Elza | 2026
É paradoxal que Elza Soares, “a mulher do fim do mundo”, já não esteja fisicamente entre nós no momento em que parecemos nos aproximar de alguma espécie de apocalipse. Se esse fim é político, religioso, social, democrático ou ainda, ecológico, não sabemos – vivemos tempos de instabilidade e insegurança. Fato é que o paradoxo se evidencia quando Elza, mesmo ausente, se faz absolutamente presente e fundamental para nos fortalecer e revigorar através de sua arte, sua voz inconfundível, seu ritmo e sua música. Elza, novo documentário de Eryk Rocha que conquistou o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem Documentário no Festival do Rio 2026, e que será exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é uma nova manifestação da materialização artística da cantora, que parece dar-nos a mão e conduzir-nos, renovados, através dessa obscuridade política generalizada.
Esse aspecto, quiçá, “beatificante” de Elza Soares, que pode por nós ser sentido e experimentado em Elza, é fruto da permissão que o diretor concede à artista para que ela mesma conduza sua jornada, seja em narração, seja em perspectiva. Nosso ponto de vista nessa história é o da própria cantora. É ela quem nos conta, de forma linear, sua trajetória: da infância humilde e da viuvez precoce aos 21 anos (já mãe de quatro filhos) até a consolidação de uma carreira de 70 anos como a grande intérprete e compositora que foi, cumprindo o desejo de cantar até o fim e oferecendo sua versão de tudo o que viveu a partir dos sentimentos genuínos que a moveram ao longo de seus 91 anos.
Eryk Rocha, munido da ótica íntima e do autoconceito de Soares, propõe um equilíbrio entre essa apropriação de identidade e a imagem pública mítica da artista. O confronto entre a autopercepção e a lenda da música perante os olhos do mundo dá-se, inclusive, de forma natural por meio da presença e da postura da própria cantora diante das câmeras – enquanto a voz que narra é a Elza humana, a imagem revela, na maior parte do tempo, a Elza lendária.
É fácil imaginar a infinidade de possibilidades abertas ao diretor na construção do documentário, visto que o acervo disponível sobre a cantora passa longe de ser parco. O foco na primeira pessoa, no entanto, orienta o material de arquivo para que ele se torne não apenas a biografia de uma das maiores artistas do Brasil, mas, sobretudo, uma história de amor, resiliência, luta e fé. O grande triunfo da obra reside em aproximar-se da vida de tantas brasileiras – em especial, das mulheres negras país afora. Em que pese estarmos falando de Elza Soares, ela própria se coloca do modo como se enxerga: uma mulher comum que viveu a extrema pobreza, enfrentou dores inimagináveis, guardou um dom adormecido que despertou na vida adulta como um estrondo, apaixonou-se intensamente, aprendeu a conviver com o luto, sobreviveu e jamais deixou de lutar. Foi diva absoluta, fato; mas foi, antes de tudo, uma mulher preta e pobre.
A grandiosidade de Soares como artista a coloca, inevitavelmente, num patamar superior de espiritualidade e representatividade, transformando-a em símbolo nacional. Entretanto, Eryk Rocha não permite que essa figura pertinentemente endeusada se distancie de seu povo – faz, em verdade, o movimento inverso. Em Elza, ela é uma deusa próxima e humana. Não à toa, o diretor opta por nos presentear, por uma única vez, com a cena doméstica e descontraída de Elza em sua casa, cercada pela família e pelos netos, comemorando um aniversário e observando seus entes queridos com profundo afeto. Essa mulher, guia de Rocha e condutora de sua própria trajetória em meio às intempéries da vida, enfrentou as maiores dores do mundo e se volta para nós com uma lição: o fim do mundo pode ser superado.
