Tatame | 2026
Quando a luta é maior do que se imagina
Para alguém que não se interesse por esportes, talvez surja uma genuína indagação acerca de como ou por que “vinte e duas pessoas correndo atrás de uma bola” ou “duas pessoas lutando por quem consegue encostar as costas da outra no chão” gera tanta comoção e até fanatismo. A essa pergunta, acredito que não há uma resposta fechada, mas podemos vislumbrar alguns caminhos. Trago, por ora, o talvez mais óbvio: o esporte “não é só isso”.
Há uma infinidade de elementos que se espraiam durante, antes e depois do jogo, que muitas vezes têm ligação direta com a história de um país, com questões geopolíticas, com questões físicas ou biológicas de uma população, mas também com histórias pessoais, como os inúmeros empregos que gera (e todo o dinheiro que movimenta), e a lembrança de quem já partiu… enfim, o “jogo” se relaciona com muitas coisas, ainda que isso não seja aparente.
É nesta zona “invisível” que, acredito, se gera a comoção, para o lado bom ou ruim. Em Tatame, filme dirigido por Guy Nattiv e Zar Amir Ebrahimi (um iraniano e um israelense), a narrativa se estabelece, primordialmente, em um único dia do campeonato mundial de Judô, que ocorre na cidade georgiana de Tbilisi. Nele, Leila Hosseini (Arienne Mandi) é uma judoca iraniana treinada por Maryam (Zar Amir Ebrahimi) que disputa a competição.
Inicialmente o filme se detém em questões mais “prosaicas” do esporte, como a luta pelo corte de peso, a torcida da família, os momentos de concentração pré-luta e os momentos de relaxamento após a vitória. Mas tudo isso começa a mudar quando, ao longo da competição, a possibilidade de Leila lutar contra uma atleta israelense começa a ficar mais concreta.
É neste momento que um dos (muitos) elementos “invisíveis” começa a ficar palpável e uma enorme tensão ganha contornos angustiantes, sobretudo a partir do uso do preto e branco (vale destacar o incrível trabalho na direção de fotografia de Todd Martin) e, principalmente, pela escolha da proporção de tela 4:3.
O governo iraniano, visando evitar que a luta contra uma adversária israelense ocorra, obriga Leila a desistir da competição, contatando sua treinadora Maryam para que convença a atleta a tomar tal decisão. Aqui, percebe-se o grau de arbitrariedade, sobretudo quando pensamos em uma judoca que, após tantos anos de treinamento e dedicação ao esporte, teria que abandonar o sonho após excepcionais vitórias no campeonato mundial.
O pedido, logicamente, gera um grau de frustração e incômodo na treinadora, mas ela, que em sua época de judoca já havia passado por situação semelhante, faz chegar a mensagem do governo à atleta no meio da competição, que, de pronto, nega o pedido e afirma que irá prosseguir lutando.
A partir daí, o que ocorre é uma repetição deste mesmo conflito: a treinadora tentando dissuadir Leila, alertando-a para todas as retaliações que ela e sua família podem sofrer, enquanto a judoca, cada vez mais perto de tornar-se campeã mundial, resiste àquela pressão. Conforme Leila avança na competição, as ameaças e pressões se tornam mais fortes. Neste sentido, o filme perde força por dedicar muito tempo à repetição já mencionada.
Uma opção interessante levada a cabo pela direção é não se preocupar em explicar, ainda que de forma contingencial, o conflito que dá azo àquela situação. Também é interessante notar que, no momento em que é lançado no Brasil, os noticiários do mundo inteiro mostram vídeos de ataques mútuos entre os países, fazendo com que seja muito mais difícil desconhecer o conflito entre eles.
Ao fazer pesquisa acerca daquela história em si, percebe-se que ela é ficcional, ainda que tenha total contorno de “histórias reais” de inúmeros casos de atletas iranianos, gerando em mim um sentimento semelhante ao que tive após assistir Tár (2022), de Todd Field.
Agrada a forma como a competição se desenrola: Leila Hosseini perde uma das lutas, a atleta israelense que possivelmente enfrentaria também perde antes que pudesse enfrentar a judoca iraniana. A luta, a despeito das pressões sofridas por Leila, não ocorreria em virtude dos resultados desportivos. Claro que se pode mencionar que o nível de estresse ao qual foi submetida a iraniana influenciou no resultado, mas, ainda assim, há a derrota da judoca israelense.
Essa foi uma forma extremamente hábil usada pelos diretores para tratar da imprevisibilidade ínsita aos esportes e ínsita à vida. O cenário que gerou o conflito inteiro do filme não se concretizou. A hipótese, sendo apenas uma possibilidade, gerou uma série de nefastos resultados absolutamente palpáveis.
A forma como Tatame se encerra permite pensar em um caminho mais “cômodo”, adotando uma linha extremamente explícita em torno de sua mensagem política e esperançosa. Afinal, ainda que Leila tenha buscado o exílio em outro país e este seja inegavelmente um preço alto a se pagar, ela ainda pode exercer sua profissão de judoca (lutando como atleta refugiada).
