Something Familiar | 2026

Something Familiar | 2026

Uma dilacerante busca por si 

O sentimento de rejeição pode abrir feridas profundas, algumas irreparáveis. Quando essa experiência atinge uma criança, suas consequências emocionais tendem a se intensificar de forma duradoura. Processos de adoção fazem parte da estrutura social contemporânea, e, todos os anos, crianças são deixadas em maternidades na esperança de encontrarem novas famílias. Ainda assim, persiste um julgamento moral recorrente que recai quase exclusivamente sobre a mulher que abandona seu filho. Em uma sociedade ainda marcada por estruturas patriarcais, esse peso raramente é atribuído ao homem, e pouco se investiga sobre os fatores que levam uma mulher a tomar tal decisão ou sobre as condições que a impedem de criar o filho que gerou.

Em Something Familiar, documentário de Rachel Taparjan, a diretora se coloca no centro da própria narrativa para conduzir uma investigação íntima que vasculha vestígios de seu passado e reabre sua história familiar em busca de respostas. No entanto, ao longo dessa jornada, seu percurso individual se entrelaça ao de outra mulher, ampliando o escopo do filme. O que começa como uma busca pessoal gradualmente se transforma em um estudo sensível sobre dor, luto e abandono. Ao reconhecer angústias semelhantes às suas, Taparjan desloca o foco inicial e expande a reflexão para questões mais amplas relacionadas à identidade, ao trauma e ao vazio existencial.

O documentário chama atenção não apenas por seu caráter corajoso e confessional, mas também por se estruturar como uma narrativa essencialmente feminina. As vozes em destaque são as de filhas abandonadas por suas mães e, em determinados momentos, essas experiências ganham forma por meio de encenações dirigidas pela própria cineasta. Nessas esquetes, as atrizes interpretam mães em confronto com as filhas que deixaram para trás. Taparjan projeta-se nessas figuras, construindo uma catarse emocional que dialoga diretamente com vivências compartilhadas. A câmera acompanha tanto as cenas encenadas quanto seus bastidores, evidenciando o impacto emocional que essas histórias exercem mesmo sobre quem apenas as interpreta. Essa abordagem remete ao que Eduardo Coutinho faz em Jogo de Cena (2007), ao borrar as fronteiras entre realidade e representação.

O filme se inicia com o desmoronamento de uma vida anterior. Um casal de Cleveland adota Rachel em um orfanato na Romênia, encontrando nesse gesto um novo sentido após a perda recente da filha biológica de 13 anos. A presença da menina parece ter a função de alegrar o cotidiano dessa família dilacerada, mas, à medida que Rachel cresce, começam a surgir fissuras nessa reconstrução e uma inquietação crescente da diretora por buscar suas origens, buscar algo realmente familiar. 

Anos depois, Mihaela, outra jovem do mesmo orfanato, procura Rachel em busca de ajuda para localizar sua família biológica. As duas começam juntas uma jornada de investigação. Nesse tortuoso e humilhante caminho, encontram dificuldades de obter a identidade de suas mães. Crescer sem nenhuma referência de sua  biologia e partindo de um ambiente totalmente nebuloso, faz com que elas sintam esperanças em preencher de alguma forma boa suas histórias de abandono, mas a vida não é um filme roteirizado e sim um fluxo incontrolável de acontecimentos. Nesse caminho Mihaela constata o que não queria: que sua mãe realmente não a quis. E, ao encontrar um ex companheiro de sua mãe, que aparebta mentir sobre ter conhecimento de sua existência e do paradeiro da mulher, se depara com mais frustrações e decepções do que algum alívio para seu sofrimento.

Já Rachel, ao procurar suas irmãs desaparecidas, desenterra um legado de abuso físico, psicológico e de exploração. Ao se reconectar com uma irmã mais velha que havia se separado ainda na infância, descobre um lado radicalmente sombrio de sua mãe, poucos instantes depois de ter visto finalmente uma foto da mulher que a pôs no mundo. A diretora se reserva a não verbalizar seus traumas de maneira direta e mostra possuir lapsos de memória de seus comportamentos na juventude, recorrendo a depoimentos de amigos sobre si própria. 

Ao concentrar seu olhar nessas mulheres que abandonam e naquelas que são abandonadas, Something Familiar abre espaço para reflexões sobre os limites do amor materno e as complexidades da maternidade. O filme expõe as marcas duradouras deixadas em pessoas adotadas e acompanha personagens atravessadas por uma necessidade urgente de compreender suas próprias origens. As encenações funcionam como projeções de um desejo de resposta ou até de arrependimento, mas o documentário nunca se propõe a oferecer explicações definitivas sobre as causas desses abandonos. O mais próximo disso surge nos relatos da irmã de Rachel, que descreve um ambiente doméstico violento, marcado pelo abuso físico e psicológico, e ausência de afeto. Ainda assim, chama atenção a falta quase completa de referências a figuras masculinas nesse contexto, o que reforça, de maneira indireta, o peso desproporcional historicamente atribuído às mulheres.

Nota

Author

  • Jornalista por formação, editora e crítica de cinema carioca. Certificada em cinema pela Academia Internacional de Cinema, é apaixonada por filmes de terror e narrativas sobre serial killers. Entusiasta do cinema independente e de obras dirigidas por mulheres.

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