Telúrica, a Íntima Utopia | 2026
“E não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico como qualquer outra série de idéias e atos humanos”.
Antonin Artaud
A faminta razão a tudo devora. Qualquer traço delirante precisa ser engolido, reprimido e adequado para os modelos comportamentais que a convenção social criou. As punições para aqueles que não se encaixam já passaram pela tortura, morte, aprisionamento manicomial, e, hoje, ainda, ao desamparo e discriminação. Em tempos da ditadura do desempenho, aos “loucos” não resta espaço, pois já não são “úteis”. É nesses corpos renegados que Telúrica, a Íntima Utopia encontra sua potência, invocando o espírito dionisíaco para afirmar nosso impulso vital irracional, este que nos leva aos delírios mais belos da existência inadequada.
Quando a documentarista recifense Mariana Lacerda encontra a companhia teatral paulista Ueinzz, nasce um filme que nos coloca diante de pacientes psiquiátricos que encontraram abrigo na arte. Liderados por Elisa Band, o grupo ensaia a montagem da peça Telúrica, fruto das experiências dos próprios atores entre esperanças e desilusões cotidianas. Mas o objeto de Lacerda não é a peça, e nem mesmo a companhia: trata-se muito mais da construção de uma fraternidade a partir de linhas disruptivas de tudo que fica do lado de fora do mundo e da razão.
Existe um único cenário, que é a Casa do Povo, onde acontecem os ensaios e apresentações, filmado com uma sensibilidade que supera a tridimensionalidade do espaço e cria um ambiente mágico. Jamais sentimos claustrofobia por estarmos “presos” ali, pelo contrário, há uma amplitude que é implicada desde o início. A cena introdutória mostra um dos atores fazendo um monólogo, sempre enquadrado em plano fechado. Não vemos mais nada, mas sentimos a energia dos outros atores que batem palmas, cantam e dançam. Faz-se, então, o tom que nos acompanhará durante toda projeção, traduzindo aqueles momentos no sentido mais poético da palavra telúrica.
“Afinal, o que é telúrica?” – pergunta um dos personagens. É uma força que vem da terra e nos une nos movimentos da vida. Não é racional, porque trata-se de um fluxo além da lógica. Todos ali se conectam no mesmo sentido. Momentos em que os atores estão descansando e conversando são reveladores disso. Não há julgamentos, porque estes são frutos da razão dominante. Há o acolhimento de ideias, de sonhos e delírios. São eles que compõem a peça Telúrica e com isso se tornam a narrativa do documentário.
Seguimos a dinâmica daquele grupo, entre criação, ensaios e aflições. Em alguns momentos a mente escapa e não é possível terminar uma cena, mas isso é respeitado. Adapta-se para incluir quem não se sente à vontade. Novas ideias são discutidas e pensadas para representar as indagações que os próprios atores carregam consigo. A câmera jamais se coloca como observadora clínica. Em vez disso, permanece junto aos corpos, compartilhando a intimidade dos ensaios, sem tratá-los como objetos de estudo.
Cada um dos personagens principais tem um tempo equivalente em tela, não para uma apresentação formal de quem são, visto que ninguém ali recebe rótulos além de seus próprios nomes, mas todos deixam transparecer a si mesmos por suas histórias e ideias. O sofrimento psiquiátrico aparece em alguns discursos, mas não é o fio condutor da obra. Como dito, o interesse está muito mais na ligação que é criada em meio do que poderíamos entender como um ambiente caótico, mas que é, na verdade, transbordante de vida. Jayme Menezes, um dos atores da companhia, convidado para a exibição de Telúrica, a Íntima Utopia no 15º Olhar de Cinema, em sua fala de abertura da sessão confirma justamente isso: “ver o filme me dá vontade de viver”.
São essas expressões humanas, íntimas utopias, sonhos que dão sentido à existência, micromovimentos que entram em simbiose quando se chocam, que elevam o documentário. Certamente, não seria a mesma coisa se fossem apenas filmagens informativas sobre os efeitos terapêuticos do teatro na vida daquelas pessoas ou um registro do sucesso da apresentação teatral. É o olhar delicado de Mariana Lacerda e, não menos importante, de Elisa Band ao montar a peça, que constituem o ponto alto do filme.
Ao final, ficam questionamentos a respeito da mente humana e seus limites, do que é a criatividade e como ela opera (ou deixa de operar) dentro dos limites das exigências sociais. A harmonia da obra emerge do encontro das diferenças ali presentes, carregadas por uma força vital (telúrica) além da lógica. Para isso não foi necessário um didatismo da imagem ou uma abordagem clínica. Em sentido inverso, foi preciso apenas a abertura de uma “fenda no tempo”, como expressa um dos momentos mais emblemáticos do filme, para que Dionísio e seu caos atravessassem a tela e nos atingissem.
