Pequenas Tragédias | 2026
Em Pequenas Tragédias, quando Daniel Nolasco revela que a única pessoa heterossexual a se preocupar genuinamente em ajudá-lo foi a gerente do supermercado onde trabalhava antes do cinema, o diretor sintetiza uma amarga constatação: o apoio não veio “dos amigos do cinema, muito preocupados consigo mesmos e sensíveis com o mundo”. Não emergiu, portanto, da militância nem daqueles que se expressam artisticamente como defensores das minorias; veio, em vez disso, de uma conexão humana e cotidiana, alheia ao discurso político.
Essa é, de fato, a grande frustração político-progressista atual, sobremaneira na ala intelectual do movimento: muito se diz, pouco se faz. Há um estado de inércia para a efetiva mudança que é engolido pela opressão, a qual não tem medo de se movimentar. Nolasco debruça-se sobre a própria trajetória para encenar, pela via da tragicomédia, as intempéries da existência homossexual nos tantos rincões conservadores do Brasil, onde se encurralam violentamente minorias que buscam, no seio da comunidade e com o escasso apoio fora dela, afirmar-se e resistir. O instrumento de combate é o próprio fazer cinematográfico, aqui, autobiográfico, de denúncia e festivamente gay.
Através de um equilíbrio certeiro de contradições é que Pequenas Tragédias edifica uma estética queer performática, erótica e afirmativa. O dispositivo serve para encenar as múltiplas tragédias pessoais que atravessaram a trajetória do cineasta e de seus pares, os homens homossexuais da cidade de Catalão, no interior de Goiás . Enquanto a narração autobiográfica e melancólica de Geovaldo Souza, que representa Nolasco como narrador, avisa que o que vamos assistir não é uma história feliz, a tela exibe a figura de um fisiculturista seminu, posicionado à frente de um fundo vermelho vibrante, realizando poses e insinuações eróticas ao espectador – sendo esse o lugar encontrado pelo diretor para inserir o corpo homossexual no centro de uma discussão política sofisticada.
Uma pessoa, inevitavelmente, carrega em si sua origem; portanto, a história do diretor e suas pequenas tragédias cruzam-se com a história e as máculas estruturais de Catalão, cidade goiana de aproximadamente 114 mil habitantes – grande o suficiente para que nem todos se conheçam, mas pequena o bastante para que atmosferas de burburinho se formem com facilidade. A existência homossexual no município foi cercada pela cultura conservadora local, caricaturada pelo diretor, principalmente, no que se refere à hipocrisia da formação dos chamados “cidadãos de bem”, que ele ironiza com agudeza e humor.
Daniel Nolasco, em 2011, foi o primeiro de seus amigos a deixar a cidade para estudar cinema no Rio de Janeiro. Seus pares que ali permaneceram, em sua maioria, morreram – não necessariamente por violências diretas, mas a profundidade desse cerco reverbera de formas outras absolutamente irreversíveis. Portanto, não há meios de se dissociar a história contada da história da cidade; tanto que, em dado momento, a narrativa passa a ser menos sobre o diretor e mais sobre a cidade e suas marcas na comunidade queer.
Pequenas Tragédias não é um documentário, tampouco uma ficção propriamente. É justamente essa hibridez não normativa da forma, desobediente a protocolos e senhora de sua própria linguagem, que encarna o que há de mais genuíno na arte enquanto gesto político. Entretanto, Nolasco o faz de forma puramente artística, encontrando na intimidade de sua memória, no recorte geográfico de sua origem e na criatividade do cinema erótico queer bem-humorado uma experiência completa de cinema – que nos leva do riso às lágrimas, do tesão à tensão, do inconformismo à comoção.
O filme, cuja estrutura narrativa é composta de prólogo, cinco capítulos, entreato e epílogo, decerto nos engana e fricciona nossos sentimentos. Ao passo que nos alerta a respeito de sua tragicidade, não se permite limitar a ela. Enquanto representa um personagem heterossexual ou mesmo absolutamente homofóbico e violento, o faz caracterizando-o através de atores gays muito atraentes, seminus, com figurinos apertados e sempre dotados de algum erotismo. Tomar as rédeas da própria história significa, aqui, para o diretor, reconfigurar esses homens à imagem daquilo que eles mais temem encarnar: desarmando o gay panic, ironizando-os sem suavizar a denúncia e conferindo-lhes beleza e sensualidade puramente para o nosso deleite visual.
Há um caráter teatral em Pequenas Tragédias que não manifesta-se apenas nas atuações, que rompem a quarta parede em interlocução direta com o espectador, sobretudo na encarnação de Nolasco por Guilherme Théo, mas igualmente em sua espacialidade. As memórias sobre Catalão convertem-se em cenários improvisados, quando não ocupam o próprio palco cênico, de estúdio fechado, onde testemunhamos as exibições eróticas a cada virada da narrativa.
A violência inaugural sofrida na casa dos tios, ao assistirem à série estadunidense Barrados no Baile (Beverly Hills), encena-se em uma “sala” montada no meio de uma estrada de terra. Ali, a família surge acomodada num sofá, recebendo no rosto a poeira erguida pela ventania que movimenta a vegetação, até a câmera avançar sobre o televisor a ponto de a própria obra se tornar, temporariamente, no seriado em questão.
A dimensão geográfica impõe-se de modo inventivo numa reconstituição lúdica de memórias, sobretudo ao contornar a inviabilidade de filmar nos locais originais da juventude do cineasta. Diante da recusa do supermercado em autorizar a gravação em suas dependências, Nolasco reconstitui o estabelecimento no piso de uma quadra poliesportiva pública e abandonada em Catalão, batizando a empresa, sem qualquer pudor, de “Super Censura”.
A estrutura capitular de Pequenas Tragédias, que organiza os três atos de seu roteiro, traça um movimento pendular, que parte do relato íntimo, expande-se para o mapeamento social e político de Catalão e retorna, por fim, ao núcleo das tragédias afetivas. O primeiro e o segundo capítulos denominam-se Minha pacata vida em Catalão e Catalão, viver aqui é bom demais. O terceiro capítulo, Um cidadão comum, é seguido por um entreato: Como vivem os homossexuais das cidades do interior.
O quarto capítulo abre portas para a assunção do drama com O sorriso de Monalisa, quando o humor abre espaço para a homenagem à travesti da cidade que dá nome ao bloco, numa belíssima e tocante reverência — Monalisa, interpretada por Aivan, veste-se, como devota, de Iemanjá, com o vestido no tom em que ela gostaria de ter sido sepultada, para cantar para nós uma dolorosa e linda canção: o filme confere a dignidade que lhe foi negada em vida.
O quinto capítulo, por fim, chama-se A beleza de Samuel, e reconduz a narrativa ao círculo íntimo do cineasta. Samuel era seu amigo pessoal muito próximo, falecido em 2012 com pouco mais de 30 anos – o próprio personagem, interpretado por Lucas Drummond, já anuncia sua morte quando o conhecemos. Ele se consolida como o símbolo da vítima silenciosa da violência estrutural de Catalão, aquela que destrói a subjetividade a ponto de tornar a existência insustentável. Como anuncia a locução de Geovaldo Souza, Catalão não respeita certos direitos, e a morte precoce de Samuel mostra-se a prova mais amarga disso. É bonito como Daniel Nolasco faz de seu filme, sem desequilibrar-se da tragicomédia, um processo de elaboração e cura diante da memória do amigo que não conseguiu escapar a tempo da engrenagem que o asfixiou.
É impossível não pensar em Pequenas Tragédias como afirmativo de existências e corpos queer sem recordar de Parque de Diversões, de Ricardo Alves Jr, que também encontra na performance e no erotismo um instrumento de luta e imposição daquilo que, historicamente, foi negado aos cinemas feitos por minorias. Daniel Nolasco compreende que a exaltação do desejo, do riso e da beleza não suaviza a denúncia do horror – ao contrário, constitui sua resposta mais altiva. Reclamar o direito de desejar e de existir em sua plenitude, diante da barbárie cotidiana, revela-se a verdadeira e mais radiante vitória da obra.
