Viva Marília | 2025

Viva Marília | 2025

É possível dizer que uma pessoa nasceu para fazer determinada coisa? No caso de Marília Pêra, ao menos, talvez possamos concluir que sua vida foi indissociável de seu ofício de atriz. Aos 19 dias de idade já estava figurando no palco. Morreu aos 72, atuando enquanto pôde. Mostrar a trajetória que a levou a ser uma das atrizes mais renomadas do país é o objeto de Viva Marília, documentário dirigido por Zelito Viana, com codireção de Esperança Motta e roteiro de Nelson Motta, filha e ex-esposo, respectivamente, de Pêra. 

Mesmo que a produção tenha envolvimento de pessoas tão próximas à personagem, o filme toma um caminho mais informativo e menos emotivo na construção de sua narrativa. Marília é a narradora de sua própria história, reconstruída a partir de imagens de entrevistas concedidas para emissoras de TV, que são adornadas com arquivos pessoais de fotos e vídeos da infância e de seus trabalhos. 

Assim, Viva Marília se assume como uma biografia que homenageia a atriz, trazendo recortes importantes de sua vida, ao invés de esmiuçar a complexidade de sua persona. Por isso, segue uma linha cronológica simples, trazendo influências familiares e seus conflitos, seus primeiros trabalhos no teatro e na televisão, os casamentos e a maternidade, e o sucesso no cinema.

Ainda que tudo seja colocado de forma protocolar, a figura de Marília Pêra jamais perde seu encanto. A frontalidade com que fala e sua espontaneidade se tornam marcas em Viva Marília. Um distinto sorriso, destacado pela montagem, sempre lhe cortava o rosto e parecia encontrar seu sentido na afirmação de que o humor era seu lugar de conforto na arte. A vitalidade e a intensidade que sempre dedicou a seus trabalhos já estavam presentes na pequena atriz de 4 anos que contracenava com Madame Morineau, e, depois, na adolescente que brincava de atuação no quintal de casa.

A ideia mais interessante do documentário de Viana é a recusa de uma separação entre vida pessoal e profissional. As primeiras palavras que ouvimos de Marília no filme são: “eu sou atriz”. Atuar era uma possibilidade de existir, viver outras vidas, “ser rica” em histórias. Era ali que ela buscava a potência de seu ser, e, certamente, por isso, tornou-se uma das melhores atrizes brasileiras. 

Talvez seu trabalho até hoje mais conhecido talvez seja Pixote (1980), dirigido por Hector Babenco. Quem assistiu a este filme sabe que não há muito humor ali, mas, mesmo assim, fora de sua zona de conforto, Pêra tem uma de suas melhores atuações, sendo premiada internacionalmente. Esta é outra característica admirável que o documentário faz questão de destacar: o quanto a atriz se desafiava em nome da arte. 

Marília passou pelo balé, pelo piano e pelo canto, além do teatro, da televisão e do cinema. Estava em tudo com força total. Não fez aulas de atuação porque nunca esteve longe da arte dramática. Viva Marília perpassa todos esses momentos, com a ambição de abranger a totalidade de uma vida.

Há um claro sentido em celebrar a existência de uma pessoa tão especial para os realizadores, o que se reflete no título do documentário, mas, por outro lado, deixam-se de lado os aspectos que tornariam a obra em si mais interessante, em sentido narrativo e imagético.

A poética de uma vida artística, em que viver é atuar, seria um objeto cinematográfico muito mais emocionante e compatível com o espírito da personagem. Entretanto, a ânsia de registrar tudo que se julgava importante em sua biografia acaba tornando a montagem muito fria e genérica.

Em certos momentos, Viva Marília parece um documentário lançado para as redes sociais, daqueles que atendem a uma demanda por simplicidade para um entendimento sem esforço. Há, por exemplo, uma espécie de “trailer” antes do letreiro com o título, antecipando tudo o que será abordado no filme. Algumas cenas, depois, se repetem quase integralmente para que alguns elementos sejam novamente inseridos na cronologia dos eventos.

Trata-se de uma escolha: envolver muitos momentos de uma biografia ou dedicar-se a uma análise que vá além dela. A primeira opção, acreditamos, empobrece o filme, mas funciona como arquivo. A segunda traria uma narrativa com mais complexidade, trabalhando em linhas intensivas e não meramente demonstrativas. Sendo Marília Pêra uma personalidade tão vibrante, o formato escolhido não encontra seu encaixe.

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