CineFest Votorantim | Curtas do luto ao à luta

CineFest Votorantim | Curtas do luto ao à luta

Parece óbvio, mas é necessário dizer: o cinema brasileiro é composto, majoritariamente, por curtas-metragens. Esse não é, no entanto, o cinema que chega às nossas casas e, menos ainda, às telas grandes. Há uma diversidade e uma variedade infinita de realizadores desse formato que dependem de mostras e festivais de cinema para existir – e um filme só completa sua vida quando é visto. 

Festivais como o 12º CineFest Votorantim constituem fundamentais fontes de vida e prestígio dessa arte feita, por vezes, sem qualquer incentivo financeiro – gosto de chamá-los de cinema feito na marra, cinema de guerrilha, de resistência. Em seus primeiros dias, o festival exibiu curtas que dialogam muito entre si porque, em sua maioria, clamam pela resistência de algo. Selecionamos aqui algumas obras cujas temáticas se conectam do luto à luta. 

Se você é do interior de São Paulo, ou mesmo da capital, a presente edição do CineFest Votorantim, que se iniciou no dia 30 de outubro, acontece até 07 de novembro de 2026. Aproveite!

Annica | dir. Arthur Rodrigues

O cinema feito nas universidades é, certamente, um cinema de luta – os recursos para realizá-lo, geralmente, são os disponíveis comunitariamente: faz-se o que é possível com os instrumentos que se tem em mãos. 

Essa fase, entretanto, é sobremaneira importante não só para o aprendizado ou a formação de um pensamento e de uma linha criativa e estilística, mas também para o exercício da criatividade como recurso bastante, que se sobreponha à escassez financeira – essa é, de fato, a grande sacada do formato do curta. Spike Lee realizou The Answer em 1980 na universidade. O filme conta a história de um homem negro contratado para dirigir um remake de O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith – veja-se que, aqui, ele já se consolidava como um diretor absolutamente questionador e engajado no cinema antirracista. 

Annica é a obra universitária de Arthur Rodrigues que demonstra uma tentativa de compreensão do diretor sobre seu lugar na exploração do cinema experimental. De forma imageticamente poética (ainda que um pouco caótica) aborda o luto como o pesadelo de um irmão pequeno demais para experimentar de perto a morte, que vive o luto do mais velho e o procura através de elementos oníricos. 

Rodrigues revela um domínio interessante de impacto imagético. Ainda que seu filme seja um caminho em busca de uma unidade estilística, consegue construir uma atmosfera de devaneio incômodo que expressa bem a sensação de perda e desorientação do menino. Faz isso, principalmente, através da fotografia e do uso de símbolos provocativos, como as máscaras usadas pelo irmão morto ou a imagem de um personagem tocando violino entre cavalos numa paisagem rural. 

Mesmo no cinema experimental, com o qual ele flerta, há de se preservar certa clareza de ideias, ainda que essa clareza seja, de fato, a incompreensão de tudo. Embora falte a Annica essa precisão, Rodrigues transparece, através dessa abordagem do luto, uma criatividade que pulsa e vibra em amor ao cinema, e sentir esse afeto já demonstra um passo que muitos são incapazes de dar ao longo de toda uma carreira.

Nhô Juca: A Rota do Trem Caipira – O Comunicador do Povo | dir. Celso Fontão

Do luto à luta. Nhô Juca: A Rota do Trem Caipira – O Comunicador do Povo, dirigido pelo jornalista Celso Fontão, é o meio-termo entre esses dois pólos que se conectam: parte do luto para expressar a resistência através dos arquivos que guardam a memória e a existência de seu homenageado, e da luta pela arte de ser caipira profissional. 

Conhecido por ter sido um grande comunicador do interior paulista e um apresentador de rádio famoso em Sorocaba, Nhô Juca era também ator, humorista e sambista, tendo incorporado a persona do caipira como personagem à frente dos microfones e da música sertaneja. 

Politicamente incorreto e dotado de um humor sem filtros, bem ao estilo Mazzaropi, Nhô Juca faleceu em 1981, aos 50 anos. Se a sua história antes permanecia restrita aos ouvintes de seu tempo, agora, com Nhô Juca: A Rota do Trem Caipira — O Comunicador do Povo, a figura do artista ressuscita do esquecimento. 

O curta aproveita seu formato para criar uma imagem, percebe-se, mais polida de Nhô Juca. O contato com a personalidade do comunicador, contudo, revela que haveria ali material para uma abordagem moral e politicamente mais dúbia, e por essa razão, um tanto interessante. Ainda assim, o valor da homenagem para resgatar a figura do artista, alinhado ao rigoroso trabalho de pesquisa de arquivo realizado pela Universidade de Sorocaba, merece todo o reconhecimento. 

Eu Só Queria Comer | dir. Elder Fraga

Por fim, a luta propriamente dita. Elder Fraga a personifica na figura de Ali Napóe, ator natural do Togo a quem o diretor conhece na Alemanha e que resolve, informalmente, em uma conversa entre os dois, relatar suas experiências com o racismo no país europeu. Dessa conexão, desdobrada de um projeto anterior realizado pela dupla, surge a ideia de realizar Eu Só Queria Comer. 

Eu Só Queria Comer é constituído por um monólogo narrado e por uma câmera muito próxima do rosto do ator, que se alterna em closes mais pontuais e fechados para ressaltar a força da palavra falada. O corpo negro retinto é colocado em contraste com um fundo branco luminoso, criando um enquadramento claustrofóbico que prende a atenção. 

Nessa estrutura, Ali Napóe relata as ocasiões em que teve o atendimento recusado em restaurantes. Ele via, enquanto aguardava a vez de fazer o pedido e sanar a fome, os funcionários locais se dirigirem rapidamente aos clientes brancos, deixando-o sempre à espera. 

Eu Só Queria Comer é bastante claro em sua mensagem. Não restam dúvidas a respeito da gravidade do que nos é narrado e que nos embrulha o estômago. A presença e a atuação de Ali Napóe já abrigam, por si sós, uma força imagética suficiente para nos impactar. Fraga, entretanto, ao sentir a necessidade de expor, em letras garrafais um tanto deselegantes, as diferenças existentes entre o racismo na Alemanha e no Brasil, parece duvidar de seu próprio filme ou, ainda, alimentar uma curiosidade pessoal sobre o tema – o que acaba por enfraquecer suas reflexões cinematográficas antirracistas.

Author

  • Natália Bocanera

    Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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