Vivo 76 | 2026

Vivo 76 | 2026

Se é certa a afirmação de que uma pessoa é composta de muitas facetas que habitam um único corpo, e que a maioria encontrará abrigo na homogeneidade de uma dessas versões possíveis, é absolutamente verdadeiro afirmar que uma parcela, talvez muito seleta, dessas pessoas possui a capacidade de habitar e viver todas essas variações, encontrando sentido e conexão em todas elas. O músico pernambucano Alceu Valença quiçá seja o exemplo perfeito desse seleto grupo: além de músico, é multi-instrumentista, advogado, palhaço de circo, ator, diretor de cinema, poeta e jogador amador de basquete. Vivo 76, novo documentário de Lírio Ferreira – também pernambucano -, exibido na 6ª edição do Citronela Doc (Festival de Documentários de Ilhabela – SP), dá conta de transmitir ao espectador toda a energia que pulsa freneticamente do cantor ao assumir essa diversidade unida em uma só pessoa que, como ele mesmo diz, está sempre ligada nos 220 volts. 

No ano de lançamento do filme, 2026, Alceu Valença completou 80 anos no dia 1º de julho. O documentário invariavelmente assume uma natureza comemorativa – e Lírio Ferreira proporciona, de fato, uma festa cinematográfica. Ainda que atravesse períodos mais sombrios da vida do artista, como os medos e a censura do regime militar, ele mesmo relatando as tantas vezes em que foi chamado para explicar as letras de suas canções, não há outra atmosfera possível para Vivo 76 que não a festiva e a celebrativa, que encontra cor e vibração mesmo nas imagens de arquivo em preto e branco. 

É Alceu o narrador de seu próprio filme – nada mais pertinente -, muito embora o diretor dê espaço para que relatos próximos de outras personalidades do mundo da música, como Geraldo Azevedo, com quem guarda uma longa parceria musical, e Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs, contem suas histórias relacionadas ao cantor homenageado. Alceu, entretanto, parece dominar facilmente todos esses espaços, estando neles ou não: mesmo na fala de Azevedo, Alceu intervém. Se no documentário há uma linha tênue no que se refere à responsabilidade do cineasta em assumir a história do outro como se sua fosse e, com isso, lidar com as consequências desse domínio, já que se trata do retrato de uma vida não ficcional, em Vivo 76 fica evidente que Valença se afirma como dono de sua própria história, mesmo quando contada pelo olhar artístico de Ferreira. 

O documentarista impõe à representação da carreira do músico uma limitação temporal que se revela no próprio título. Vivo! é um álbum lançado em 1976 pelo artista pernambucano, sendo o primeiro ao vivo e o segundo solo de sua carreira. Portanto, suas canções mais populares – verdadeiros hinos da música brasileira, como Anunciação (1983), La Belle de Jour (1992), Tropicana (1982) e Girassol (1987) – ficam de fora do filme. O que se vê é a psicodelia da década de 1970, os tempos de ator como protagonista de A Noite do Espantalho (1974), de Sérgio Ricardo, a vivência de seus estudos em Harvard e a efervescência de sua juventude. De 1976 salta-se para o presente, para o aqui e o agora. O “vivo” que dá nome ao título não faz referência apenas ao álbum: Alceu vive, e mais do que nunca, consciente de tudo o que representou, representa e significa – uma consciência que fica evidente em Vivo 76

Há de se considerar que, em que pese o artista seja uma figura real, há nele um aspecto ficcional, de representação e performance, que vai além daquele proporcionado pela simples proximidade da câmera cinematográfica – pois, invariavelmente, trata-se de uma personalidade habituada à exposição ao dispositivo. Lírio Ferreira, assim como nós, se mostra fascinado por essa figura emblemática, que é, ao mesmo tempo, tão acessível e natural quanto distante por suas máscaras performáticas. Não se trata de afirmar, de forma alguma, que Alceu Valença seja um artista que se esconde por trás de algo; pelo contrário: sua personalidade artística é tão inerente à sua natureza que talvez já não haja limite entre a representação e a verdade. 

O músico nos conta como descobriu sua capacidade de cantar. Em sua infância, buscava-se uma criança que cantasse e, ao saber disso, sua tia indicou o pequeno Alceu: “Ele é meio doidinho, capaz que cante”. Ele cantou, mas não levou o prêmio do concurso – a caixa de sabonetes foi dada a outro participante.  Além disso, a mãe de Alceu era pianista e nos revela, através de imagens de arquivo resgatadas pelo diretor, que o filho aprendeu a tocar violão apenas observando, e foi a partir daí que ela compreendeu que nele havia um dom diferenciado. 

Vivo 76 cruza, ainda, a história do artista com a do mundo, buscando em acontecimentos paralelos a contextualização do momento histórico e a influência destes na vida e na música do advogado-poeta: a Guerra do Vietnã, o movimento hippie, os Panteras Negras, a Ditadura Militar, o sucesso de Bob Dylan… Tudo, de algum modo, direta ou indiretamente, atravessou sua vida e sua personalidade — assim como, e principalmente, a história de seu estado, Pernambuco. 

“Doidinho”, “ligeiro”, “natural”, “meio tímido”, “elétrico”, “teimoso”, “maluco” – todos esses adjetivos aparecem em Vivo 76 e são referências dadas pelo próprio compositor a si mesmo. Todas soam corretas. Afinal, como ele mesmo diz: “Um artista sem um grau de loucura é um pequeno escravo da indústria do entretenimento”. A multiplicidade que compõe Alceu Valença, tão bem assimilada por Lírio Ferreira na essência deste documentário, deu origem a uma mistura profundamente brasileira e autoral, que se enraizou em nossa cultura como um patrimônio coletivo: trouxe eletricidade às raízes do Nordeste e recusou a sonoridade estrangeira que dominava sua época, criando uma identidade musical única que ele ofereceu ao Brasil. 

Nota:

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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