Blaise | 2026

Blaise | 2026

Uma sátira revolucionária sobre a arte de agradar a qualquer custo

Há algo particularmente desconcertante em Blaise, longa dirigido por Dimitri Planchon e Jean-Paul Guigue. A animação parte de uma família aparentemente banal para construir uma sátira política cada vez mais absurda, na qual a necessidade de aprovação, o medo do confronto e o desejo de pertencer conduzem os personagens a consequências completamente desproporcionais. O resultado é uma comédia de constrangimentos que encontra no comportamento humano o combustível para uma escalada de violência, confusão e absurdo.

No centro da história está Blaise (Timéo), um adolescente de 16 anos introvertido, apático e aparentemente desprovido de personalidade própria. Ele concorda com tudo e raramente se posiciona, tornando-se quase um recipiente para as expectativas daqueles ao seu redor. Seus pais também carregam suas próprias frustrações. Carole (Léa Drucker) acaba de assumir um cargo executivo em uma grande empresa, mas sua necessidade desesperada de ser querida pelos funcionários ameaça comprometer sua carreira. Jacques (Jacques Gamblin), desempregado e dependente da própria mãe, sente-se desrespeitado e tenta, sem muito sucesso, reorganizar a própria vida. Até mesmo a orientadora escolar de Blaise parece reconhecer que aquela família inteira está perdida.

A situação começa a sair do controle quando Blaise conhece Joséphine (Nina Blanc-Francard) em uma festa marxista. Interessado em impressioná-la, ele mente sobre sua condição financeira e afirma viver na pobreza. Joséphine, por sua vez, também esconde sua verdadeira origem: é filha do milionário que, sem que nenhum dos dois saiba, acaba de se tornar o chefe de Carole. A partir dessas pequenas mentiras, a narrativa estabelece seu mecanismo central. Joséphine radicaliza o discurso político para impressionar Blaise, e ele simplesmente concorda, ampliando cada afirmação para não contrariá-la. O desejo de agradar transforma-se, pouco a pouco, em uma cadeia de acontecimentos desconfortáveis que nenhum dos dois consegue controlar.

É nessa escalada que Blaise encontra sua principal força cômica. O filme transforma a incapacidade de seus personagens de estabelecer uma conversa franca em uma sucessão de consequências cada vez mais absurdas. O que poderia ser resolvido com uma simples conversa transforma-se em tumultos, relações extraconjugais e até atos de terrorismo. A sátira não está apenas no comportamento da esquerda revolucionária que o filme caricatura, mas também na forma como seus personagens confundem convicção com performance, levando discursos políticos ao extremo simplesmente para serem aceitos pelo outro.

A animação reforça esse estranhamento. Logo nos primeiros minutos, chama atenção o tratamento visual dos personagens, com rostos que parecem ter sido recortados de fotografias e incorporados a uma espécie de colagem em movimento. A escolha estética funciona como extensão da comicidade, criando uma artificialidade deliberada que combina com personagens igualmente deslocados de seus próprios papéis sociais, apáticos e egocêntricos. Há algo desconfortável em observar figuras tão próximas do real, mas simultaneamente tão pouco naturais, como se estivessem presas entre a fotografia e o desenho.

Embora a sátira política seja seu eixo mais marcante, Blaise também encontra momentos interessantes ao abordar os constrangimentos da adolescência e, por extensão, as inseguranças da vida adulta. Blaise não sabe quem é e tenta descobrir sua identidade a partir do olhar de Joséphine, enquanto seus pais permanecem igualmente incapazes de lidar com suas próprias frustrações. O pai de Blaise é inseguro e extrememente autocentrado, usando a conselheira escolar do filho como terapeuta para tratar seus problemas pessoais e escapando de qualquer assunto que envolva seu filho. Já sua mãe parece flutuar entre o trabalho e as dificuldades morais de lidar com sua nova equipe, chegando ao extremos de assumir um caso com a colega de trabalho para não ficar mal na empresa.

Nesse sentido, a falta de personalidade do protagonista deixa de ser apenas uma característica cômica e passa a funcionar como instrumento narrativo: é justamente porque Blaise não consegue sustentar uma posição própria e parece não ser visto por sua família,  que o absurdo ao seu redor pode crescer indefinidamente.

O problema está no próprio excesso que alimenta o filme. À medida que a narrativa intensifica sua crítica social e transforma cada situação em algo ainda mais extravagante, o humor nem sempre acompanha a ambição. O que inicialmente provoca estranhamento e curiosidade pode, em determinados momentos, parecer uma tentativa insistente de chocar pelo pitoresco. A sucessão de situações absurdas eventualmente reduz o impacto de algumas delas, tornando a experiência menos engraçada do que o filme parece desejar.

O longa se destaca por sua personalidade autoral e pela disposição de levar sua premissa até consequências extremas. Mesmo quando exagera, há uma visão muito clara por trás de seu caos. Planchon e Guigue encontram na animação um meio particularmente eficaz para desmontar comportamentos sociais, relações familiares e discursos políticos

Blaise é uma experiência singular dentro da sátira política contemporânea. Seu protagonista pode ser deliberadamente sem graça, mas o mundo ao seu redor é tudo menos isso. Entre adolescentes tentando descobrir quem são, adultos incapazes de resolver os próprios problemas e revolucionários que parecem não saber exatamente pelo que estão lutando, o filme constrói uma comédia caótica sobre uma sociedade em que ninguém parece disposto a dizer aquilo que realmente pensa.

English review: 

A Revolutionary Satire About the Art of Pleasing at Any Cost

There is something particularly unsettling about Blaise, directed by Dimitri Planchon and Jean-Paul Guigue. The animated feature takes an apparently ordinary family and gradually turns it into the center of an increasingly absurd political satire, where the need for approval, fear of confrontation, and desire to belong push its characters toward wildly disproportionate consequences. The result is an awkward comedy that mines human behavior for fuel, escalating from social discomfort to violence, confusion, and outright absurdity.

At the center is Blaise (Timéo), a 16-year-old who is introverted, apathetic, and seemingly devoid of a personality of his own. He agrees with almost everything and rarely takes a stand, becoming little more than a vessel for the expectations of those around him. His parents are equally trapped in their own frustrations. Carole (Léa Drucker) has just landed an executive position at a major company, but her desperate need to be liked by her employees threatens to undermine her career. Jacques (Jacques Gamblin), unemployed and dependent on his mother, feels disrespected and struggles unsuccessfully to put his life back together. Even Blaise’s school counselor seems to recognize that the entire family is lost.

Things begin to spiral when Blaise meets Joséphine (Nina Blanc-Francard) at a Marxist gathering. Eager to impress her, he lies about his financial situation and claims to be poor. Joséphine is hiding something too: she is the daughter of the millionaire who, unbeknownst to either of them, has just become Carole’s boss. From these seemingly harmless lies, the film establishes its central mechanism. Joséphine adopts increasingly radical political positions to impress Blaise, while he simply agrees with her, continually taking her statements further rather than risk contradicting her. The desire to please gradually becomes a chain reaction that neither of them can control.

This escalating inability to communicate honestly provides Blaise with much of its comic energy. What could be resolved through a straightforward conversation instead turns into riots, extramarital affairs, and even acts of terrorism. The satire targets not only the revolutionary left that the film caricatures, but also the way its characters confuse conviction with performance, pushing political rhetoric to absurd extremes simply to gain someone else’s approval.

The animation heightens this sense of estrangement. From the opening minutes, the characters stand out for their unusual appearance, with faces that seem to have been cut from photographs and placed within a moving collage. The deliberately artificial aesthetic becomes an extension of the comedy, perfectly suited to characters who themselves seem disconnected from their social roles: apathetic, self-absorbed, and strangely unnatural. There is something disconcerting about watching figures that look almost real but never quite behave like real people, as though they were trapped somewhere between photography and illustration.

Although political satire is the film’s most prominent feature, Blaise also finds intriguing material in the awkwardness of adolescence and, by extension, the insecurities of adulthood. Blaise has no clear sense of who he is and tries to construct his identity through Joséphine’s perception of him, while his parents remain equally incapable of confronting their own frustrations. His father is deeply insecure and remarkably self-centered, using his son’s school counselor as an improvised therapist while avoiding virtually any subject that actually concerns his child. His mother, meanwhile, oscillates between the demands of her new job and the moral complications of managing her team, eventually taking up an affair with a colleague simply to avoid creating friction at work.

In this sense, Blaise’s lack of personality becomes more than a comic trait. It becomes the film’s central narrative device. Because he cannot maintain an opinion of his own and barely registers within his family’s emotional landscape, the absurdity surrounding him is free to escalate without limits.

The film’s greatest weakness is also the excess that gives it its identity. As the social commentary becomes increasingly extreme and every situation is pushed toward a more outrageous conclusion, the humor does not always keep pace with the ambition. What initially feels strange and intriguing can occasionally become an overly determined attempt to provoke through sheer eccentricity. The constant succession of absurd scenarios sometimes diminishes their individual impact, making the film less consistently funny than it seems to aspire to be.

Still, Blaise stands out for its strong authorial voice and its willingness to follow its premise wherever it leads. Even when the film goes too far, there is a clear vision behind its chaos. Planchon and Guigue make particularly effective use of animation as a tool for dismantling social behavior, family dynamics, and political rhetoric.

Blaise is an unusual entry in contemporary political satire. Its protagonist may be deliberately unremarkable, but the world around him is anything but. Between teenagers struggling to discover who they are, adults incapable of resolving their own problems, and revolutionaries who seem uncertain about what they are actually fighting for, the film constructs a chaotic comedy about a society in which nobody seems willing to say what they truly think.

This review is part of our coverage of the 2026 Fantasia International Film Festival.

Nota

Author

  • Jornalista por formação, editora e crítica de cinema carioca. Certificada em cinema pela Academia Internacional de Cinema, é apaixonada por filmes de terror e narrativas sobre serial killers. Entusiasta do cinema independente e de obras dirigidas por mulheres.

    View all posts

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *