A Casa do Vento | 2026

A Casa do Vento | 2026

Se na maioria dos países existe uma preocupação com a contração e o envelhecimento populacional, em países pertencentes, principalmente, à África Subsaariana, a tendência é oposta. A Nigéria, por exemplo, pode se tornar, num futuro próximo, o segundo país mais populoso do mundo, liderando, na região, em velocidade de expansão demográfica. Isso significa, portanto, que nessa área continental, há um número volumoso de jovens, e, consequentemente, mais mão-de-obra disponível e um equilíbrio que proporciona, ou ao menos, deveria proporcionar, maior crescimento financeiro – o que leva, automaticamente, a outros crescimentos.

Entretanto, o que se nota em muitas dessas nações é o esvaziamento da população jovem – não pelo declínio da natalidade e da fertilidade, mas em razão de movimentos migratórios em direção ao Ocidente. A Casa do Vento, dirigido por Auguste Bernard Kouemo Yanghu, é um retrato agridoce dessa realidade, especificamente no Camarões, através da personificação coletiva desse problema na individualidade de Josette (Josette Kwanya), uma idosa de 80 anos que vive na capital, Yaoundé, sozinha, em uma grande casa que já abrigou seus filhos e familiares. Todos eles deixaram a terra natal em prol de outras possibilidades e oportunidades, principalmente na Europa.

Muito habilidosa em cuidar de si mesma e alcançar seus objetivos, Josette é uma figura fascinante – seja a personagem, seja a atriz. Desejosa da presença dos filhos, com os quais interage por videochamadas, ela tenta persuadir e incentivar seus retornos com a construção de casas para eles. Não que seja privilegiada para tanto, pois ela o faz com esforços e desdobramentos tamanhos que a comprometem financeiramente. A resposta da protagonista a esses dilemas é sempre a resiliência e autoconfiança de que dará, de uma forma ou de outra, um jeito para tudo.

Seus objetivos, entretanto, saem de rota com o vínculo que ela acaba criando com a jovem Sarah (Moudjeu Pouadeu), uma trabalhadora de sua vizinhança com quem troca alguns favores, sendo um deles um pedido para que Josette finja ser sua mãe para o namorado europeu – e para que a história seja factível, ela também pede para morar com a idosa temporariamente. 

A casa, antes esvaziada,  ganha calor com a relação de confiança e afeto que vai se estabelecendo entre elas. Se fica, a princípio, a impressão de que Sarah será substituta dos filhos ausentes, ainda que ela represente esse preenchimento de espaço, esse não será um relacionamento utópico. Assim, a dubiedade moral de Sarah e a implacabilidade autossuficiente de Josette criarão atravessamentos que impedem que o diretor caia na tentação do clichê.

Kouemo Yanghu trabalha planos de contemplação humana bastante expressivos da predominância geracional da capital, e que servem, também, para estabelecer o contraste entre jovens e idosos. A Casa do Vento se inicia, inclusive, com uma sequência de planos que trazem uma pluralidade de idosos, sentados, ociosos ou realizando seus afazeres manuais enquanto a câmera os observa, ficando evidente, com tais retratos – e, de fato, parecem fotografias por sua imobilidade – que há ali um estudo de sociedade em ação.

Em sendo considerado, assim, A Casa do Vento, um estudo de sociedade que se dá por meio de uma protagonista que, muito embora bem resolvida, anseia estar com seus filhos, a família e suas diversas composições também serão objetos de análise do diretor naquele contexto, seja pelos desejos de Josette, seja pela diferença das culturas africanas e ocidentais com relação às entidades familiares.

A perda da população jovem para o Ocidente implica, invariavelmente, a perda gradativa da identidade de um povo. Kouemo Yanghu é sofisticado ao implantar a demonstração do processo de ocidentalização de forma natural na narrativa. É o que se verifica, por exemplo, quando a protagonista precisa recorrer à Associação de Mulheres Carentes, da qual ela faz parte e onde se debate coletivamente as melhores medidas para o grupo, para negociação de um empréstimo realizado via leilão. Ela acusa: “antes, havia solidariedade. Agora, só pensam em dinheiro”. A descaracterização dos costumes e culturas é gradativa e quase imperceptível – olhos atentos com os de Josette, entretanto, não as deixarão passar despercebidas. 

Através de Josette, sua solitude e suas casas – despovoadas, ao vento – A Casa do Vento incorpora um país que sofre do mesmo escoamento, e teme, com razão, a ocidentalização como nova forma de colonialismo. Em que pese a atmosfera melancólica predominante, Josette é adorável demais em sua praticidade, sua ausência de filtro, sua honestidade e sua capacidade de seguir acreditando, trazendo um equilíbrio entre tristeza e resistência que muito a representa. 

O filme faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, além de ter sido Vencedor do prêmio de melhor filme de estreia e do Prêmio Especial do Júri da seção Horizontes no Festival de Veneza. 

Nota:

★★★★★

Author

  • Natália Bocanera

    Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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