Love Kills | 2025
O centro de São Paulo sempre pareceu um cenário naturalmente propício ao cinema fantástico. As luzes artificiais refletidas na madrugada, os prédios antigos em estado de deterioração, os becos atravessados por figuras anônimas e a sensação constante de abandono urbano criam uma atmosfera que facilmente poderia abrigar criaturas saídas de um pesadelo gótico. Em Love Kills, primeiro longa de Luiza Shelling, essa paisagem se transforma em território de vampiros, violência e romance sombrio.
Inspirado na graphic novel de Danilo Beyruth, o filme aposta na mistura entre horror urbano, ação e melodrama romântico para construir uma fantasia noturna ambientada em uma São Paulo marginalizada pelo vício, pela solidão e pela precariedade social. A trama acompanha Marcos (Gabriel Stauffer), um jovem garçom emocionalmente fragilizado que se envolve com Helena (Thais Lago), uma mulher misteriosa ligada a um submundo vampiresco escondido nas regiões decadentes da cidade.
A proposta é interessante justamente por deslocar a figura clássica do vampiro aristocrático para espaços urbanos degradados. Em vez de castelos e salões luxuosos, as criaturas habitam quitinetes apertadas, corredores escuros e edifícios esquecidos pelo centro paulistano. Existe uma tentativa clara de aproximar o horror fantástico de temas sociais contemporâneos, especialmente ao relacionar marginalização, invisibilidade urbana e vulnerabilidade.
Visualmente Love Kills demonstra um vigor muito maior do que seu desenvolvimento dramático. A direção de fotografia transforma a noite na cidade em um espaço atraente de luzes neon, sombras densas e composições estilizadas que remetem tanto ao expressionismo clássico quanto ao romantismo melancólico do vampirismo moderno. Há ecos visuais de Nosferatu na construção das silhuetas e da relação entre escuridão e desejo, enquanto o tom melancólico dos imortais aproxima obras como Amantes Eternos (2013) e Entrevista com o Vampiro (1994).
As cenas de ação seguem outro caminho: coreografadas com violência estilizada, cortes rápidos e embates corporais intensos, elas evocam diretamente o espírito pop de Blade: O Caçador de Vampiros (1998) e da franquia Underworld. O longa abraça um exagero visual, amparado em efeitos gráficos e um figurino sedutor, que funciona melhor do que suas tentativas de densidade dramática.
As locações também ajudam a consolidar essa identidade estética. Vielas, esquinas vazias, estacionamentos, bares decadentes e minúsculos apartamentos reforçam a ideia de vampiros vivendo à margem da cidade, como corpos invisíveis absorvidos pela madrugada paulistana. Existe a intenção de utilizar o espaço urbano não apenas como pano de fundo, mas como extensão emocional daqueles personagens deslocados.

O problema é que Love Kills parece excessivamente preocupado em conferir solenidade à própria narrativa. Há uma tentativa constante de tratar sua história como um grande romance melancólico, com reflexões existenciais e comentários sociais, mas o filme raramente encontra profundidade suficiente para sustentar esse peso. A obra funcionaria melhor se abraçasse de maneira mais consciente seu potencial como filme B fantástico.
Essa indecisão de tom afeta diretamente os personagens. Gabriel Stauffer e Thais Lago demonstram dificuldade em encontrar naturalidade dentro da proposta do longa, resultando em atuações por vezes artificiais e pouco integradas entre si. Em determinados momentos, a sensação é de que cada personagem habita um registro diferente: alguns operam em chave melodramática, outros em um exagero típico de filmes de ação, enquanto certas cenas tentam alcançar uma gravidade quase contemplativa. Falta unidade.
A própria relação entre Marcos e Helena nunca ganha força suficiente para sustentar o eixo emocional da narrativa. O romance existe mais como conceito do que como vínculo genuinamente desenvolvido, e a ausência de química entre os protagonistas enfraquece as tentativas de construir uma dimensão afetiva mais substancial.
Mesmo irregular, o longa revela ambição estética, personalidade visual e um desejo legítimo de dialogar com tradições internacionais do horror vampiresco sem abandonar a paisagem urbana nacional.
No fim, o filme impressiona mais pela atmosfera que constrói do que pelo drama que desenvolve, deixando pontas soltas e personagens com problemas de desenvolvimento. Quando abandona a pretensão de profundidade e se entrega ao prazer estilizado do gênero, Love Kills finalmente encontra sua melhor versão.
O longa foi assistido na Mostra Mestras do Macabro – As Cineastas do Horror ao Redor do Mundo – 2ª Edição, realizada no CCBB RJ e SP. Exibido dentro do conceito de vampiras contemporâneas.
