Bom Menino | 2025
“Eu vejo gente morta”
O uso de animais em filmes, como protagonistas, sendo parte importante da narrativa ou nem tanto, é sempre um caso delicado, que gera apreensão e burburinho, como os que surgiram acerca de Bom Menino, longa-metragem de estreia do diretor americano Ben Leonberg. Bem antes de seu lançamento, pipocavam comentários de preocupação na internet a respeito da integridade do cãozinho, que aqui está sempre são e salvo e é a estrela desse filme de espíritos, bastante inusitado, onde acompanhamos os acontecimentos pela perspectiva do animal.
A narrativa é bastante simples, o cachorro Indy se muda com Todd (Shane Jensen) – seu parceiro humano, para uma antiga casa de família no interior onde seu avô e outros parentes moraram e morreram. A casa é mal-assombrada e coisas estranhas acontecem em seu interior. Todd está doente e decide se isolar na antiga casa buscando tratamento para sua enfermidade, que mostra-se bem grave.
Bom Menino explora o suspense mantendo uma excelente atmosfera sombria, com cenas super escuras iluminadas apenas por uma lamparina. Há um clima de tempestade constante e na maioria do tempo as filmagens são à noite. A câmera está sempre baixa, na altura de Indy, não com uma perspectiva de primeira pessoa, mas sempre um pouco atrás do animal, acompanhando seus passos.
Essa escolha da direção e fotografia faz com que nossa visão se limite um pouco a de Indy, onde vemos Todd de um plano médio que mostra de sua cintura para baixo. Nunca vemos o rosto de Todd de fato, apenas sua silhueta, seus movimentos, e ouvimos sua voz. Também somos privados de ver o rosto de qualquer humano vivo por um longo tempo, e o uso da iluminação também ajuda nessa experiência. Este é um artifício que também foi usado em Veneno para as Fadas (1986), obra-prima do diretor mexicano Carlos Enrique Taboada, onde, a partir da perspectiva de uma criança, e para mergulhar mais em seu universo particular, somos privados de ver a face dos adultos.
O interior da casa, onde viveu por último o avô taxidermista de Todd, é repleta de animais empalhados e de fitas VHS velhas, contendo filmes de terror e misteriosas filmagens caseiras. A figura do velho avô morto é assustadora e por vezes aparece apenas para Indy, ou podemos vê-la através de reflexos. Há algum uso de CGI nas aparições fantasmagóricas no porão sombrio da casa, mas os movimentos de Indy são completamente orgânicos e naturais.
O longa trabalha com um elenco bastante reduzido e demonstra criatividade e capricho ao realizar uma obra de baixo orçamento com belo cuidado estético. Há um excesso de tons azulados, que remetem ao frio e à morte, em uma casa onde permeiam espíritos. Bom Menino se utiliza de algumas imagens de arquivo de Indy filhote, de fácil acesso ao diretor que é também tutor do cão na vida real e conta ter feito o filme com bastante paciência e pensando sempre no bem estar do animal e em sua disposição para fazer as cenas. O cão se revelou um não-ator excepcionalmente cativante e expressivo.
A presença de Indy certamente é o grande trunfo que engrandece o longa, que, por sua simplicidade e redundância em criar certas situações, como as mais clichês de filmes de suspense e terror sobrenatural, acaba caindo em uma certa monotonia. Não fosse esse divertido exercício de ponto de vista a que somos apresentados, Bom Menino seria um filme facilmente esquecível, requentando algumas boas ideias, uma espécie de O Sexto Sentido (1999), protagonizado pelo cãozinho.
