Curtas da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto
A organização da exibição dos curtas-metragem da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto carregou como dever não só estabelecer uma costura temática que fizesse sentido ao festival que celebra a preservação e o cinema como arquivo e patrimônio histórico, mas também formar diálogos, no que se refere ao catálogo de curtas-metragens, entre as obras exibidas no mesmo dia.
Mineração e exploração como sinônimos e simbologia. Exploração de pessoas, exploração de animais, o trabalho e o sofrimento em prol do enriquecimento de alguns. Os curtas Ouro de Tolo Remix, de Gabriel Afonso, Terceira Montanha, de Tetsuya Maruyama, Cinzenta: Inventários da Chaminé, de Natália Reis e Sem Título #11: Um Analecto à Mula, de Carlos Adriano, carregam em si o peso do capitalismo instrumentalizado na opressão e no adoecimento dos mais fracos. Sobre essa conexão e o que cada um deles tem a dizer através da imagem experimental, falaremos abaixo.

Ouro de Tolo Remix, de Gabriel Afonso
Nova Lima, em Minas Gerais, é uma das cidades mais ricas do Brasil. A abundância caminha lado a lado com a descoberta da mina de ouro Morro Velho, em 1720, mas é inversamente proporcional ao usufruto de tais riquezas pela população – a consequência da mineração e da poeira produzida pela atividade foi o adoecimento. Benção para uns, maldição para outros, a exploração do ouro na região integra o remix de quatro minutos de Gabriel Afonso que, num tom propositadamente sensacionalista, denuncia as mazelas da presença de sílica no ar.
Ouro de Tolo Remix sabe aproveitar com eficácia o pouco que tem: é direto, engaja nossa atenção e faz seu desvelamento de forma clara, objetiva e irônica. Em Nova Lima, a riqueza carrega as marcas da doença e da morte por silicose, causada pela inalação prolongada da poeira formada pela extração. A doença é incurável e progressiva. Afonso não hesita: trabalhar na mina, a 1500 metros abaixo do mar, é passaporte seguro para a doença.
A remixagem do material de arquivo utilizado pelo diretor em efeito de repetição e reiteração dá conta de transmitir a urgência do tema. Ao fazer uso da lógica publicitária como instrumento de crítica, Ouro de Tolo Remix expõe o paradoxo de uma cidade que se desenvolveu com a promessa de prosperidade ao custo do adoecimento de sua população trabalhadora – o capitalismo selvagem em sua forma natural.

Terceira Montanha, de Tetsuya Maruyama
Percebemos a contaminação em Terceira Montanha, de Tetsuya Maruyama, antes mesmo que ela se revele. O verde fluorescente, no tom signo do veneno e o excesso de ruído que toma a tela, fazem da própria textura do filme um espaço inseguro. Partindo de slides em 35 mm cedidos pela própria MBR (Minerações Brasileiras Reunidas), empresa brasileira de mineração, Maruyama concede sensorialidade ao arquivo produzido para documentar a atividade extrativista e o transformar em um estudo imagético de seu caráter predatório. A terceira montanha título se torna um aspecto sombrio da paisagem, pois composta por resíduos daquilo que foi retirado da mineração.
Não há uma relação causal explicitada por Maruyama, mas uma montagem fundamentada no sensorial que aproxima imagens aparentemente desconexas até que elas passem a compartilhar do mesmo sentido. A exploração mineral acompanha a transformação da paisagem e sua posterior conversão em atração turística, diferentes etapas, portanto, de uma mesma operação, sustentada por um olhar que naturaliza tanto a extração quanto o espetáculo.
Terceira Montanha faz do ruído um elemento político. As oscilações cromáticas e a deterioração visual se mostram cicatrizes de uma contaminação que vai além do solo e nos alcança pela própria imagem.

Cinzenta: Inventários da Chaminé, de Natália Reis
Uma voz feminina magnética conta, como se conosco estivesse tomando um café, com simplicidade e um bom humor quase inocentes, a respeito da presença nociva da Companhia Brasileira de Carbureto de Cálcio na cidade de Santos Dumont, Minas Gerais. O tom da conversa até destoa da gravidade do assunto, mas é, notoriamente, reflexo do modo como a população daquela região foi submetida à exposição ao carbureto de cálcio sem qualquer compreensão acerca de sua toxicidade.
Cinzenta: Inventários da Chaminé, dirigido por Natália Reis, por meio do relato pessoal das mulheres de sua família, faz da presença onipresente da chaminé da carbureteira em sua cidade um mau presságio tanto atraente como temido, um monumento cujo ponto de vista reflete a coexistência de diferentes tempos numa mesma paisagem.
O depoimento familiar, arquivo de denúncia do filme e também prova testemunhal dos “crimes industriais” ali cometidos, recorda uma infância entre pedras de carbureto recolhidas nos trilhos, brincadeiras ao redor da fábrica, caminhões de carvão e uma poeira cinza que caía a olho nu, como chuva, sobre as casas, as ruas e os olhos de quem ali vivia.
A CBCC alcançou o feito de naturalizar a contaminação e a doença. Enquanto os jornais cobravam providências, a cidade seguia organizada em torno da companhia, que fazia promessas de sustentabilidade da atividade. Hoje ruína, a chaminé ainda se impõe e não permite esquecer o passado exploratório que carrega. Cinzenta: Inventários da Chaminé faz da antiga chaminé um arquivo permanente de uma cidade que aprendeu a conviver com a poeira antes de perceber que ela também era violência.

Sem Título # 11: Um Analecto à Mula, de Carlos Adriano
A operação capitalista impõe suas mazelas aos menos favorecidos, menos privilegiados e mais inocentes – e aqui, em tal categoria, encaixa-se a exploração dos animais em prol do lucro dos poucos. Como o próprio título sugere, Sem Título #11: Um Analecto à Mula rejeita a narrativa e reúne fragmentos. Carlos Adriano faz da mula um ponto de convergência para um conjunto de imagens, poemas, referências literárias, históricas e cinematográficas que recusam qualquer linearidade, mas caminham juntas na formulação da crítica ao capital.
A exploração do trabalho animal advém da própria abordagem do tema pelo cinema e é conduzida pelo poema do cubano José Lezama Lima, “Rapsódia para a Mula”, extraído do livro A Fixidez (1949), recitado na voz do próprio autor. Forma-se um compêndio de imagens que perpassa Chaplin e Orson Welles, Robert Bresson e Jerzy Skolimowski, onde nada se organiza por hierarquia ou causalidade.
Adriano propõe que o pensamento nasça do atrito entre as imagens, permitindo que elas se contaminem mutuamente até produzirem significados que dificilmente existiriam de forma isolada. O filme exige do espectador menos um esforço de compreensão do que uma disposição para deglutir – ou, por vezes, recusar essa deglutição.
É fato que o excesso de letreiros em tela, respeitosos ao poeta homenageado, não são aproveitados ou compreendidos pelo espectador de forma plena. A leitura de todo contéudo é impossível, e incomoda a sensação de que algo importante foi deixado para trás na experiência ante essa impossibilidade. No entanto, pela sensorialidade, pela conexão das imagens, segundo Sem Título #11: Um Analecto à Mula, a exploração impiedosa da mula permanece – assim como a nossa.
