Furies | 2026

Furies | 2026

Em um país onde a corrupção institucional compromete as condições mais básicas de sobrevivência, até mesmo o acesso ao próprio dinheiro pode se transformar em uma batalha. Em Furies, o diretor libanês Rami Kodeih parte do colapso econômico de seu país de origem para subverter as convenções do filme de roubo a banco e transformar a criminalidade em uma resposta desesperada à violência do sistema financeiro. Quando as instituições de crédito restringem o acesso às economias de milhões de pessoas, a fronteira entre legalidade e ilegalidade perde parte de seu sentido moral: afinal, o que significa roubar quando aquilo que se pretende recuperar já pertence a quem está do outro lado da operação?

A trama acompanha as irmãs Maro (Rym Mroue) e Dalia (Maria Nakouzi), mulheres de temperamentos distintos, mas unidas pela disposição de enfrentar as adversidades. Recém-divorciada, Maro tenta conciliar as responsabilidades da maternidade com as dificuldades financeiras, enquanto Dalia, mais impulsiva e avessa a convenções, recebe um diagnóstico de câncer e precisa de uma cirurgia cujo custo o seguro de saúde cobre apenas parcialmente. As economias de Maro poderiam garantir o tratamento, não fosse a crise bancária que impede a população de acessar o próprio patrimônio. Depois de sucessivas tentativas frustradas de conseguir dinheiro por outros meios, as duas decidem planejar um assalto à instituição que se recusa a devolver o que lhes pertence.

A premissa transforma uma situação concreta em motor para uma comédia de ação tomada pela indignação política. Desde 2019, o Líbano enfrenta uma das crises econômicas mais graves de sua história, resultado de décadas de corrupção, má gestão e fragilidade estrutural. A desvalorização da moeda, a inflação e as restrições bancárias comprometeram a subsistência de grande parte da população, que viu suas economias perderem valor ou ficarem inacessíveis. Nesse contexto, o assalto planejado pelas protagonistas não nasce da ambição de enriquecer, mas da necessidade de recuperar recursos indispensáveis à sobrevivência. A inversão é fundamental: enquanto o aparato financeiro conserva sua aparência de legitimidade, são as mulheres que precisam recorrer a uma ação criminosa para tentar garantir o direito elementar de cuidar da própria saúde.

Kodeih encontra no filme de assalto uma estrutura especialmente adequada para expor esse absurdo. O planejamento, a elaboração de estratégias e a preparação para uma invasão costumam alimentar a fantasia de personagens capazes de superar sistemas de segurança por meio da inteligência e da precisão. Em Furies, porém, Maro e Dalia estão longe de serem criminosas profissionais. Seus planos improvisados, as tentativas de antecipar os obstáculos e a necessidade de encontrar cúmplices para distrair os funcionários do banco evidenciam a distância entre a engenhosidade do cinema de gênero e a precariedade material das personagens. A direção brinca com essa temática usando humor e boa dose de sarcasmo, assim como fez tão bem Kelly Reichardt em The Mastermind (2025) ao ridicularizar a figura do ladrão de artes. 

A dimensão feminista do filme também se desenvolve a partir dessa urgência de ter que organizar uma operação extraordinária, já que os mecanismos ordinários de acesso ao próprio dinheiro deixaram de funcionar. A doença de Dalia não serve apenas para estabelecer o objetivo do assalto, mas expõe as desigualdades que cercam o acesso à saúde e a maneira como o cuidado pode se tornar um fardo financeiro insustentável. A necessidade de tratamento coloca em evidência um sistema no qual a possibilidade de sobreviver depende, em última instância, dos recursos disponíveis. Ao acompanhar duas mulheres que se recusam a aceitar passivamente essa condição, o longa desloca o protagonismo feminino para além da reivindicação de autonomia individual: a liberdade de agir está diretamente ligada à possibilidade de garantir a vida de outra pessoa.

A relação entre as irmãs constitui o principal eixo afetivo em Furies. Maro assume o papel daquela que precisa manter as coisas sob controle, enquanto Dalia manifesta uma disposição mais irreverente diante das convenções. As diferenças entre elas produzem atritos, mas também alimentam a boa dinâmica da dupla, cuja cumplicidade se fortalece à medida que as alternativas legais se esgotam. O vínculo das duas oferece uma forma de resistência diante de instituições que as abandonam à própria sorte. 

A força dessa relação depende também das interpretações de Rym Mroue e Maria Nakouzi, que conferem às personagens energia, espontaneidade e senso de humor. As atrizes sustentam a combinação entre tensão e irreverência sem reduzir as protagonistas à figuras exemplares de uma causa política. Há contradições, impulsividade e desespero em suas decisões, características que as aproximam de pessoas comuns submetidas a circunstâncias extraordinárias. O filme encontra seu melhor ritmo quando acompanha a interação entre as duas e faz da cumplicidade uma fonte de humor e movimento.

A narrativa também se abre para outras tensões da sociedade libanesa, incluindo desigualdades sociais, comportamentos masculinos abusivos, conflitos religiosos e raciais e as consequências de uma história marcada pela guerra civil. Essa multiplicidade contribui para compor um ambiente no qual a crise econômica não aparece como um acontecimento isolado, mas como parte de uma rede mais ampla de instabilidades. 

Apesar do potencial da premissa e da energia das protagonistas, Furies parece confiar que a vitalidade das personagens será suficiente para sustentar indefinidamente a perseguição, que por vezes se torna um pouco cansativa, quando poderia explorar melhor a tensão entre o risco da operação e as consequências políticas de seu desfecho. A ausência de uma conclusão plenamente satisfatória enfraquece parte do percurso, deixando a sensação de que a narrativa demora a encontrar o ponto em que suas ideias e sua estrutura de gênero poderiam finalmente convergir.

Ao inverter a lógica habitual do gênero, Kodeih questiona a legitimidade de instituições que continuam operando sob a aparência da legalidade, enquanto negam à população o acesso a recursos essenciais. Nesse cenário, a transgressão das protagonistas não representa apenas uma tentativa de recuperar dinheiro, mas uma recusa em aceitar que a sobrevivência dependa da obediência a um sistema que já rompeu seu compromisso com aqueles que deveria proteger. Furies é um filme rebelde e feminista, que expoe uma crise e nos coloca para refletir sobre o absurdo não estar apenas no crime, mas na ordem que o tornou necessário.

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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