Ponta à Ponta – Mostra de Filmes Paranaenses | 2026

Ponta à Ponta – Mostra de Filmes Paranaenses | 2026

Uma das grandes mazelas deixadas pelo colonialismo em nosso país é a centralização cultural. Há séculos tenta-se marginalizar as mais variadas formas de arte de um povo tão diverso em prol de um conteúdo e uma forma importados da indústria cultural estadunidense e europeia. Como já escrevemos antes, Glauber Rocha, ao lado de seus colegas do Cinema Novo, reivindicava um cinema nascido das entranhas do Brasil, mas esse continua sendo, até hoje, um tipo que não chega a grande parte dos espectadores brasileiros.

Mesmo que o cenário das produções brasileiras seja otimista nos últimos anos, trazendo sucessos de bilheteria como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, ainda é uma luta muito injusta se compararmos a presença do cinema nacional com o estrangeiro nas salas de projeção pelo país. Além disso, a consolidação dos streamings de maneira desregulada nos empurra ainda mais para a beira de um abismo identitário.

Um país que não se reconhece e não consome sua própria arte está fadado a carregar o peso da herança colonial nas costas. Não há pertencimento nem valorização das origens, pelo contrário, passa-se a imaginar a própria vida a partir de referências que vêm de fora e que, muitas vezes, não são capazes de interpretar nossas experiências. Sem interpretação, sem senso crítico, tornamo-nos um povo facilmente manipulável sob o discurso da globalização.

Entretanto, vale destacar os esforços, mesmo que mínimos, do governo atual em fomentar políticas públicas pela valorização do cinema nacional, haja vista o desmanche cultural perpetrado pela gestão anterior de extrema-direita, declaradamente avessa à arte. Leis de incentivo dão sobrevida às produções independentes; recentemente inaugurou-se o Tela Brasil (que você pode consultar aqui), streaming gratuito que reúne mais de 550 obras nacionais; apenas em 2025 foram registradas  3.979 produções audiovisuais não publicitárias no país. Quem assiste a estes filmes? Onde eles estão?

Fica evidente que ainda enfrentamos um sério problema de distribuição, reconhecimento e de criação de público em nosso próprio cinema. Além disso, se analisarmos internamente encontraremos outra discrepância. O eixo Rio-São Paulo é detentor de cerca de 43% das telas de cinema do país e concentra a maior infraestrutura para a produção audiovisual. Se há um cinema brasileiro sendo feito e consumido ele também é centralizado. O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho vem há tempos chamando atenção para esse fato, fazendo constantes movimentos pela valorização dos múltiplos Brasis na sétima arte.

Mas, aquém da popularidade de Kleber, existem outras vozes que ecoam o mesmo grito e que, novamente, graças às políticas públicas, conseguem espaço. São pequenos festivais e mostras que colocam em circulação toda essa abundante produção brasileira, pescando obras que trazem as mais diferentes facetas presentes em um povo tão diverso, ligado às raízes indígenas e negras negligenciadas por tanto tempo.

É nesse contexto que agora chegamos ao interior do Paraná, na cidade de Ponta Grossa, com menos de 400 mil habitantes e dois “cinemas de shopping”, para enaltecer as forças de resistência que por aqui florescem. Já escrevemos sobre duas edições do Cine dos Campos – Festival de Cinema de Ponta Grossa, que trouxe a exibição de curtas-metragens nacionais ao público pontagrossense. Em 2025 tivemos a primeira edição do Festival Araucária dos Campos Gerais, dedicando um espaço maior às produções da própria cidade. E neste mês tivemos a segunda edição do Ponta à Ponta – Mostra de Filmes Paranaenses.

A insistência de seus organizadores tem ocupado a sala pública de cinema do município (algo que toda cidade deveria ter) e reunido um público que, por mais que ainda tímido, cria o hábito de ver-se na tela grande. É preciso consciência de que a resistência não nasce de um dia para o outro, até porque o sistema que nos cerca tem todas as condições nas mãos. Mesmo que estes sejam ainda chamados de pequenos movimentos, são enormes ao atingirem 10, 20, 50 ou 100 pessoas, e reverberam a partir de experiências audiovisuais que talvez se vissem como quase inalcançáveis a seus realizadores. 

A Ponta à Ponta – Mostra de Filmes Paranaenses aconteceu em 5 sessões entre os dias 31/07 e 08/08, 4 dedicadas para curtas e 1 para a exibição do longa-metragem Até Amanhã, de Rodrigo Tomita, e promete não parar por aí. Os diretores Gabriel Borges e Gabriel Chemim pretendem novas sessões em setembro.

A curadoria revelou muitos “Paranás” dentro de um. Passou por temas urgentes, como o apagamento histórico da luta indígena no Estado, a romances singelos, mas nem por isso descolados de um contexto político de nossa terra. Com certeza o paranaense que se viu ali não passou ileso às experiências estéticas que teve. Do clássico ao experimental, foi de encontro à reflexões tão importantes, e que não estão na maioria dos filmes estrangeiros que nos chegam. São nossas paisagens transformadas em símbolos pela magia da sétima arte. São histórias tão próximas e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, tão veladas. Valorizar o cinema brasileiro também significa reconhecer que não existe um único cinema brasileiro.

Entre os 19 curtas-metragens apresentados, destacamos brevemente nossos três favoritos. Não incluímos Enluarada, de Pedro Nascimento, e O Caçador, de Lucas Mancini, dois curtas que já estiveram presentes no Olhar de Cinema deste ano e que você pode ler sobre eles aqui. Antes da análise específica, listamos abaixo todos os títulos e seus respectivos realizadores, nomes que precisam de respeito e reconhecimento diante das dificuldades do cinema marginalizado.

  • Bomba & Brigitte Bardot – Dir. Maikon Nery • Londrina – 4′ 
  • Curitiba No Cinema: Alguns Planos – Dir. Eduardo Baggio • Curitiba – 7′ 
  • Jogado Na Nuvem – Dir. Lennon Augusto • Colombo – 13′
  • Amor Em Agosto – Dir. Paula Negri • São José Dos Pinhais / Curitiba – 35′
  • À Deriva – Dir. Thiago Stancik • Ponta Grossa – 4′
  • Faça-Se Você Mesma! – Dir. Sérgio Santos Barroso • Guaratuba – 21′
  • A Caverna – Dir. Louise Fiedler • Curitiba – 14′
  • Enluarada – Dir. Pedro Nascimento • Maringá – 10′
  • Delia – Dir. Aléxia Rocha & João Emanuel Gomes • Curitiba – 9′
  • Nasce Uma Supernova Na Galáxia Bailarina – Dir. Alexandre Junior Duarte Tsujioka, Anna Prado, Charlise Corrêa Ciano Franco, Ellen Kiwa, Gabriel Benfica, Josemar Lucas, Lucas Leonel, Luna Ferraz, Maria Thereza, Mariana Chinchilla,  Nanjilè, Oliver Leticia Stan Machado, Thais Fernanda, Thiego Bitencourt, Thyago Mumu  • Londrina – 7′
  • Omodé – Dir. Nanjilè • Londrina – 16′
  • O Caçador – Dir. Lucas Mancini • Curitiba – 20′
  • Ceramística – Dir. Djankaw Kilombola • Guarapuava – 13′
  • Marmita – Dir. Guilherme Peraro • Londrina – 21′
  • Quando Eu For Grande? – Dir. Mano Cappu • Curitiba – 15′
  • Fronteriza – Dir. Nay Mendl, Rosa Caldeira • Foz Do Iguaçu – 20′
  • Flamingo – Dir. Larissa Marli Clausen • Ponta Grossa – 5′
  • Guairacá – Dir. Luan Rodrigues • Guarapuava – 17′
  • Meu Pedaço De Mandioca – Dir. Raíssa Castor • Curitiba – 14′
  • Até Amanhã – Dir. Rodrigo Tomita • Curitiba – 66′

Nossos favoritos em ordem aleatória:

A Caverna

Recentemente alguns filmes com o tema da maternidade ganharam destaque mundial, como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025, de Mary Bronstein) e Hamnet (2025, de Chloé Zhao). Cada um a seu modo, eles levantaram reflexões sobre os cuidados familiares relegados às mães e sobre a ausência paterna, tendo como ponto de partida a infância dos filhos. 

Em A Caverna, dirigido por Louise Fiedler, esse debate ganha outros contornos: há um processo de desfiliação, quando a filha adulta afirma sua saída da casa da mãe. Esse evento desencadeia as dores de uma maternidade já bastante vivida e agora afligida pela depressão. A discussão entre as duas, filmada em planos fechados que isolam e distanciam cada personagem, e com atuações marcantes de Nathalia Garcia e Saravy, leva-nos a uma jornada interior onde o ressentimento da filha se transforma em uma tomada de consciência.

Mesmo diante de suas diferenças e do medo, a filha entra na metafórica caverna em que sua mãe está afundada em melancolia para levar-lhe a luz. É quando Fiedler adota a fantasia como meio de sua narrativa e transforma o espaço físico em uma experiência emocional ainda mais potente. O esforço de filmar em uma caverna real, com cenografia e fotografia belíssimas, é com certeza recompensado com um impacto imenso.

Dentro dos limites da pequena duração de 14 minutos e de um baixo orçamento de curta-metragem, A Caverna consegue trazer os dilemas da maternidade e da depressão com sensibilidade, dignos das obras de longa-metragem que citamos anteriormente.

Ceramística

Acima escrevemos sobre como um povo desconectado de sua própria história se transforma em massa de manobra pelo poder constituído. Isto é um projeto antropocêntrico, e, por consequência, cisheteronormativo, que, nas mãos do neoliberalismo, transforma-se em uma máquina ainda mais feroz de destruição de identidades, e, até mesmo, o apagamento de culturas inteiras.

Uma juventude que cada vez mais se desconecta da natureza, da ancestralidade, para, então, conectar-se virtual e superficialmente com o mundo, é o reflexo desse sistema. É nesse contexto que uma obra de arte se prova como resistência, quando ultrapassa o discurso vazio que já é colonizado para fazer-se a própria experiência sensorial de reconexão. É o caso do magnífico Ceramística, de Djankaw Kilombola.

Entre documentário e ficção, inspirado na trajetória e na obra do artista plástico Alex Kuá, o filme narra sua jornada ao encontro de si mesmo e da ressignificação da vida após a pandemia de coronavírus. E é no ritual indígena da feitura da cerâmica que ele desperta os elementos naturais (terra, água, fogo e ar) como entidades que o acompanharão nesse árduo processo.

A quebra de um pote de barro torna-se a oportunidade da criação de outro. Da simbiose da terra com a água, até o soprar dos ventos e o fogo para solidificar a nova peça, Djankaw constrói uma belíssima poesia visual, fazendo com que a espiritualidade de Kuá se personifique através de suas imagens experimentais. Entre sobreposições, encenações lúdicas e danças das forças da natureza, tem-se o reencantamento pela vida.

Em Ceramística, a cura é a reconciliação do humano com o natural, quando conseguimos ver o mundo de uma outra forma – como já nos disse o pensador e ativista indígena Ailton Krenak. O entendimento de que fazemos parte de uma mesma força natural e mística (e que por isso escapa da razão opressora que quer reduzi-la) é o caminho para adiar o fim do mundo. Portanto, a reconexão proposta pelo filme não é apenas um exercício íntimo do personagem, mas também uma revolução identitária, espiritual e, acima de tudo, decolonial.

Meu Pedaço de Mandioca

Apreciar uma porção de mandioca frita nunca foi tão significativo como se tornou após a sessão de Meu Pedaço de Mandioca. Descascar, cortar, cozinhar, fritar e servir. O delicioso processo de uma lanchonete é filmado pela diretora Raíssa Castor com um frescor que quase nos faz sentir o cheiro na sala de cinema. Mas quando a guloseima chega à mesa, as pessoas ali a consomem com monotonia, como se estivessem robotizados.

Até que Rita (a cativante Moira Albuquerque) quebra o ciclo ao perceber o estranho ambiente que habita. Em seu auge epifânico começa a questionar-se sobre o sentido daquilo tudo e de sua busca incessante por um pedaço específico de mandioca, aqueles pequenos e crocantes. Não estaríamos todos em busca de algo, enquanto acabamos aceitando aquilo que fomos domesticados a querer?

A questão que nasce com a personagem conduz toda a mise-en-scène ao colapso cômico. Castor é hábil ao estabelecer uma linguagem sarcástica e ácida para, então, revelar-nos um debate muito mais complexo e bonito do que problemas de mandioca. Rita encontra o amor lésbico a partir da aceitação de sua sexualidade e passa a ver o mundo com uma alegria estonteante. 

Terminamos sorrindo e dançando com esse curta-metragem tão cheio de humor e inteligência. O que começa como um filme inusitado e despretensioso, leva-nos a reflexões tão sérias e importantes que é impossível sair sem ao menos repensar os automatismos que limitam os prazeres de nossas vidas.

Por fim, estas três obras são exemplos dos múltiplos Paranás que existem dentro de um. Temos aqui artistas multifacetados, dispostos a trazer questões relevantes de nosso tempo a partir de diferentes perspectivas, com paisagens, vozes e experiências paranaenses capazes de criar um público identificado com o nosso próprio cinema. Que a insistência dos organizadores continue, que venham novas edições da Mostra Ponta à Ponta e que esse movimento de resistência se espalhe, imparável, por todo o Paraná, e, quiçá, pelos Estados do Brasil.

Descentralize o cinema.

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One thought on “Ponta à Ponta – Mostra de Filmes Paranaenses | 2026

  1. Claro que sou suspeita pra falar do Meu Pedaço de Mandioca, mas vou falar mesmo assim. Temos no filme vários temas sensíveis, mas terminamos leves, com um sorriso no rosto e um brilhinho no olhar. Acho que de tudo pra mim isso é o mais especial do filme. Nos vemos na tela, nos reconhecemos nos corpos, nos divertimos com o diálogo e as situações, e sorrimos aliviados no final. Viver é confuso mas é massa demais. Acho que essa é a mensagem que fica, e eu amo! <3

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