Gonzaguinha, Da Maior Liberdade | 2026
“Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre muito obrigado
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado”
Comportamento Geral, música de Gonzaguinha
Homens vivem amarrados dentro de uma caverna, de tal modo que sequer poderiam mover suas cabeças. Tudo que conhecem está ali: as imagens que enxergam na parede do fundo. Nunca saíram. Sempre reconheceram as sombras como a verdade de suas vidas. Certo dia, um deles consegue escapar e caminha para aquele até então inexistente mundo exterior. Lá fora, seus olhos queimam pelo sol que jamais tinha visto. Aos poucos volta a ver e descobre que aquilo que tomava como realidade era apenas um reflexo, uma aparência diante da vastidão que agora presenciava. Há um sem-fim de conhecimento fora da caverna para ser explorado! Mas, antes, é preciso retornar para lá e avisar aqueles que ficaram, afinal eles também merecem a verdade.
Com a alegoria da caverna, contada por Platão no livro A República, podemos pensar o papel primordial do intelectual: o retorno. A capacidade que se tem em ler os pequenos mecanismos sociais e entender que a realidade está além do que normalmente se vê implica na necessidade de contá-la (ou cantá-la) aos quatro cantos. Esse intelectual não foge, ele enfrenta o que lhe foi imposto com o propósito de fazer com que outros percebam aquilo que se esconde, utilizando as ferramentas que tem nas mãos: às vezes uma caneta ou um pincel.
Assim fez Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha. O compositor e cantor brasileiro esteve ao lado de outros grandes nomes na contestação da ditadura militar. Fez das inquietações de seu cotidiano no subúrbio carioca poderosas poesias de denúncia. Ironizou o comportamento geral que se exigia naquela época e viu na resistência da juventude a sua força de artista.
No documentário Gonzaguinha, Da Maior Liberdade, a diretora Susanna Lira traz uma interpretação muito próxima desta que escrevemos acima. Seu personagem principal é o guia de sua própria trajetória, levando-nos não apenas a datas e fatos históricos, mas à vida de alguém que se dedicou ao retorno para cantar o mundo em que vivia.
O “pivete levado” do morro do São Carlos, criado pelos padrinhos, longe dos holofotes de seu pai, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, decidiu descer e colocar a “perna no mundo”, como escreveu na canção. Cantou as alegrias do carnaval e as dores dos trabalhadores. Foi para a universidade e conheceu a luta dos estudantes que se rebelavam contra o golpe. Gonzaguinha transformou cada passo em música, canções que acompanham o filme de maneira muito fluida.
A decisão mais acertada da diretora foi colocar Gonzaguinha como fio condutor, tendo como base uma entrevista dada ao jornal O Pasquim, em 1981, que é reencenada no filme. Ao contrário da armadilha que muitos outros documentários criam para si mesmos ao dramatizar uma situação, aqui é algo que combina poeticamente com as outras imagens. A excelente interpretação de André Dale e a fotografia de Rafael Mazza contribuem para que a ficcionalização não pareça um corpo estranho no documentário.
Essas cenas e áudios se intercalam com filmagens de arquivo que cada vez mais apresentam ao espectador o processo criativo do cantor, evidenciando que, para ele, a arte e a vida são indissociáveis. A música se coloca como consequência daquilo que presencia, da tentativa de comunicar aos outros o jeito que vê o mundo. Nem sempre nasce do rancor provocado pela ditadura ou pela ausência paterna; também nasce do amor, da esperança na luta, do calor do carnaval e dos amores.
No mito da caverna de Platão, o sujeito que volta para contar a novidade a seus parceiros acaba sendo ridicularizado e considerado louco. Eles não querem sair daquilo que estão acostumados; é muito trabalhoso questionar. Susanna Lira entende a necessidade de persistir nesse retorno e por isso faz de Gonzaguinha, Da Maior Liberdade um filme vivo e não uma mera descrição histórica de uma personalidade.
Ao associar as músicas de Gonzaguinha com os dias atuais, não é preciso nenhum esforço para entender que ainda é necessário resgatar as palavras do artista porque ainda teimamos em não ouvi-lo. Não à toa Gonzaguinha, Da Maior Liberdade saiu vencedor do Kikito de Melhor Longa-Metragem Documentário no Festival de Gramado deste ano.
