Eclipse | 2026

Eclipse | 2026

A violência contra a mulher muitas vezes se manifesta longe do imaginário do perigo explícito. Ela habita relações afetivas, rotinas domésticas e figuras masculinas socialmente irrepreensíveis. É justamente nesse território de aparências que Eclipse, thriller psicológico dirigido por Djin Sganzerla, constrói sua tensão.

Partindo de uma perspectiva feminina, Sganzerla conduz a narrativa com firmeza e sensibilidade. Além de dirigir, ela também assina o roteiro e protagoniza o longa, interpretando uma astrofísica fascinada pelos corpos celestes e envolvida pela imagem de um “marido perfeito”, até descobrir que ele está ligado a uma rede de abusos e crimes sexuais violentos.

O filme nos insere, inicialmente, no cotidiano de uma mulher de meia-idade grávida do primeiro filho e aparentemente acolhida pelo companheiro. Cléo (Djin Sganzerla) e Tony (Sérgio Guizé) aparentam viver uma relação afetuosa, envolvidos pelos preparativos para a chegada do bebê. Mesmo convivendo com uma mãe emocionalmente instável e problemática, Tony demonstra uma preocupação quase obsessiva com o bem-estar da esposa durante a gravidez.

Sganzerla cria uma atmosfera eficiente de suspense investigativo a partir do momento em que Cléo começa a suspeitar de que o marido não é quem aparenta ser. Essa desconfiança ganha novos contornos quando ela reencontra a meia-irmã indígena, Nalu (Lian Gaia). Afastadas há anos por conflitos familiares, as duas retomam a relação durante um doloroso desabafo de Nalu sobre abusos sofridos na infância. Pouco a pouco, elas se aproximam e passam a investigar juntas os segredos envolvendo Tony.

Nalu surge como uma figura marcada pelo misticismo de suas origens e pelos ensinamentos herdados da avó indígena. Sua presença funciona como um contraponto importante à fragilidade emocional de Cléo, representando a resistência de alguém que aprendeu a sobreviver à violência sofrida. É também através dela que Cléo encontra forças para encarar a dimensão obscura da vida aparentemente perfeita que levava.

Com a ajuda da irmã, Cléo recorre à deep web para acessar mensagens trocadas pelo marido com homens desconhecidos, e o tema do abuso sexual volta a aparecer na narrativa de maneira ainda mais perturbadora.

O longa é contaminado por uma constante atmosfera de melancolia e incerteza. A fotografia marcada por interiores escuros e enquadramentos que exploram os detalhes da residência aproxima o espectador desse universo de expectativas, medo e vulnerabilidade feminina. Há uma cena especialmente reveladora em que Cléo, grávida, faz amor com o marido e assume momentaneamente o controle do próprio desejo. Logo depois, porém, Tony permanece deitado, imóvel e de olhos abertos, como se encarasse a sexualidade da esposa com desconforto ou reprovação. Muitas vezes a figura do marido aparece de maneira obscura, em segundo plano, como um observador silencioso e escorregadio.

Ao transformar o ambiente doméstico em um espaço de silêncio e manipulação, Djin Sganzerla constrói um thriller psicológico que discute o abuso não apenas como ato físico, mas como um espectro sorrateiro e assustador. Eclipse encontra potência justamente ao observar como a violência pode se esconder atrás da figura aparentemente ideal do homem protetor.

Eclipse entende que a violência masculina nem sempre se manifesta de maneira explícita. Muitas vezes ela se esconde sob gestos de cuidado, estabilidade emocional e aparência de normalidade. É justamente nessa dimensão silenciosa da toxicidade masculina que o filme cresce, refletindo sobre as máscaras da crueldade e as camadas morais que sustentam a figura do abusador.

Nota

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  • Jornalista por formação, editora e crítica de cinema carioca. Certificada em cinema pela Academia Internacional de Cinema, é apaixonada por filmes de terror e narrativas sobre serial killers. Entusiasta do cinema independente e de obras dirigidas por mulheres.

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