À Espera | 2026
Formatos e orçamentos fílmicos diversos requerem tratamentos diferenciados. É inegável que o curta-metragem exige, por sua natureza, o condicionamento dos elementos cinematográficos ao tempo disponível. O pecado do excesso – quando o cineasta sobrecarrega a obra ao tratá-la como se fosse um longa ou ao saturá-la além de seus limites – é evidente para quem assiste. A necessidade de explicações demasiadas, a trilha sonora em momentos nos quais nem caberia e a inabilidade de usar a limitação em prol da arte são apenas alguns exemplos de equívocos frequentes. Trata-se de uma empolgação compreensível, mas que se opõe à capacidade de extrair o máximo do essencial e, assim, deixar a criatividade aflorar.
À Espera, curta dirigido por Gustavo Campos, exibido no 12º CineFest Votorantim, revela-se um bom exemplo de obra que administra com destreza os recursos ao alcance. Por meio da economia de linguagem, o diretor emprega apenas o vital, de forma certeira, para evocar exatamente as sensações pretendidas. Campos demonstra objetividade: sabe onde quer chegar e domina o que tem para alcançá-lo – uma mise en scène enxuta com câmera fixa, atuações engenhosas, uma direção de arte e fotografia sufocantes e um desenho de som tão simples quanto eficaz.
O diretor conta com Tonico Pereira e Susy Lopes, que vivem, respectivamente, o Sr. Durval e sua cuidadora. É domingo: enquanto assiste ao programa de Silvio Santos e fuma um cigarro atrás do outro, o idoso de saúde debilitada aguarda a ligação do filho. A cuidadora, por seu turno, finaliza a rotina apressadamente, transitando de um lado para o outro. Observamos todo esse movimento a partir de um ponto de vista estático, inerte, posicionados junto ao telefone cujo toque passamos a esperar ao lado do protagonista.
São 17 minutos angustiantes, acompanhados por um humor sutilmente irônico e desesperado. O curta nos imerge na impotência de testemunhar um idoso que se move com extrema dificuldade: cada vez que o telefone toca, precisa se levantar e caminhar a passos lentos, amparado pelo andador, apenas para ver o toque cessar assim que se aproxima. Este é o ciclo torturante ao qual somos submetidos ao lado de Durval.
Tonico Pereira é um ator fantástico e experiente o bastante para, ao assumir um cansaço quase resignado, nos cativar sem a necessidade de dizer muito. Ele não apenas desperta empatia por sua vulnerabilidade – quando fica sozinho após a partida da cuidadora, permanece apenas com o andador como apoio -, mas também incita certo julgamento por seu desleixo. Essa aproximação é tão intensa que passamos a torcer pelo sucesso do telefonema, compartilhando a frustração (e os palavrões) quando a ligação se perde.
É sobremaneira interessante como Gustavo Campos insere o programa de Silvio Santos nesses minutos dominicais. Sem que vejamos a televisão, presos em nosso ponto de vista observacional, testemunhamos Durval enfeitiçado pelas imagens enquanto captamos apenas o som da transmissão. Mesmo desprovidos da imagem da TV, ficamos igualmente hipnotizados pelo apresentador, ao ponto de nos distrairmos momentaneamente, desviando o foco da espera do protagonista para acompanhar o áudio do programa que nos é, invariavelmente, tão conhecido.
Ao final, À Espera ratifica a premissa de que a limitação, quando bem conduzida, não é um obstáculo, mas uma verdadeira oportunidade criativa. Gustavo Campos constrói uma experiência imersiva e magnética ao fazer da restrição e da inércia o seu motor criativo: veja-se que o cotidiano entediante e angustiante de um domingo transforma-se em cinema num piscar de olhos.
