A Margem do Rio | 2026

A Margem do Rio | 2026

Entre o desejo e a repressão, os territórios onde a vida queer resiste 

No Recife de A Margem do Rio, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, os manguezais parecem guardar aquilo que a cidade prefere manter escondido. Entre águas turvas, encontros furtivos e a ameaça constante da violência, o filme encontra uma geografia propícia para falar de desejo, repressão e sobrevivência. Esse “espaço marginal” não é apenas o lugar para onde são empurrados os corpos dissidentes, mas também o espaço onde outras formas de intimidade podem existir, ainda que sob o risco permanente de serem descobertas.

Izaquiel (Caíque Copque), jovem negro e gay que trabalha como auxiliar de serviços gerais, divide seus dias entre a limpeza de uma igreja evangélica pentecostal e as incursões noturnas pelo mangue. Nesse deslocamento entre atmosferas tão distintas, o personagem parece condenado a uma existência dividida: de um lado, o discurso da pureza, a vigilância moral e a autoridade de um pastor com conexões políticas; de outro, a possibilidade de experimentar o próprio desejo longe dos olhos que o condenam. 

Quando conhece Jeremias (Ítalo Martins), um pescador de presença enigmática e magnética, o segredo começa a adquirir outra dimensão. Já não se trata apenas de buscar encontros, mas de descobrir o que pode nascer quando a intimidade deixa de ser inteiramente clandestina.

A repressão religiosa não aparece como uma abstração distante da vida de Izaquiel, ela vem enraizada na sua criação por pai e mãe conservadores e devotos. Se infiltra na rotina, na relação com o próprio corpo e na dificuldade de conciliar desejo e pertencimento. A força do conflito está justamente nessa proximidade entre o discurso religioso e a experiência cotidiana, sobretudo quando a autoridade espiritual se mistura ao poder político. A igreja que Izaquiel limpa torna-se, assim, um espaço carregado de iônicas contradições: enquanto ele remove os dejetos deixados pelos frequentadores, onde um desinfetante parece remover toda a sujeira de uma privada imunda; precisa lidar com as marcas de uma violência moral que o corrói por dentro e não desaparece tão facilmente.

A experiência pessoal de Matheus Farias com a igreja evangélica atravessa um projeto desenvolvido ao longo de quase sete anos, em parceria com Enock Carvalho, seu companheiro de vida e de criação. Essa dimensão autobiográfica não reduz A Margem do Rio a um acerto de contas com o passado, mas ajuda a compreender a intimidade com que os diretores abordam a relação entre fé, culpa e sexualidade. O interesse não está em construir uma oposição simples entre religião e liberdade, mas em observar como determinados discursos transformam o desejo em motivo de vergonha e fazem da própria existência uma espécie de transgressão.

Essa tensão encontra um contraponto na família que Izaquiel escolheu, formada por mulheres trans. A presença de artistas gays e de pessoas trans no elenco reforça a ligação entre os intérpretes e o universo retratado, sem que a representatividade precise funcionar como argumento à parte. Renna Costa, Artia e Ísis Broken, que dividiram o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio, integram esse conjunto de presenças que ampliam as possibilidades de afeto e reconhecimento em uma narrativa marcada pela exclusão familiar e religiosa. Em vez de idealizar esses vínculos, o filme os coloca em contraste com as estruturas que negam a Izaquiel um lugar seguro no mundo.

O mangue, por sua vez, nunca é apenas refúgio. A paisagem recifense, atravessada por rios, lama e vegetação, confere ao filme uma atmosfera em que o real parece sempre prestes a ceder espaço ao mito. Há algo instável nesse território, como se suas águas guardassem tanto a promessa de liberdade quanto a possibilidade de desaparecimento. Quando uma ameaça externa leva a violência para esse espaço, a narrativa se aproxima do suspense e transforma a paisagem em parte ativa do conflito. O que antes parecia protegido pela escuridão passa a estar exposto, e a intimidade dos personagens se vê confrontada por forças fora de seu controle.

Essa relação entre desejo e perigo aproxima bastante A Margem do Rio de Um Estranho no Lago (2013), de Alain Guiraudie. Em ambos, a paisagem natural se converte em espaço de encontros entre homens gays, onde a liberdade sexual convive com a imprevisibilidade da violência. O lago francês e o manguezal recifense abrigam formas de intimidade que escapam às convenções sociais, mas estão longe de constituir refúgios inteiramente seguros. A ameaça não anula o desejo, assim como o perigo não impede que os personagens continuem procurando uns aos outros.

As diferenças, contudo, são reveladoras. Guiraudie constrói o suspense a partir da opacidade dos personagens e da inquietante proximidade entre atração e ameaça, sem converter a sexualidade em justificativa moral para a violência. No longa, o desejo também é afetado por forças externas, mas o conflito ganha contornos mais explicitamente sociais: a repressão religiosa, a homofobia e as relações entre fé e poder delimitam os espaços em que Izaquiel pode existir. Se, no filme francês, o lago parece suspender temporariamente as normas do mundo exterior, no longa brasileiro o mangue oferece uma possibilidade de fuga que a violência insiste em ameaçar. Nos dois casos, a natureza deixa de ser mero cenário para participar da tensão narrativa, mas, enquanto Guiraudie faz da ambiguidade uma fonte permanente de inquietação, Farias e Carvalho aproximam o suspense de uma disputa política pelo direito ao desejo.

É nessa passagem entre romance, tensão urbana e imaginário mítico que A Margem do Rio encontra sua identidade, embora a mudança de registro também provoque algumas oscilações. A dimensão política da história nem sempre se integra de maneira orgânica à progressão do suspense, mas a combinação de gêneros impede que o filme permaneça restrito ao drama de um indivíduo. A violência que alcança o manguezal rompe a aparente separação entre os espaços e expõe a precariedade de qualquer refúgio quando as estruturas de poder continuam operando para além de seus limites.

Premiado com o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno 2026, o longa chegou ao Festival do Rio como um dos destaques da Première Brasil, conquistando cinco distinções: Melhor Longa-Metragem de Ficção, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Fotografia, Melhor Som e o Prêmio Felix de Melhor Filme Brasileiro. Este último reconhecimento dialoga diretamente com uma obra que coloca personagens LGBTQIA+ no centro da narrativa, sem separar suas experiências afetivas das forças sociais que as atravessam.

Em A Margem do Rio, a fronteira entre os espaços não determina apenas onde os personagens podem estar, mas também quais partes de si precisam esconder para permanecerem vivos e aceitos. 

  • confira a lista de destaques dessa edição do festival do rio aqui

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  • Jornalista, editora e crítica de cinema. Pesquisa e escreve sobre cinema para publicações online, além de colaborar com artigos e ensaios para catálogos e publicações impressas. Dedica especial interesse ao cinema feito por mulheres e às diferentes vertentes do cinema de gênero.

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