mais ampla, com base em critérios mais abrangentes, estudiosos estimam que a ditadura tenha causado, direta ou indiretamente, cerca de 10 mil mortes no Brasil. Em outras palavras, aproximadamente 10 mil pessoas perderam a vida para que o regime de exceção fosse derrubado, o que levou mais de duas décadas para se concretizar. Consciente ou inconscientemente, essas pessoas entregaram suas vidas para que as gerações seguintes pudessem usufruir da democracia. Lutaram, portanto, por um ideal cujos frutos jamais puderam vivenciar. 

São cerca de 10 mil pessoas e, ao redor delas, 10 mil famílias, 10 mil círculos de amizade e incontáveis outras vidas diretamente impactadas pelo autoritarismo – todas amargaram as consequências da violência para que nós, nascidos após tempos tão obscuros, pudéssemos encontrar alguma paz democrática.

Menos de 40 anos depois, em 2022, o então presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, articulou, juntamente com seus aliados, uma nova tentativa de golpe de Estado no Brasil. Os planos criminosos foram revelados pela Polícia Federal e tinham como objetivo impedir a posse do presidente eleito pelo povo, Luiz Inácio Lula da Silva. A conspiração culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, quando apoiadores do ex-presidente golpista invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes da República.

Corremos, como democracia, o risco de sofrer uma nova ruptura institucional em 2022. Apenas quatro anos depois, às vésperas de novas eleições presidenciais, o filho do ex-presidente golpista e criminoso já se anuncia como possível candidato. O flerte com o autoritarismo ressurge na figura do sucessor – a relação, aqui, é indissociável. 

Se, em apenas quatro anos, já parecemos ter esquecido os crimes cometidos contra a democracia, onde se encaixa a memória daquelas cerca de 10 mil vidas ceifadas pela ditadura? Como escolhemos, enquanto país, honrar seus sacrifícios? Teriam morrido, diante da constante instabilidade de nossa democracia, em vão?

O cinema, como arte e ato político que é, também pode servir como instrumento de memória, trazendo à tona aquilo que o mundo – e, de forma ainda mais preocupante, o apagamento provocado pelo excesso de informações – insiste em ocultar de nós. Anistia 79, documentário dirigido por Anita Leandro, exibido na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto e grande vencedor da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, estabelece uma simbiose entre memória e arquivo para cumprir um dever de honra àqueles que lutaram pelo estabelecimento e pela manutenção do Estado de Direito, tendo como eixo um acontecimento específico: os registros da Conferência Internacional de Anistia, encontro de exilados políticos brasileiros realizado em Roma, capital italiana, em 1979.

Anistia 79 materializa os que morreram e os que lutaram por nosso país. Dá corpo e rosto a essas pessoas e humaniza suas existências. O encontro filmado torna-se acervo e matéria-prima para que a diretora estabeleça um fio capaz de evocar uma história pouco lembrada e costurá-la ao presente. Após o processo de restauração das imagens, Leandro as exibe, em tela grande, a algumas das pessoas que estiveram presentes na conferência, então exiladas, e que sobreviveram à luta e ao tempo. 

O documento de gravação, que tornou imortal outro documento – o conferencial, resultado do encontro que reuniu mais de 500 pessoas do mundo todo -, perpassa as inúmeras frentes de combate ao regime. Da militância pacífica à armada, dos políticos de esquerda aos trabalhadores e representantes sindicais, os discursos a que assistimos, juntamente com os convidados da diretora, refletem uma frente ampla de resistência à ditadura. Esses personagens (re)descobrem a si mesmos, assim como seus entes e companheiros de luta, ao terem acesso às imagens inéditas disponibilizadas por Leandro. Nós, espectadores de Anistia 79, para além de testemunharmos o resgate da memória por aqueles que vivenciaram os acontecimentos aos quais o filme remete, descobrimos esses personagens em duas camadas, metalinguisticamente: no filme de Anita Leandro e no arquivo fílmico da conferência. 

Seria fácil para a diretora transformar as imagens restauradas em um documentário histórico previsível. Seria factível que o material viesse acompanhado de uma narração explicativa e didática sobre aquele importante momento. No entanto, Leandro recusa esse terreno seguro para transitar pela beleza da espontaneidade (claro, controlada pela presença da câmera e pela formalidade da proposta), permitindo o protagonismo àqueles que fizeram essa história acontecer. São eles os narradores. As reações advindas desse primeiro contato com o material são, quiçá, o que há de mais valioso emocionalmente no documentário: a reduta e exclusiva audiência escolhida pela diretora se surpreende, se deleita e rememora, com saudade e dor, o passado, ao se verem e ao reverem pessoas queridas, amigos e familiares, reencontrando aquilo que nem eles sabiam permanecer ali, conferindo novo corpo aos vestígios reminiscentes da luta. 

É, de fato, como se as imagens fossem devolvidas àqueles que as produziram involuntariamente, transformando a sessão de projeção em um segundo acontecimento histórico. Pessoas reconhecem companheiros, procuram antigos rostos na multidão, pedem que a projeção seja rebobinada para rever um instante e identificam familiares: reconstroem coletivamente uma memória que parecia fragmentada pelo tempo e pela violência.

Conhecendo a tendência de manipulação da memória por aqueles que desejam minimizar a violência e os horrores do regime militar, Anistia 79 recorda o óbvio que precisa ser recordado: não houve conciliação, mas sim, luta. A anistia não foi um gesto espontâneo do Estado brasileiro, tampouco como fruto de um consenso político, mas como conquista arrancada por trabalhadores, estudantes, familiares de presos e desaparecidos, exilados e militantes, mortos e sobreviventes, que insistiram em manter viva a democracia. 

Rememorar a dor não é um processo fácil. Não é à toa que, diante de experiências traumáticas, a memória se torna fragmentada ou difícil de acessar, enquanto o esquecimento pode operar como um mecanismo de proteção psíquica. Muito do que se esquece nasce desse lugar de sobrevivência. Todavia, é preciso coragem para compreender o resgate como aprendizado constante e como um mecanismo indispensável para impedir o retrocesso coletivo. Em Anistia 79, não vemos a violência, mas sua descrição revela o projeto de apagamento não apenas de pessoas, mas de identidades e existências inteiras. A tortura e a morte lentamente provocada desfiguravam rostos, tornando-os irreconhecíveis. Ainda assim, o exercício de lembrar permite que essas imagens sobrevivam. 

“O que é anistia?”, pergunta-se em determinado momento do filme. A resposta é de uma simplicidade desarmante: “É ir para o Brasil”. Interessa à Anita Leandro não só o debate jurídico, mas sobretudo, sua dimensão humana. Para os exilados, a anistia significava a possibilidade de voltar para casa, rever a família, recuperar a própria identidade e dar continuidade a uma existência suspensa pela violência de Estado – ou seja, o gozo pleno dos direitos fundamentais.

A democracia, como a paz, é indivisível“. Anistia 79 transcende o campo da preservação audiovisual para se afirmar como ato político. Se hoje voltamos a conviver com discursos autoritários e com a naturalização de projetos de ruptura institucional, revisitar essas imagens se torna um dever ético. Afinal, por quem lutaram aqueles que morreram, se continuarmos dispostos a esquecer o preço que foi pago pela democracia?

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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