Insaciável | 2026
Um body horror associado a negação da forma fora do padrão
Poucas experiências são tão violentamente normalizadas na juventude quanto aprender a odiar o próprio corpo. Desde muito cedo, jovens mulheres são ensinadas a enxergar a magreza não apenas como um padrão de beleza, mas como uma espécie de passaporte para o pertencimento. O corpo precisa ser menor, mais definido, mais controlado, mais próximo de uma imagem impossível que se atualiza conforme as tendências. Redes sociais, publicidade, indústria da beleza e até os discursos cotidianos sobre alimentação transformam a aparência em uma tarefa permanente, enquanto a gordura é frequentemente apresentada como fracasso, desleixo ou falta de disciplina. Crescer sob essa pressão significa aprender a vigiar cada refeição, cada número na balança e cada centímetro do próprio corpo, muitas vezes antes mesmo de compreender por que ele deveria ser motivo de vergonha.
É dessa relação entre corpo, compulsão e sofrimento que Insaciável, terceiro longa da canadense Natalie Erika James, tenta extrair seu horror. A diretora já possui uma trajetória consolidada no universo do terror, iniciada com o interessante filme de estreia Relic (2020) e seguida por Apartamento 7A, produção que revisita o universo de O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, e dividiu opiniões ao propor um prequel para o clássico.
Em Insaciável a diretora parte de uma experiência íntima para construir a narrativa. As batalhas do pai com a alimentação e o peso, marcadas por compulsão, problemas de saúde, internações e pelo julgamento constante, serviram como ponto de partida para uma reflexão sobre a fome não apenas física, mas emocional e espiritual. A ideia de retratar os “fantasmas famintos”, seres condenados a desejar eternamente aquilo que nunca conseguem saciar, funciona como uma metáfora particularmente adequada para esse ciclo de desejo, culpa e repetição. No longa, comer deixa de ser uma fonte de prazer, afeto ou sobrevivência e passa a estar associado à ansiedade, à vergonha, ao desespero e à perda de controle.
Hana, uma estudante de medicina interpretada por Midori Francis, vive justamente esse drama. Embora tenha apenas um leve sobrepeso, sente um medo profundo de engordar e tenta controlar o próprio corpo enquanto, paradoxalmente, se entrega à compulsão. A magreza aparece como promessa de felicidade e pertencimento. Alanya, psicóloga e treinadora física interpretada por Madeleine Madden, encarna o corpo que Hana não apenas deseja, mas gostaria de ser. Melissa, sua amiga que retorna depois de uma transformação física radical, representa outra fantasia recorrente: a possibilidade de alcançar uma versão idealizada de si mesma por meio do emagrecimento.
É nesse ponto que Insaciável estabelece um diálogo estreito com A Substância. No filme de Coralie Fargeat, o corpo também se transforma em território de violência quando a personagem acredita que precisa se tornar outra pessoa para recuperar aquilo que a sociedade considera desejável. A diferença é que Fargeat desloca progressivamente a responsabilidade do indivíduo para o sistema que produz aquela obsessão. O corpo monstruoso de A Substância é consequência de uma indústria que transforma juventude e beleza em mercadoria. Em Insaciável, por outro lado, o conflito permanece excessivamente concentrado na experiência individual. A vergonha, a compulsão e a obsessão aparecem como problemas psicológicos íntimos, mas o sistema de valores que produz essas feridas permanece relativamente distante.
O filme até parece compreender essa dimensão quando apresenta a própria gordofobia como elemento violento. O corpo de uma mulher gorda morta, estudado por Hana nas aulas de anatomia, torna-se objeto de escárnio e desumanização entre os estudantes. A criatura que passa a persegui-la nasce justamente dessa crueldade. Há, portanto, uma tentativa de transformar o monstro em consequência de um olhar social que reduz pessoas gordas aos seus corpos. O problema é que a própria mise-en-scène frequentemente reforça aquilo que a narrativa gostaria de denunciar.
O pai de Hana, por exemplo, é escondido dentro de uma espécie de caverna doméstica, isolado do mundo e apresentado quase como uma criatura incapaz de existir publicamente. A monstruosidade física torna-se inseparável de sua condição de homem gordo, enquanto a personagem que assombra Hana também assume a forma de um corpo gordo convertido em ameaça. Mesmo quando descobrimos que essa presença é, na verdade, um espírito ferido, a associação entre sobrepeso, sofrimento, descontrole e monstruosidade já foi estabelecida. A exceção é Josie, personagem que oferece uma perspectiva menos marcada pela vergonha, mas sua presença não é suficiente para desmontar completamente esse imaginário.
Essa contradição enfraquece justamente o aspecto mais interessante da proposta. Insaciável afirma que não quer julgar corpos, mas compreender as forças internas que alimentam o comportamento compulsivo: vergonha, dor, evasão, ansiedade e necessidade de aceitação. O filme também sugere que a comida é apenas uma das muitas formas encontradas para anestesiar uma insatisfação mais profunda. Sexo, relacionamentos, consumo de drogas e outras formas de dependência podem ocupar o mesmo lugar quando buscamos no exterior uma sensação de completude que não conseguimos produzir internamente.
O problema está em associar tão diretamente esse sofrimento à trajetória de emagrecimento. Hana poderia ser uma mulher magra desde o início e continuar sendo consumida pela compulsão, pela vergonha e pela obsessão com o próprio corpo. Ao escolher vinculá-la à busca pela perda de peso, o filme acaba reafirmando uma associação problemática entre gordura e transtorno alimentar. A mensagem que poderia ser radical, a de que qualquer corpo pode se tornar território de sofrimento, é substituída por uma narrativa na qual o corpo gordo continua funcionando como uma espécie de estágio visual da doença.

O grotesco aparece de maneira ainda mais explícita quando Hana descobre que as supostas pílulas milagrosas para emagrecer são produzidas a partir de cinzas humanas. A ideia é deliberadamente absurda, mas encontra um paralelo perturbador no mundo real: a disposição de colocar o próprio corpo em risco diante de qualquer promessa de transformação rápida. Assim como em A Substância, existe uma crítica ao mercado que vende a possibilidade de uma versão “melhor” de nós mesmos, como se o corpo atual fosse sempre insuficiente. A diferença é que A Substância leva essa lógica até sua dimensão estrutural e satírica, enquanto Insaciável frequentemente a reduz a uma escolha individual.
Por isso, o body horror do filme parece funcionar melhor como espetáculo do que como reflexão. As cenas de comilança desenfreada impressionam e causam repulsa. As transformações físicas, os cadáveres, as cinzas e as monstruosidades produzem imagens desconfortáveis, mas nem sempre aprofundam aquilo que está sendo discutido. Existe uma espécie de paradoxo em transformar a compulsão alimentar em um monstro para chamar atenção justamente para uma condição que historicamente já é cercada por vergonha, caricatura e desumanização. O filme quer dizer que não devemos temer ou julgar esses corpos, mas muitas vezes parece incapaz de imaginá-los fora do lugar do horror.
No fim, o filme se mostra mais interessante pelas perguntas que levanta do que pelas respostas que oferece. Sua melhor ideia está na percepção de que a fome pode ser uma manifestação de algo que não tem necessariamente relação com comida: a necessidade de amor, pertencimento, controle ou aceitação. Sua principal fragilidade está em não levar essa percepção até as últimas consequências. Enquanto em A Substância, vemos a violência contra o corpo feminino transformada em uma crítica mais contundente, Insaciável permanece preso demais à ideia de que o problema está dentro do indivíduo e demonizando a forma.
Insaciável reconhece a crueldade da pressão estética, mas ainda encontra dificuldade em imaginar o corpo gordo fora do lugar de sofrimento, doença ou monstruosidade.
