Children Untold | 2026
Cobertura do TIFF (Festival de Toronto 2026), por Carol Ballan
Título Original: わたしの知らない子どもたち (Watashi no Shiranai Kodomotachi)
Direção: Miwa Nishikawa
Roteiro: Miwa Nishikawa
Elenco principal: Ami Koyae, Fumi Nikaido, Junichi Okada, Yoh Yoshida, Yuko Tanaka
Duração: 151 min (2h31min)
Enquanto no Brasil estamos passando pelo momento de relançamento de O Túmulo dos Vagalumes nos cinemas, a diretora Miwa Nishikawa decide fazer uma nova leitura sobre os mesmos fatos históricos em Children Untold. Quase 40 anos após essa primeira leitura sobre a situação das crianças que se tornaram órfãs por conta da II Guerra Mundial, vemos uma versão em live action e dirigida por uma mulher.
Recentemente, enquanto assistia ao Túmulo dos Vagalumes, tive a percepção de que filmes que retratam guerras reais sempre terão uma dificuldade de compreensão para espectadores brasileiros por conta do pouco envolvimento histórico da nossa nação nesses grandes conflitos internacionais. De maneira geral, poucas famílias tiveram membros que estiveram em conflitos militares e não temos as questões de gerações que passaram por traumas como bombardeios ou alistamentos. É claro que, no lugar disso, tivemos os nossos próprios problemas, como a ditadura militar – que, inclusive, está sendo bastante revisitada pelo nosso cinema no momento -, mas existe um pormenor que conseguimos compreender racionalmente, mas possivelmente não temos a mesma resposta emotiva dedo que alguém que esteve mais envolvido nas questões. Os filmes acabam sendo nossas portas de entrada tanto para conhecer esse tipo de história, mesmo que ficcionalizada, como parae possibilitar uma empatia por personagens e situações que nos ajudam a compreender melhor o mundo.
Um filme como Children Untold nos ajuda a compreender um pouco mais da história do Japão antes dele se tornar a nação tecnológica que conhecemos hoje. Acompanhamos paralelamente a história de Kotoko (Ami Koyae), uma criança de Tóquio que se encontra evacuada no interior, em uma política que existiu durante a guerra e que visava afastar os jovens dos grandes centros civis que estavam passando por bombardeios frequentes. Começamos lidando com a situação desconfortável das crianças, que, por vezes, eram ostracizadas no interior, onde conhecemos a outra força motriz da narrativa, sua professora Fumiko (Fumi Nikaido), que as acompanha. Já temos uma noção da despersonalização sofridacausada pelo grupo de deslocados, assim como um primeiro vislumbre dos horrores da guerra, mas o filme segue sem medo algum de colocar o dedo na ferida para fazer essa revisita ao passado.
O tom melodramático é inevitável, até por ser baseado nessas situações de vidas muito complexas e cheias de sofrimento. Mas a diretora consegue seguir por um caminho muito atrelado à tradição japonesa de imprimir os sentimentos no cinema que evita o que é mais caricato e vai em busca do que é profundamente humano. Existem situações apavorantes acontecendo em tela, mas no geral, o filme vai preferir focar nos olhos de quem as está vivenciando vivendo do que em mostrar a violência em si. Por lidar com uma maioria de elenco infantil, é necessário ter um equilíbrio entre o que é mostrado e o que é sugerido, e o acerto é visceral para o funcionamento da narrativa. Há um momento específico no qual a jovem Kotoko percebe, por exemplo, o quanto ser mulher pode ser potencialmente mais perigoso em sua situação do que ser homem naquele contexto. Apenas a troca de olhares que ela tem com a outra mulher nessa cena já é suficiente para que toda essa mensagem seja passada, mas por vezes a obra insiste em repetir de maneira oral o que já está aplicado em tela.
A cada novo movimento da trama, vamos descobrindo uma nova faceta do quanto o conflito teve de efeitos naquela geração que cresceu enquanto a guerra estava acontecendo. Nishikawa também tem uma coragem fora do padrão em reconhecer questões pouco abordadas na filmografia tradicional, que vão desde o comportamento japonês em relação aos coreanos naquele momento, até as políticas governamentais completamente desencontradas em relação ao que a sua população precisava. Colocando a força de cada indivíduo e o poder das relações entre eles em primeiro plano, cria-se uma espécie de conto de horrores e percalços sobre a sobrevivência.
O valor de produção do filme também é um assunto que deve ser comentado, tanto por toda a reconstrução histórica realizada quanto pela capacidade de realizar um épico tanto em duração quanto em escala. Em cenas como as da estação de trem, com uma infinidade de figurantes e detalhes, percebe-se a preocupação com cada elemento que entra no enquadramento, assim como a diferença que faz termos um país que se preocupa em manter vivas as suas tradições e modos de produção tradicionais, mesmo que em menor escala.
Vindo de em uma onda de revisitação ao passado recente da humanidade, em um momento em que o fascismo parece estar assumindo posições importantes em diversos lugares do mundo, a obra vem como uma pausa necessária para refletirmos sobre acontecimentos recentes.
English Version (tradução por Renata Torres)
Children Untold (Japan, 2026)
Original Title: わたしの知らない子どもたち (Watashi no Shiranai Kodomotachi)
Director: Miwa Nishikawa
Screenplay: Miwa Nishikawa
Cast: Ami Koyae, Fumi Nikaido, Junichi Okada, Yoh Yoshida, Yuko Tanaka
Runtime: 151 min (2h 31min)
While Brazil is currently seeing a theatrical re-release of Grave of the Fireflies (火垂るの墓, Hotaru no Haka, 1988) director Miwa Nishikawa offers a new perspective on the same historical events in Children Untold. Nearly 40 years after that initial portrayal of children orphaned by World War II, we now see a live-action version directed by a woman.
Recently, while watching Grave of the Fireflies, I realized that films depicting real wars can be difficult for Brazilian audiences to fully grasp, given our nation’s limited historical involvement in these major international conflicts. Generally speaking, few families had members who served in military conflicts, and we lack the generational experience of traumas such as aerial bombings or conscription/enlistment. Of course, we had our own struggles, such as the military dictatorship — a subject currently being revisited frequently in our cinema — but there is a nuance here: while we can understand these events intellectually, we may not share the same emotional response as someone more directly affected by them. Films serve as gateways, allowing us to discover these stories, even when fictionalized, and fostering empathy for characters and situations that help us better understand the world.
A film like Children Untold helps us understand a bit more about Japan’s history before it became the technological powerhouse known today. Running parallel to this is the story of Kotoko (Ami Koyae), a child from Tokyo evacuated to the countryside, which was a wartime policy aimed at moving young people away from major urban centers facing frequent air raids. We begin by addressing the uncomfortable plight of these children, who were often ostracized in rural areas; it is here that we meet the narrative’s other driving force, their teacher Fumiko (Fumi Nikaido), who accompanies them. We gain a sense of the depersonalization experienced by the displaced group of children and catch an early glimpse of the horrors of war, yet the film revisits the past without fear of confronting painful truths.
A melodramatic tone is inevitable, given the subject matter involves complex lives marked by profound suffering. However, the director steers a course rooted in the Japanese cinematic tradition of conveying emotion, avoiding caricature in favor of a deeply human perspective. While terrifying events unfold on screen, the film generally chooses to focus on the eyes of those experiencing them rather than on the violence itself. Balancing what is shown versus what is merely suggested is essential, especially with a cast largely composed of children, and the film strikes this balance with visceral effectiveness. There is a specific moment, for instance, when young Kotoko realizes that being female in her situation carries potentially greater danger than being male. The mere exchange of glances between her and another woman in that scene conveys the entire message; yet, at times, the film insists on verbally reiterating what has already been powerfully established visually.
With each new turn of the plot, we uncover another facet of the conflict’s impact on the generation that came of age while the war raged on. Nishikawa also displays exceptional courage in addressing issues rarely explored in traditional cinema — from Japanese attitudes toward Koreans at the time to government policies that were completely out of touch with the population’s needs. By placing the strength of the individual and the power of interpersonal relationships at the forefront, the film crafts a harrowing tale of survival and adversity.
The film’s production value also merits discussion, particularly regarding the historical reconstruction and the ability to execute an epic in both runtime and scale. In scenes such as the one at the train station, featuring a multitude of extras and intricate details, one notices the meticulous attention paid to every element within the frame, as well as the impact of a country committed to preserving its traditions and traditional production methods, however small-scale they may be.
Arriving amidst a wave of films revisiting humanity’s recent past, and at a time when fascism appears to be gaining ground in various parts of the world, this work serves as a necessary pause for reflection on recent events.
