Tender Loving Care | 2026

Tender Loving Care | 2026

Cobertura do TIFF (Festival de Toronto 2026), por Carol Ballan

Título Original: Tender Loving Care
Direção: Mike Leigh
Roteiro: Mike Leigh
Elenco principal: Kate O’Flynn, Marion Bailey, Paul Jesson, Alice Bailey Johnson
Duração: 107 min (1h47min)
País: Reino Unido

Mike Leigh é um caso raro dentro de uma produção cinematográfica que valoriza bilheterias gigantescas e produções que ora são enxutas e ora monumentais. Com uma carreira baseada em pensar um projeto por vez, e com a construção de seus filmes junto a um ao elenco que participa da construção de personagens, ele valoriza a profundidade ao realizar suas obras. E, após um período de obras mais focadas no passado, ele retorna para fazer um longa sobre o aqui e agora que dialoga com o seu próprio envelhecimento, tendo passado da marca dos 80 anos.

Começamos o filme com uma cena simples, mas com humor peculiar: Rosie é uma assistente social que vai para um hospital tentar ajudar um homem que está internado, e se depara com uma pessoa que se comunica de maneira absolutamente contrastante à sua. E esse é um prenúncio de praticamente todas as temáticas que serão trazidas à tona. Logo conhecemos mais de sua vida, como o retorno de sua amiga Amy, após um término, para a sua casa, onde elas dividem o espaço, mas também dividem a vida. Além de compartilharem um passado e uma profissão, também partilham a família, com Rosie tendo contato direto com Birdie e Geoff, pais de Amy. Com o envelhecimento deles, o filme também acaba trazendo a linha tênue entre as capacidades de uma pessoa em seu trabalho e junto à sua própria família.

O nodo que o filme é construído é bastante irregular, com momentos de trabalho sendo sobrepostos por esses momentos familiares, somados à simples convivência das duas amigas confidentes. Se o movimento parece estranho em um primeiro momento, ele acaba se revelando bastante alinhado com aquilo que o diretor quer apresentar em tela: uma sequência de acontecimentos de uma vida normal. Há momentos com humor ligados a momentos tristes, que também se transformam em situações complexas, mas vamos compreendendo que tudo faz parte desse desenho de fluxo contínuo que funciona bem ao lidarmos com um recorte de vida. A edição, em particular, é muito bem utilizada, conseguindo alternar os acontecimentos mais impactantes com detalhes triviais, criando um humor peculiar que dá ritmo e formato à obra.

Além de trazer uma visão sobre o envelhecimento e o adoecimento do cidadão, também impressiona como o cineasta consegue fazer a transposição entre indivíduo e estado. Ele consegue colocar, através de situações e diálogos, a sua visão extremamente crítica ao Reino Unido pós-Brexit e ao desmantelamento de um Estado que gera consequências reais na vida das pessoas – desde o excesso de trabalho de Rosie e Amy até as cenas de início e encerramento do filme, que deixam muito claro o seu posicionamento, o que faz bastante sentido tanto considerando toda a carreira do diretor,  quanto o momento crítico pelo qual passa o Reino Unido.

A obra parece atingir um equilíbrio sutil entre razão e emoção, entre drama e comédia – resultado do trabalho de um cineasta maduro e que sabe os caminhos para alcançar seus objetivos. Por mais que não seja uma obra de impacto direto, é do tipo com uma mensagem persistente que se mantém muito após o término da sessão.

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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