Ary | 2025

Ary | 2025

O Mito Ary Barroso

Há muitos ideários do que é ser brasileiro(a), que, pelo bem ou pelo mal, criaram uma identidade para nosso povo. Brasil: o país tropical, de natureza deslumbrante, do samba e da bossa-nova, do futebol, do “jeitinho” e da mistura. Uma mitologia que, assim como todas as outras, nasce da realidade para distorcê-la em contradições. Consciente disso, Ary, filme de André Weller, transforma a vida de Ary Barroso, célebre compositor de Aquarela do Brasil e um dos responsáveis diretos por tal idealização, em uma fábula, não se restringindo a julgamentos morais dos fatos, mas elevando sua genialidade à condição de Mito Nacional.

Se um mito não tem uma biografia exata, linear e facilmente resumida em uma crônica, então, como documentar Ary Barroso? Weller parece encontrar seu caminho pela representação poética, fazendo com que as canções despertem sentimentos para depois nos localizar contextualmente. Por exemplo, são as gotas de chuva que tocam o chão de barro e clamam as memórias de Ary, narrador de sua própria história, interpretado pela voz marcante de Lima Duarte. Do mesmo modo, um ou dois acordes no piano levam-no a um samba sincopado que se tornaria lendário nas estações de rádio mundo afora.

Formatado como um diário, Ary nos faz passear por momentos importantes da vida do artista. Ora estamos nas lembranças da rua lamacenta que ele atravessava na infância, ora vamos aos relatos empolgados do sucesso em Hollywood graças à sua parceria com Carmen Miranda. Da paixão pelo futebol, mais especificamente pelo Flamengo, chegamos a seu amor pela Bahia e a amizade com Dorival Caymmi. De música em música transitamos pelas várias facetas de Ary Barroso: narrador futebolístico, apresentador de programa de calouros na TV, pianista por dinheiro, compositor por vocação. Mas nada o resume a isso.

Fica evidente que o filme é fruto da admiração que André Weller tem pelo compositor. Além da direção, ele assume diversas outras funções, como diretor de arte e até pianista nas cenas que mostram mãos que tocam o instrumento. Sua principal escolha é, com certeza, a sinceridade que implica em cada uma das ações, elevando os fatos apresentados nas imagens de arquivo ao tom idílico que se propõe desde o início da projeção, seja por meio de representações com atores, pelas poesias imagéticas ou pela narração irônica e perspicaz do personagem.

O resultado é o Mito Ary Barroso, aquele capaz de narrar sua própria morte com ironia, de entusiasmar-se falando de quando ficou órfão e passou a viver sob a rígida educação da tia que lhe ensinou a música no piano, ou, até mesmo, comentando as críticas de jornais que o acusavam de “estrangeirismo” nas melodias. Como dito, nada disso o resume, e é esse o grande mérito de Ary, já que uma mitologia é inalcançável em sua completude. Por isso, mesmo fisicamente morto, ele é eterno, como a canção que se atualiza em diferentes vozes nos créditos finais.

Nota:

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