Exercícios de Memória | 2016

Exercícios de Memória | 2016

De fato, a memória humana não é absolutamente confiável: não são raras as vezes em que, oportunamente, guardamos acontecimentos mais dolorosos e traumáticos a sete chaves, em lugares inacessíveis de nosso cosmos cerebral, ou, ainda, em que nos valemos de nossa capacidade de elevar a potência de acontecimentos que, afetivamente, nos significaram muito. Trata-se de uma forma de autoproteção — exercícios inconscientes que tornam o presente suportável, tamanha a imensidão de algumas dores ou sentimentos. 

A mente reconstitui ou tenta reconstituir aquilo que já passou. No entanto, nossas memórias estão, invariavelmente, também atreladas às memórias dos outros — nossos entes queridos, pessoas que integram nossas existências e nos fazem ser, cada qual com sua contribuição, um pouco do que somos. Quando falha a memória desse outro, quando não há elementos suficientes para completar e compor evocações, a busca por informações que as preencham é um exercício mental constante — justamente o exercício de memória proposto por Paz Encina, que vai possibilitar o preenchimento dessas lacunas através do cinema. 

Exercícios de Memória, documentário dirigido pela cineasta paraguaia em 2016, reconstitui a memória dos filhos de Agustín Goiburú Giménez, médico e político, líder do Movimento Popular Colorado (MOPOCO), opositor ao governo ditatorial de Alfredo Stroessner. Em 9 de fevereiro de 1977, Goiburú foi detido na Argentina por agentes do Estado paraguaio e levado ao Departamento de Investigações da Polícia em Assunção, onde foi submetido a toda sorte de torturas e desapareceu – ação que restou reconhecida como integrante da chamada “Operação Condor”. A família Goiburú nunca recebeu notícias da morte do Dr. Agustín, tampouco havia indícios de que tivesse sobrevivido. Somente em 2009 foram realizadas escavações lideradas pelo filho do político desaparecido, Rogelio, ocasião em que foram encontrados 15 corpos, suspeitando-se de que um deles poderia pertencer ao pai, o que jamais foi confirmado. 

É justamente o estado constante de limbo existencial da família Goiburú que se torna objeto de análise de Encina em Exercícios de Memória, fazendo de seu filme a reconstituição de um território mnésico negado pela vida – que brutalmente os lançou num não-lugar de incertezas -, para que alguma compreensão e algum alento pudessem surgir na forma de uma composição imagética e sonora bastante precisa. 

A diretora, de fato, estabelece um diálogo em atrito entre o que vemos e ouvimos, seja para representar esse não-lugar de uma família que mata e faz viver o ente querido desaparecido todos os dias, seja para nos desafiar na atividade de construção por ela proposta. Aquilo que ouvimos é a narração dos filhos de Goiburú, que tentam costurar os fios soltos de suas lembranças com o pai e conceber o que com ele ocorreu, além de resgatar, dolorosamente, o sofrimento de uma infância vivida como vítimas indiretas do regime militar, enquanto nos guiam nesta empreitada fílmica. Por outro lado, o que vemos quase nunca corresponde ao que ouvimos; a relação visual com a narrativa contada ou evocada não se estabelece de forma direta, de modo que fazemos o constante exercício de formular nossas próprias representações mentais diante desse aparente desalinho. E quais são essas imagens? O que enxergamos nessa memória alheia forjada que reconstruímos por nós mesmos? 

A reconstituição proposta por Exercícios de Memória não é de fatos – muito embora trate-se de um documentário sobre os horrores da ditadura paraguaia, somos privados de qualquer imagem de violência frontal. Isso torna o trabalho de Paz Encina ainda mais complexo, uma vez que ela buscará nas simbologias poéticas os recursos para nos aproximar de sua ideia narrativa e, ainda assim, provocar impacto e nos fazer sentir a dor constante dos familiares e da situação de tantas vítimas indiretas de ditaduras mundo afora. Imagens de arquivo, como fotos de investigações policiais, vão nos remeter mais diretamente ao regime – todo o restante será formado por símbolos e intimidades. 

O filme se inicia com um mergulho infantil num rio — um menino afunda, nada, mas parece não sair do lugar. Enquanto se movimenta, ouvimos sua narração, que faz conexões geracionais a respeito dos hábitos e da fé transmitidos de bisavô para avô, de avô para pai e de pai para o neto, que é ele. Veja-se que tomar conhecimento posterior sobre a suspensão abrupta da vida de Goiburú dá um significado melancólico a tal introdução, de modo que sabemos que essa convivência filial foi interrompida. 

O gradual relato da história das privações provocadas pela ditadura até chegar especificamente à figura de Goiburú é composto de vestígios daquilo que um dia já foi: com inspirações barrocas e pós-impressionistas, Encina se atenta às imagens de natureza morta e objetos de uma casa que parece abandonada, estagnada no passado. Uma goiaba aberta com sementes recorda uma boca sem vida e cheia de dentes, metáforas que dão o tom de morbidez presente no longa sem que haja qualquer necessidade do uso de violência explícita. 

A atmosfera de abandono do ambiente é reforçada não apenas pelas composições de natureza-morta, que carregam em si a própria dualidade entre o vivo e o inerte, mas pelo estágio de decomposição dos frutos, sobre os quais transitam formigas e insetos, figurando simultaneamente a passagem e a estagnação do tempo. Quando supomos que ali nada mais resta, a câmera de Paz Encina descobre uma mulher a bordar uma flor cujo amarelo vibrante se destaca da tonalidade melancólica ao redor: há, ainda, resistência e esperança nesse universo de dor. 

Por falar em esperança, Exercícios de Memória evoca, através da infância, os reflexos da vida adulta dos filhos de desaparecidos pela ditadura. Enquanto os adultos trazem uma narração de dor, as crianças que vemos em tela brincam de modo despretensioso mata adentro, num dos atritos imagético-sonoros criados pela diretora. Se essas crianças representam o que há de resquícios de uma infância roubada pelo medo, pela fuga, pela violência e pela incerteza, decerto, em que pese o tensionamento desolador, há também um alento que nasce da inocência desse período e da força de quem segue lutando apesar de tudo. 

Paz Encina propõe um exercício: a memória é narrada, é vista, é forjada, é reformulada. É olfativa, é sonora, é sensitiva – é um fluxo de pensamento de vozes que se sobrepõem. É raiz, é geração, é herança. A memória, ora perdida, ora inexistente, ora guardada, é salva pelo cinema não como substituta do armazenamento de vivências e experiências da vida, mas como instrumento de conforto e resolução para quem passou a vida buscando respostas nunca encontradas – para que, finalmente, o menino que mergulha e não sai do lugar seja capaz de seguir em frente. 

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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