Carcereiras | 2026
O Brasil possui a terceira maior população carcerária feminina do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Levantamentos recentes (2023–2025) indicam que quase metade dessas mulheres é composta por presas provisórias, ou seja, ainda sem condenação pelo sistema de justiça criminal, sendo que a maioria das detenções está ligada ao tráfico de drogas em pequenas quantidades. Grande parte dessas mulheres também é mãe.
Nesse universo feminino precarizado, marcado pelo isolamento forçado e que, em escala global, se aproxima cada vez mais de uma lógica empresarial, em que o encarceramento de pessoas passa a gerar lucro quando deixa de ser um serviço público, há uma rede de trabalhadoras invisibilizadas que sustenta diariamente essa engrenagem: as carcereiras. A diretora Julia Hannud se insere no interior de penitenciárias femininas e acompanha de perto as servidoras Ana Paula e Mariana em Carcereiras, documentário que observa suas rotinas de trabalho enquanto estabelece paralelos e suscita reflexões sobre liberdade e possibilidades de futuro.
Em síntese, o trabalho desempenhado pelas agentes penitenciárias abrange a vigilância e a segurança interna do estabelecimento prisional, o acompanhamento das detentas e o monitoramento de suas rotinas, a realização de revistas e o controle de acessos, a garantia do cumprimento das normas e da disciplina, bem como o registro e relato de ocorrências, somando-se a isso o apoio para que o ideal de ressocialização previsto na legislação penal seja minimamente alcançado – ressaltando-se que, quando alcançado, não o é em virtude do cárcere e sim apesar dele.
Em Carcereiras, além de notoriamente serem responsáveis por todas as listadas demandas, as agentes penitenciárias, representadas nas figuras de Ana Paula e Mariana, também atuam na farmácia da unidade, distribuindo medicamentos às detentas e avaliando suas condições de saúde para encaminhá-las, ou não, ao ambulatório, entre outras funções que parecem extrapolar os limites estritos do ofício. São, ainda, poucas diante de um ambiente marcado por um fluxo de trabalho constante e oscilante.
Julia Hannud é discreta e precisa ao escolher as imagens rotineiras com as quais pretende nos mostrar que trata-se de um trabalho absolutamente atrelado à dimensão humana, mas executado, em razão da alta demanda e da precariedade das condições, com uma mecanicidade que afasta a todas, encarceradas e carcereiras, de qualquer ideal de caráter humanitário.
Não que ali não haja tratamento humanizado: há gestos de cuidado, há coleguismo entre elas e também com as aprisionadas. Ainda assim, as atrizes sociais de Carcereiras são indivíduos dotados de subjetividades e desejos que parecem ser, pouco a pouco, corroídos pela rotina exaustiva de trabalho. O cansaço se inscreve nas expressões faciais. As tentativas de melhoria da qualidade de vida — transferências, mudanças de cidade — evocadas em conversas com familiares e em momentos de reflexão, surgem minados pelo peso do trabalho contínuo. Fora dali, inclusive, quase não as reconhecemos.
Das prisioneiras que não vemos, Ana Paula e Mariana ouvem histórias e também narram histórias, na sororidade possível dentro daquele contexto. Somos silenciosamente impactados pelas imagens que Hannud constrói: mulheres enfileiradas entre grades, ou comprimidas nas portas das celas, disputando as escassas aberturas para observar o exterior, em contraste com momentos de respiro de Ana Paula – sozinha, fora do presídio, sentada sob a sombra de uma grande árvore.
Muito embora Ana Paula detenha a liberdade de ir e vir, a sensação que persiste é a de que todas, encarceradas e carcereiras, estão submetidas a uma mesma lógica de solidão e, cada qual à sua maneira, aprisionadas por um sistema prisional opressor.
