Mostra Mirada Paranaense: 4 Curtas-Metragens

Mostra Mirada Paranaense: 4 Curtas-Metragens

A porta de entrada para muitos cineastas brasileiros(as) que hoje são renomados foram os curtas-metragens. São filmes geralmente mais baratos e que, por isso, conseguem financiamento público com mais facilidade por editais diretos ou de captação. Porém, não são obras que vemos em circuitos comerciais de cinemas e streamings. O reconhecimento acontece por meio de festivais, que, felizmente, ainda dedicam espaço para esse tipo de produção. 

O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba é um desses momentos em que surgem grandes talentos e se revelam belas surpresas cinematográficas que talvez não pudéssemos ver em outro lugar. Imagino, também, a emoção dos realizadores e realizadoras que veem suas ideias e emoções sendo recebidas pela plateia. Por esses motivos, dedicamos um tempo de nossa cobertura para ver o cinema paranaense em tela, que, com suas múltiplas facetas, não decepcionou. Aqui estão breves comentários sobre quatro curtas-metragens:

Enluarada, de Pedro Nascimento

Os momentos que dedicamos ao silêncio são tão importantes! São neles que ficamos diante de nós mesmos, de nosso subconsciente carregado pelas dores que vivemos e que não são compreendidas por quem nos vê de fora. No mundo tão agitado em que vivemos, esse tempo se torna cada vez mais escasso, ocupado por milhares de demandas sociais que nos são impostas. Portanto, é preciso coragem para enfrentar seus traumas e superá-los quando tudo caminha para eles o devorarem.

É o caso de Lucília, personagem de Enluarada, o poético curta de Pedro Nascimento. Submersa em seus pensamentos enquanto fuma um cigarro e observa a lua, ela vê sua intimidade se materializar no quarto. Há algum medo lá fora que bate à porta. É um exterior infinito, que causa vertigem. No cenário simples, porém muito eficaz, existem olhos que parecem oprimi-la e aumentam a sensação de incômodo.

Quando o caos aumenta, Lucília encontra exílio dentro da gaveta de uma escrivaninha, ao modo Alice no País das Maravilhas, para chegar à liberdade de um rio. Tudo é filmado em tom surrealista, e com uma bela fotografia que realça o caráter poético de Enluarada. Por fim, temos uma combinação acertada dos elementos que fazem do filme uma visão singela sobre os dilemas do inconsciente, mas também um caminho de esperança no olhar interior.

Tornar-se Ciborgue no Interior, de Louisa Savignon

Em um futuro indeterminado, do interior paranaense, vivem Leo e Júlia, donos de um sítio e de um ciborgue que lhes serve como funcionário. Na chácara ao lado acabaram de chegar novas vizinhas, Ava e Mia, um casal lésbico formado por uma humana e uma ciborgue.

A diretora e roteirista, Louisa Sauvignon, parece estar menos interessada em convenções narrativas, do que em criar uma fantasia engajada no questionamento da masculinidade, e assim o faz muito bem. Enquanto o primeiro casal vive uma instabilidade no relacionamento, já que não conseguem gerar o tão desejado filho, o segundo compartilha um amor caloroso. Leo, ao descobrir sua infertilidade, desperta sua ira machista para negar-se a qualquer tipo de culpa, e passa, então, a observar as vizinhas com um misto de curiosidade, desejo e inveja.

Quanto mais Júlia se aproxima de Ava e Mia, mais livre se torna. O contato com essa nova forma de existir a contagia, rendendo uma afrontosa cena musical no final do curta-metragem. A montagem e a fotografia dão uma dinâmica ágil ao filme e, ao mesmo tempo, resgatam paisagens típicas do interior paranaense (lugar onde também fui criado), acrescentando-lhes um ar sci-fi, com ruídos digitais na imagem e cores neon.

Tornar-se Ciborgue no Interior é, de acordo com relatos da própria diretora, inspirado nas ideias do Manifesto Ciborgue, de Donna Haraway. Portanto, o hibridismo das imagens faz sentido, pois funcionam como reivindicação de identidades fluidas, que misturam homem e máquina, onde não há determinação de gêneros. Se somos todos atravessados por inúmeras construções sociais, o futuro fantasiado por Sauvignon é justamente a contraposição entre os movimentos de ruptura e permanência. De um lado Ava e Mia, de outro Leo e Júlia. Se Júlia consegue se desprender de si mesma e se “tornar ciborgue” é porque encarnou o manifesto de Haraway e entendeu-se livre.

Yvyra’ijá há Jate’í Reheguá – Os Quatro Guerreiros e o Jatei, de Coletivo Ava Guarani de Cinema

Um dos grandes problemas do Paraná é a violência do agronegócio. Em algumas cidades, indígenas resistem para manter o mínimo de dignidade e lutam por suas terras que são invadidas constantemente por fazendeiros. A belíssima mata atlântica é substituída por pastagem, plantação de pinus e eucalipto. Viajar pelo estado observando a paisagem é constatar a devastação de um território que poderia ser extremamente biodiverso. 

Yvyra’ijá há Jate’í Reheguá é um documentário que está justamente nesse contexto. A obra é o resultado de uma oficina de cinema realizada com o povo Ava Guarani, da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, nas cidades de Guaíra e Terra Roxa, próximo à fronteira com o Paraguai. Os mais jovens da aldeia interrogam o ancião em busca de conhecimento sobre a produção do mel da abelha Jatei. Descobrimos, então, a história de vida desse guerreiro que antes enfrentava fazendeiros em busca da Jatei, agora ensina seus netos a produzir o mel ali mesmo, na pouca terra segura que restou. 

Narrando suas memórias enquanto manuseia as colmeias, o avô lamenta não existir mais floresta em sua volta, já que tudo foi cercado pelos “proprietários”. A câmera segue os detalhes de suas mãos, os favos recheados e as abelhas operárias dentro de suas caixas. 

O filme é bem curto e simples, sem muito apego imagético além de mostrar o que descrevemos. É um cinema verdadeiro, produzido pelas próprias pessoas que vivem ali e sabem dos dilemas que enfrentam. Portanto, ele já nasce como cinema político a partir do momento em que pessoas se dispõem a oferecer câmeras de cinema aos indígenas, a dar suporte para esta produção coletiva que vem da própria terra e fala de si, no âmago de suas dores diante da desarmonia provocada pelo homem branco. 

O Caçador, de Lucas Mancini

Quando chega a fome, renasce nosso instinto caçador. A aproximação entre um cão e um trabalhador rural idoso se dá assim. Quando retorna depois do que parece ter sido um período exaustivo de trabalho em alguma fazenda, o homem encontra o animal amarrado a uma árvore. A princípio ele o ignora, mas depois, quando está em casa comendo, o cachorro aparece arrastando a corda presa ao pescoço. Mesmo que aquele alimento represente um grande esforço e possa ser uma rara refeição, ele o compartilha. Os dois se tornam amigos.

Utilizando-se quase sempre de planos estáticos, Mancini é minucioso na construção do clima soturno que perpassa o curta. Trabalha com tons pálidos na fotografia e nos figurinos, e conduz as interpretações para serem minimalistas. A cena em que os quatro atores (incluindo o cão) contracenam é a prova de que todos os elementos estão harmonicamente organizados: a beleza do quadro; a ameaça que paira; ao fundo, o funcionário do fazendeiro com olhar condescendente àquele que tem fome, mas que não pode deixar de cumprir sua função de capataz; e até mesmo o olhar do cão ao fitar seu parceiro, como se já previsse o que o idoso falaria.

Quando o velho (assim o personagem é creditado) percebe que o cão está com algumas penas presas ao pelo, resolve segui-lo suspeitando que caçou algum animal. Em um ato silencioso de companheirismo, é como se o cão estivesse lhe guiando até o alimento: uma galinha. Em um gesto de retribuição, novamente os dois compartilham o alimento.

Por duas vezes é essa a refeição que eles têm, até que o vizinho descubra que suas aves estão sendo roubadas. Ao ser interpelado, o idoso afirma que só comeu as galinhas porque o cão já as havia matado e porque estava faminto. Mesmo que demonstre alguma compaixão com o relato, parece que o fazendeiro se vê obrigado a manter-se como figura de superioridade e precisa aplicar uma punição. 

Novamente, nosso instinto de caça aparece quando é preciso lutar por sobrevivência. O laço de fraternidade entre o cachorro e o homem vai até o ponto onde se precisa decidir quem vive. Ao ser intimado, o velho afirma que o cão não tem dono, só apareceu por ali, indicando, então, que este poderia ser levado pelo capataz. 

O Caçador é um filme que precisa de poucos gestos e palavras, já que tudo é subentendido pela potência das imagens. Somos guiados a transcendê-las para chegarmos não só ao dilema do personagem, mas ao de todo ser humano quando se vê em estado de alerta, onde qualquer moralidade se perde para a subsistência. 

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