Maldição da Múmia | 2026
Por Carol Ballan
Imagine uma típica família estadunidense vivendo tranquilamente em solo egípcio algum tempo após a primavera árabe. O pai jornalista, a mãe enfermeira, os dois filhos, um menino e uma menina, em idade escolar. Se considerarmos a história geopolítica recente dos EUA, isso já gera uma leve taquicardia ao espectador atento ao cenário. Mas ele não imagina que encontrará algo muito pior do que bombas ou ataques ao Estado: a maldição da múmia.
O diretor Lee Cronin não é desconhecido para quem aprecia o cinema de gênero. Após seu primeiro longa-metragem, o horror folclórico The Hole in The Ground (2019), ele já foi chamado aos holofotes ao ser convidado por Sam Raimi para dirigir a continuação da franquia A Morte do Demônio: A Ascensão(2023). Agora, retoma seu estilo sanguinolento e aflitivo em mais uma franquia que precisava de uma renovação em seus ares. A Múmia passa da ação e aventura, para a família que nos acostumamos a ver nos anos 1990, para uma versão muito mais assustadora.
Nas primeiras cenas temos um paralelo entre duas famílias. A primeira, a egípcia, se diverte cantando no carro até o momento em que chega em casa e se depara com uma situação inusitada que indica que algo ruim está prestes a acontecer. Seguimos então para a narrativa da família estadunidense, que apresenta um melhor desenvolvimento de cada um dos personagens e de suas ambições, mas que também logo se encaminha para o conflito que inicia o filme. A filha Katie (Natalie Grace) é visitada por uma figura misteriosa no jardim da casa, que parece ser um oásis afastado de uma Cairo mais caótica, e tal qual a Eva bíblica tem a ela oferecido o fruto proibido, recebe dessa visitante uma nectarina. Em uma montagem que se alterna entre a boca da menina ao fruto e à mulher misteriosa, percebemos que o perigo está, novamente, iminente.
O pai, Charlie (Jack Reynor), percebe o sumiço e passa a procurá-la, mas não consegue encontrar a garota do rapto que é seguido de uma tempestade de areia em toda a cidade. Sem necessidade de maiores explicações além da ineficiência da polícia, passamos para um futuro oito anos depois, na qual a vida de toda essa família, de alguma maneira, precisou seguir, mesmo que não do modo que eles esperavam. A notícia, então, de que Katie foi encontrada, vem novamente para desestruturar aquilo que parecia estar sendo construído. A menina retorna para a casa em um estado de trauma catatônico, e toda aquela família precisa reaprender a viver com a nova figura dentro da casa.
Um dos maiores feitos do filme, que vem bem em linha com as releituras realizadas recentemente dos monstros clássicos da Universal, é justamente o de transformar uma grande aventura em um horror doméstico. Ao invés de grandes campos de batalha, o que temos é uma família tentando superar um trauma conjunto enquanto lida com questões que vão das mais profundas, como a compreensão do horror que aquela garota viveu, até as mais básicas, como o cortar de suas unhas endurecidas dos pés – que inclusive, rendeu uma das cenas mais aflitivas dos últimos anos nas mãos do talentoso diretor. O quarto cor de rosa que havia se tornado um mausoléu da filha desaparecida acaba se tornando novamente seu lugar de repouso em vida, mostrando que o descanso nunca chega para aqueles que precisam dele.
Para contar essa história, o diretor utiliza todos os artifícios do cinema de gênero com os quais já está acostumado, mas dessa vez aplicados a este cenário particular. Entre cenas gore que envolvem bastante sangue, capacidade de criar imagens traumatizantes e até mesmo um certo humor dentro deste desconforto, Lee Cronin consegue mostrar aos espectadores qual é a sua visão específica sobre o que seria uma múmia. E, quando o horror vem das pessoas que você mais ama, surge a complexidade de criar resoluções que nunca vão poder ser ótimas, dando ainda uma camada de questionamento moral ao longa.
Junto à sua equipe de direção de arte, também é feito um excelente trabalho tanto de pesquisa quanto de execução das cenas. Da escolha da nectarina, fruta ligada à perfeição divina, até o modo que a madeira se quebra em uma das cenas criando o formato de uma cruz, não há economia na utilização de símbolos. Isso funciona bem ao criar mais camadas de significado aos acontecimentos sem a necessidade de uma explicação textual – ou seja, utilizando bem a técnica audiovisual.
Talvez este não seja o filme de múmia que as pessoas estavam esperando, mas ele certamente é um bom indicativo de que as temáticas do terror estão presentes em toda a humanidade.
