Elefantes na Névoa | 2026
Em sociedades que marginalizam identidades dissidentes e restringem suas possibilidades de existência, a construção de vínculos coletivos pode ser uma condição fundamental de sobrevivência. Em Elefantes na Névoa (Tiniharu), do diretor nepalês Abinash Bikram Shah, a comunidade Kinnar, associada a identidades de terceiro gênero (as que existem fora do binarismo de gênero tradicional) no sul da Ásia, ocupa o centro de uma narrativa sobre a precariedade de viver à margem das estruturas sociais dominantes e a capacidade de criar formas próprias de acolhimento. Mais do que compartilhar uma identidade, seus integrantes constituem uma rede de parentesco escolhida, na qual a convivência pode oferecer proteção, reconhecimento e sustento diante da rejeição familiar e da exclusão econômica. Esses laços, porém, não eliminam as tensões que surgem da vida em comum nem tornam a comunidade imune às contradições das relações afetivas.
Em uma pequena vila nepalesa cercada por uma floresta habitada por temidos elefantes selvagens, Pirati (Pushpa Thing Lama), matriarca desse grupo, precisa lidar com o desaparecimento de Apsara (Aliz Ghimire), uma de suas filhas, e com as consequências de suas próprias escolhas. Ao acompanhar essa busca, Shah observa como uma comunidade historicamente marginalizada constrói suas próprias condições de pertencimento, sem transformar a solidariedade em idealização nem apagar os conflitos que também existem dentro desse formato de família.
Pirati sonha em abandonar aquela realidade para viver com o homem por quem está apaixonada. O sumiço de Apsara, porém, interrompe qualquer possibilidade de fuga e a obriga a reconsiderar as escolhas que fez. A investigação carrega uma dimensão íntima particularmente dolorosa: antes de desaparecer, a jovem havia sido rejeitada pela própria Pirati em razão de seu envolvimento afetivo com um homem de fora da comunidade. A busca passa, então, a envolver algo que a resolução de um crime não seria capaz de reparar por completo. Encontrar a filha significa também confrontar a própria incapacidade de acolhê-la quando ela mais precisava, fazendo dessa procura uma tentativa de compreender as consequências de uma ruptura que talvez não possa ser desfeita.
É nessa tensão que o filme encontra uma dimensão comovente. A mãe ocupa a posição de liderança em uma comunidade queer que enfrenta a hostilidade de uma sociedade incapaz de reconhecer plenamente suas formas de existência, mas isso não a torna imune às contradições e aos danos que pode provocar. Sua autoridade não elimina suas fragilidades, assim como a experiência da exclusão não garante que alguém saiba acolher todas as diferenças. A maternidade que emerge da narrativa não se limita aos laços biológicos, nem se resolve na imagem idealizada de uma figura naturalmente protetora. Ela aparece como uma prática construída por escolhas, responsabilidades e, por vezes, falhas irreparáveis. Ao procurar Apsara, Pirati precisa lidar não apenas com a possibilidade de ter perdido uma filha, mas com o reconhecimento de que também participou de seu afastamento.
A comunidade Kinnar constitui o centro afetivo dessa história. Frequentemente reduzidas a caricaturas em representações convencionais do cinema sul-asiático, pessoas pertencentes a essa comunidade, associada a identidades de terceiro gênero e a diferentes experiências de gênero, são retratadas por Shah em sua complexidade cotidiana. O filme dedica atenção aos espaços compartilhados, aos costumes, às pequenas disputas e aos gestos de solidariedade que dão forma à vida coletiva. A intimidade não é construída por grandes declarações, mas pela convivência, pelas responsabilidades divididas e pela segurança que essas pessoas encontram umas nas outras em um mundo que frequentemente lhes nega proteção.
Essa abordagem evita transformar a comunidade em mero objeto de observação. Embora a narrativa exponha o preconceito, hostilidade e a violência que cercam seus personagens, não os define exclusivamente pelo sofrimento. Há humor, afeto e momentos de descontração que interrompem a atmosfera sombria sem diminuir a gravidade dos conflitos. A “família escolhida” surge, assim, não como substituta imperfeita de uma família tradicional, mas como uma estrutura de pertencimento com seus próprios códigos, obrigações e possibilidades de cuidado. O filme sugere que os vínculos familiares não precisam ser herdados para se tornarem fundamentais, mas também não estão livres das complexidades que atingem qualquer relação humana.
Com um elenco composto majoritariamente por não-atores e atuações de forte peso emocional, Pushpa Thing Lama atua de forma extraordinária. Uma ativista que faz sua estreia como atriz, constrói sua personagem com autenticidade e encontra força na contenção. Seu rosto, muitas vezes impassível, guarda tensões que raramente precisam ser verbalizadas, enquanto sua postura transmite a autoridade de quem aprendeu a sobreviver em condições adversas. Lama evita transformar a matriarca em uma figura heróica sem fissuras: sua presença combina firmeza e vulnerabilidade, dignidade e culpa. É justamente essa coexistência que torna Pirati tão magnética. Ela não precisa abandonar sua força para revelar arrependimento, nem deixa de ser uma liderança por precisar confrontar as próprias falhas.

A direção de Shah acha na paisagem uma envolvente extensão dessas contradições. Filmado majoritariamente em locações, Elefantes na Névoa alterna a imensidão da floresta, o isolamento da vila com a agitação mais urbana dos encontros de Pirati com seu amante. A fotografia de Noé Bach explora tonalidades frias e uma luminosidade contida, criando uma atmosfera de melancolia que remete ao luto e que parece impregnar tanto os ambientes quanto os corpos. Os planos abertos ressaltam a escala da floresta e a presença dos elefantes, enquanto os enquadramentos mais próximos devolvem intimidade aos rostos e aos silêncios. Entre a vastidão da natureza e a proximidade dos corpos, a imagem articula a vulnerabilidade dos personagens com a força dos espaços que habitam.
A floresta, por sua vez, não funciona apenas como cenário ameaçador. Sua neblina e seus caminhos pouco definidos conferem ao ambiente uma presença quase espiritual, como se o mundo natural obedecesse a uma lógica que escapa à compreensão humana. Os elefantes selvagens, inicialmente tratados como perigo para os moradores, estabelecem desde o início uma relação de coexistência delicada entre a comunidade e a natureza. As rondas noturnas organizadas pelos habitantes para proteger suas casas e plantações incluem, a cada noite, a participação de alguém da família de Pirati. Essa rotina sugere uma convivência sustentada por vigilância e cooperação, na qual a ameaça nunca desaparece por completo, mas tampouco impede a construção de uma vida compartilhada.
Elefantes na Névoa encontra seus momentos mais fortes quando não precisa acelerar a ação: são os silêncios, as expressões de Pirati e as mudanças sutis na dinâmica da comunidade que dão à investigação seu peso emocional. O mistério importa, mas o que está em jogo não se resume à descoberta do paradeiro de Apsara.
A construção circular da narrativa reforça essa dimensão. Os elefantes que aparecem no início como uma ameaça à sobrevivência dos moradores retornam ao final sob outra perspectiva, quando as relações de solidariedade parecem se desfazer e aqueles animais passam a representar uma possibilidade inesperada de aliança para os marginalizados. A mudança não elimina a ambiguidade da natureza, mas altera o lugar que ela ocupa na história. Aquilo que parecia pertencer exclusivamente ao campo do perigo revela uma incrível força capaz de interferir nas relações de poder, como se a comunidade encontrasse apoio justamente onde antes enxergava apenas risco.
Coprodução entre Nepal, França, Alemanha, Noruega e Brasil, Elefantes na Névoa articula o suspense em um retrato sensível de uma comunidade cuja existência é ameaçada pelo preconceito, sem fazer de seus personagens meros exemplos de uma condição social. Ao aproximar maternidade, pertencimento e sobrevivência, Shah constrói uma história em que encontrar alguém não equivale necessariamente a reparar o que foi perdido. Às vezes, a busca mais difícil é aquela que exige reconhecer a própria parcela de responsabilidade e descobrir se ainda existe espaço para o acolhimento.
