Funk | 2026
O sonho de conquistar o baile
Poucos gêneros musicais estão tão profundamente ligados à identidade cultural do Rio de Janeiro quanto o funk. Nascido nas periferias e favelas da cidade, o movimento se consolidou ao longo das últimas décadas como uma das manifestações artísticas mais populares do país, tornando-se espaço de afirmação social, resistência e expressão para milhares de jovens. Ao mesmo tempo, continua cercado por preconceitos históricos, frequentemente associado por setores mais conservadores à violência, à sexualidade explícita e à marginalidade.
É nesse território de contradições que se insere Funk, novo longa-metragem de Aly Muritiba. Misturando drama, musical e narrativa de amadurecimento, o filme acompanha a trajetória de MC Sabrina (Duda Santos), uma jovem cantora determinada a conquistar seu espaço na cena carioca. Da infância no Morro dos Prazeres aos grandes bailes espalhados pelas favelas do Rio de Janeiro, Sabrina enfrenta desigualdades sociais, disputas de poder e barreiras de gênero enquanto tenta transformar seu talento em reconhecimento.
Inteligente, ambiciosa e dona de uma presença magnética nos palcos, Sabrina acredita que o sucesso está ao seu alcance. Suas letras provocativas e sua postura sexy dominadora confrontam limites historicamente impostos às mulheres dentro de uma cena amplamente dominada por homens. Conforme sua popularidade cresce, surgem também dilemas relacionados à fama, à sua autenticidade e ao preço que se paga para ascender socialmente sem romper com as próprias origens.
A protagonista rejeita, a princípio, qualquer aproximação com o universo pop. Sua referência está no chamado “funk proibidão”, marcado por letras explícitas sobre sexo e por uma linguagem direta que raramente busca aprovação fora de seu público. Dentro desse contexto, o filme encontra espaço para apresentar uma perspectiva feminina, que se tornou mais comum nos dias de hoje, protagonizada por uma mulher que reivindica para si o direito de ocupar esse lugar sem constrangimentos ou pedidos de desculpa.
Muritiba imprime energia e vitalidade à narrativa ao combinar atores profissionais com figuras reais da cena funk, como Lellê, MC Nem, TZ da Coronel e DJ Crazy Jeff. As sequências musicais funcionam, buscando capturar a potência coletiva dos bailes e transformando a música em elemento central da construção dramática. Não por acaso, Duda Santos e MC Nem receberam uma Menção Especial do Júri para Melhor Performance em Filme Internacional no Festival de Tribeca, onde o longa integrou a seleção oficial.
O filme levanta questões interessantes sobre a forma como o próprio cinema observa o universo do funk. A direção recorre com frequência a closes bastante aproximados dos corpos femininos, enfatizando curvas, movimentos e coreografias. Em alguns momentos, essa abordagem flerta com uma reprodução do mesmo olhar objetificante que historicamente acompanha a imagem das mulheres dentro da cultura popular. No entanto, o longa tenta complexificar essa representação ao construir Sabrina como alguém plenamente consciente das regras desse ambiente. Ela compreende o peso da sexualização em sua trajetória, mas se recusa a ser reduzida a ele. Sua luta é justamente provar que existe uma artista por trás da imagem constantemente consumida pelo olhar alheio.
Mais do que um filme sobre música, Funk se revela um retrato de uma juventude que encontra na arte uma possibilidade concreta de transformação. Muritiba utiliza a ascensão de Sabrina para discutir sonhos, sobrevivência e pertencimento em uma cidade marcada por desigualdades profundas. O resultado é uma obra vibrante, que entende o funk não apenas como entretenimento, mas como linguagem cultural, ferramenta de resistência e caminho possível para quem busca romper os limites impostos pelo lugar onde nasceu.
- English review:
Conquering the Baile
Few musical genres are as deeply intertwined with the cultural identity of Rio de Janeiro as funk. Born in the city’s favelas and working-class neighborhoods, the movement has evolved into one of Brazil’s most powerful forms of artistic expression, serving as a vehicle for resistance, self-affirmation, and social mobility for generations of young people. Yet despite its popularity, funk remains burdened by longstanding prejudice, frequently dismissed by conservative sectors of society as little more than a celebration of violence, explicit sexuality, and marginality.
It is within this landscape of contradictions that Aly Muritiba’s Funk unfolds. Blending musical drama with a coming-of-age story, the film follows MC Sabrina (Duda Santos), an ambitious young performer determined to carve out a place for herself within Rio’s competitive funk scene. From her childhood in Morro dos Prazeres to the massive baile parties that animate the city’s favelas, Sabrina navigates social inequality, gender barriers, and power struggles as she pursues recognition for her talent.
Smart, fiercely determined, and magnetic on stage, Sabrina believes success is not a matter of if, but when. Her provocative lyrics and commanding sexuality challenge the limits traditionally imposed on women in a scene long dominated by men. As her profile begins to rise, however, she finds herself confronting questions of authenticity, fame, and the compromises that often accompany upward mobility.
One of the film’s most compelling aspects is its engagement with the evolving role of women within funk culture. Sabrina initially rejects any association with mainstream pop music, embracing instead the raw energy of funk proibidão, a subgenre known for its explicit lyrics and refusal to soften its language for broader audiences. Within this environment, Funk creates space for a female perspective that has become increasingly prominent in recent years: a woman claiming ownership of her sexuality, her voice, and her artistic ambitions without apology.
Muritiba injects the film with considerable vitality by blending professional actors with real figures from Brazil’s funk scene, including Lellê, MC Nem, TZ da Coronel, and DJ Crazy Jeff. The musical sequences are among the film’s greatest strengths, capturing the collective energy of the baile while integrating the music organically into the dramatic arc. It is no surprise that Duda Santos and MC Nem received a Special Jury Mention for Performance in an International Narrative Film at the Tribeca Festival, where the film premiered.
The film also raises intriguing questions about how cinema itself approaches the world of funk. Muritiba frequently employs tight close-ups of female bodies, emphasizing curves, movement, and choreography. At times, this visual strategy risks reproducing the same objectifying gaze that has historically shaped representations of women in popular culture. Yet the film complicates this dynamic by constructing Sabrina as someone fully aware of the rules governing her environment. She understands the role that sexualization plays in her career but refuses to be defined by it. Her struggle lies in proving that behind the image consumed by others exists a performer, a creator, and an artist in her own right.
More than a film about music, Funk becomes a portrait of a generation that sees artistic expression as a genuine path toward transformation. Through Sabrina’s ascent, Muritiba explores themes of ambition, survival, and belonging within a city marked by profound inequalities. The result is an energetic and engaging work that understands funk not simply as entertainment, but as a cultural language, a form of resistance, and a means of transcending the limitations imposed by one’s place of birth.
