Sirat | 2025

Sirat | 2025

Uma travessia infernal

Há muitas interpretações dentro de religiões e crenças sobre a justiça divina: que ela pode vir em vida e nós passamos por provações para reforçar nossa fé, ou para compensar post mortem os pecados cometidos. Há quem creia em céu,  inferno e em purgatório, como caminhos que estão no além-vida, e também àqueles que creem que a vida finda com a morte. Sirat, longa hispânico-francês, vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes, dirigido por Oliver Laxe, trata de adentrar por uma jornada de caminhos tortuosos e bastante sofridos, onde, no imenso deserto do Marrocos, com um sol de rachar a cabeça, sede e muita poeira, bem no estilo Mad Max, os protagonistas irão atravessar desafios físicos, metafísicos e psicológicos.

Produzido pelos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín, Sirat se inicia com a explicação da origem de seu nome, que no Islã faz referência à uma ponte estreita sobre o inferno, pela qual todos os fiéis devem passar após a morte. É descrita como mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que a lâmina de uma espada. O deserto marroquino, marcado por conflitos políticos não exatamente contextualizados no filme, mas que por vezes encontram os protagonistas, parece ser o Sirat (a ponte) que os personagens de Laxe precisam cruzar.

Somos introduzidos à uma rave, com o grave explodindo nas batidas sonoras, um grande grupo de pessoas dançando, levantando poeira com os pés, cada um em seu universo particular dentro de um ambiente lisérgico e embalado pela música que parece ecoar pelas grandes paredes de pedra no amplo entorno. Luis (Sergi López) e seu filho mais novo Estéban (Bruno Núñez Esteban) caminham entre os participantes procurando pela filha mais velha desaparecida. Numa tentativa de encontrá-la, circulam exibindo fotos da jovem que também frequentava festas de música eletrônica.

O drama familiar acaba se tornando o fio condutor de Sirat, que logo se assume um road movie, onde juntos de seu cachorrinho de estimação, pai e filho se unem a um grupo que se deslocava ao encontro de uma outra festa em algum local mais afastado dali, partem em seus veículos. Com alguma resistência, Luis e Estebán são acolhidos pelos amigos do deserto, formado por pessoas apaixonadas pela música e pela aventura, mas que carregam cicatrizes da vida em um local hostil: um dos homens não tem uma mão, o outro não tem um pé, todos parecem carregar mazelas em seus olhares pesados, mas levam em comum essa paixão que funciona como um método de cura para suas dores.

Por um bom tempo o filme nos mantém acompanhando essa jornada em movimento, cruzando longas rodovias e por vezes desviando para caminhos alternativos a fim de não chamar a atenção dos tanques e grupos militares que se aproximam pelas rodovias. Nesses desvios, os veículos precisam passar por terrenos pouco convidativos, áridos e rochosos, que fazem as rodas deslizarem, assim como atravessar riachos e pontos mais íngremes. Tudo isso sob um sol escaldante e com cada vez mais escassez de alimento, água e combustível. 

Depois que ficamos acostumados à saga em busca da menina sem rastros por caminhos desconhecidos, em situações completamente desfavoráveis, a retidão da estrada para. Laxe, então, nos faz perceber que ele quer fazer mais do que um fio narrativo instigante, ele quer surpreender o espectador com incidentes que irão chamar a atenção para a imprevisibilidade da morte e para a fragilidade da vida. 

Ao encontrarem um entrave no percurso, o grupo é forçado a rodar em solo aberto, então tudo que reuniram para chegar até ali começa a desmoronar bruscamente. É uma avalanche de dor, de provações injustas e de situações cruéis, onde os personagens parecem estar em um purgatório pagando por seus deslizes em vida.

Sirat é um filme que procura chocar, com certa dose de sadismo, conduzindo uma história simples que não explora nenhum tipo de violência física do homem contra o homem explicitamente, mas os faz sofrer as consequências da maldade em um mundo esculpido por guerras, avarezas, explorações naturais desenfreadas e ganância. Há ternura na relação entre os personagens, um carinho genuíno de amizade e um grande amor de pai e filho que servem de cimento para o contraste fulminante das dores que são provocadas por tais perdas no decorrer do longa.

Nota

Author

  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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