Matapanki | 2026

Matapanki | 2026

Uma sátira punk para tempos autoritários 

Há algo essencialmente punk em Matapanki: a recusa em pedir licença. Longa de estreia de Diego “Mapache” Fuentes, realizado como trabalho de conclusão do curso de Cinema da Universidad del Desarrollo, o filme parte de uma produção de baixo orçamento e de uma premissa deliberadamente absurda para construir uma sátira política que mira a extrema direita, o culto aos super-heróis, o imperialismo norte-americano e a própria ideia de poder. O resultado é um filme underground em espírito e forma, irreverente e assumidamente revolucionário em sua maneira de olhar para o mundo.

A história acompanha Ricardo, um jovem punk dos arredores de Santiago, mais especificamente de Quilicura. Quando não está bebendo e curtindo com os amigos, ele cuida da avó, que sofre de fibromialgia. Sua vida muda quando ingere uma misteriosa bebida alcoólica que lhe concede superpoderes. De repente, Ricardo precisa decidir entre continuar levando uma existência relativamente comum ou assumir a posição de uma espécie de super-herói. A escolha, no entanto, rapidamente deixa de estar sob seu controle. Um erro brutal envolvendo o presidente do Chile desencadeia um conflito internacional e transforma o jovem em peça central de uma crise que cresce muito além de sua própria dimensão.

A premissa já anuncia o tipo de humor que conduz o filme. Matapanki não está interessado em construir um super-herói convencional, muito menos em tratar seus poderes com solenidade. Ricardo é antes um anti-herói punk, deslocado dos códigos tradicionais do gênero e muito mais próximo da precariedade cotidiana do que da fantasia de poder que normalmente sustenta essas narrativas. Seus poderes não o tornam excepcional no sentido tradicional. Pelo contrário, tornam ainda mais caótica uma vida que já era atravessada por responsabilidades, limitações econômicas e uma realidade pouco heroica.

Ao se apropriar do gênero de super-heróis, Fuentes desloca sua fantasia de poder para um personagem que parece ter vindo do lugar errado para protagonizar esse tipo de história. Ricardo não é um bilionário, um soldado treinado ou alguém escolhido por alguma instituição. É um jovem rebelde da periferia, alguém que subitamente passa a carregar um poder que não sabe muito bem como utilizar. A sátira nasce desse descompasso entre a grandiosidade da situação e a absoluta inadequação de seu protagonista.

O humor é fundamental para que essa crítica funcione. Matapanki encontra graça justamente ao não tratar seus próprios acontecimentos como algo grandioso. Os diálogos têm uma espontaneidade que aproxima os personagens do espectador, enquanto os amigos de Ricardo e as situações absurdas ajudam a construir uma atmosfera em que a comédia parece surgir naturalmente da precariedade. O filme sabe brincar com suas próprias limitações e transforma o baixo orçamento em parte de sua identidade, em vez de tentar escondê-lo. A fotografia é intensamente granulada, super contrastada e em um preto e branco gritante.

Essa característica é especialmente importante porque Matapanki nasceu como uma produção universitária, realizada por estudantes, e conseguiu ultrapassar as limitações desse contexto sem abandonar seu caráter artesanal, chegando a festivais de cinema fora do âmbito acadêmico. A criatividade aparece na maneira como os realizadores encontram soluções dentro daquilo que têm à disposição. Há uma energia de cinema feito na urgência, com a sensação de que a equipe simplesmente decidiu fazer o filme que queria fazer.

Essa liberdade também explica o caráter assumidamente político da obra. A crítica à extrema direita aparece articulada ao absurdo, enquanto o gênero de super-heróis é utilizado para satirizar a fantasia de que indivíduos excepcionais seriam capazes de resolver problemas estruturais. Mas é na representação dos Estados Unidos que o filme assume sua postura mais debochada. A presença norte-americana no conflito internacional é tratada sem qualquer reverência, transformando o imaginário imperialista em objeto de escárnio. A provocação não está interessada em construir uma crítica diplomática sofisticada, mas em fazer aquilo que o espírito anárquico da obra parece exigir: rir do poder, especialmente quando ele se apresenta como incontestável.

Existe algo particularmente divertido nessa inversão. O jovem punk que deveria ser apenas mais uma figura marginal acaba colocado no centro de uma crise internacional, enquanto as estruturas de poder que deveriam controlar a situação parecem cada vez mais ridículas. O filme desmonta, pela comédia, a distância entre o indivíduo anônimo e os grandes mecanismos políticos, torna um diálogo improvável, possível. Ricardo não precisa conquistar o poder para interferir nele. Basta uma sucessão de decisões erradas, álcool e circunstâncias absurdas.

Naturalmente, Matapanki não é um filme sem problemas. A irregularidade aparece principalmente quando a narrativa abandona a comédia e tenta alcançar momentos de maior peso dramático. Algumas dessas passagens não possuem a mesma espontaneidade das cenas humorísticas, e a estrutura pode parecer excessivamente dependente do estado de espírito proposto pelo filme. É uma obra que exige certa disposição do espectador para entrar em sua lógica anárquica, porque seu humor, sua estética lo-fi e seu modo de contar a história não procuram estabelecer uma relação convencional com o público.

Mas talvez seja justamente essa falta de compromisso com a convencionalidade que torne a obra tão interessante. O filme não está preocupado em demonstrar que uma produção estudantil pode competir com o cinema profissional, sua força está em outra direção: fazer muito com pouco, assumir a precariedade, encontrar uma voz própria e transformar limitações em linguagem.

O longa foi premiado no Festival Internacional de Cinema de Valdivia, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme Chileno e Melhor Longa-Metragem na categoria Juvenil, além de fazer parte da seleção oficial do Fantasia Film Festival, no Canadá. 

No fundo, Matapanki é um filme irregular, por vezes excessivo e conscientemente tosco, mas também cheio de uma energia única que dificilmente poderia nascer de uma produção preocupada demais em parecer profissional. Há algo libertador em seu modo de fazer cinema. O longa parece dizer que, para falar sobre poder, talvez seja preciso primeiro rir dele. E, para fazer um filme sobre revolução, talvez seja suficiente começar sem pedir autorização.

  • confira a lista de destaques dessa edição do festival do rio aqui

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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