Ana, en Passant | 2026
Uma cartografia lúdica sobre negritude, afeto e memória.
A construção da identidade também passa pelo reconhecimento das histórias que vieram antes de nós. Para quem cresce distante de parte de suas origens familiares e culturais, descobrir de onde se vem pode significar mais do que recuperar lembranças ou conhecer lugares: é encontrar referências capazes de dar sentido à própria existência. Em Ana, en Passant, primeiro longa-metragem da cineasta e pesquisadora mineira Fernanda Salgado, essa busca ganha contornos de uma jornada íntima e ancestral.
Após a morte da avó, Ana, uma jovem negra franco-brasileira nascida e criada em Paris, perde a principal ligação com sua história familiar. Órfã desde a infância, ela havia sido criada pela avó, e sua ausência agora a deixa diante de uma identidade que parece incompleta. Uma chave e um endereço encontrados entre os pertences da falecida a conduzem até Belo Horizonte, onde uma descoberta inesperada transforma sua viagem.
No antigo apartamento da avó, Ana encontra Alice, uma mulher que não apenas ocupa o imóvel, mas também guarda uma semelhança física impressionante com ela. As duas são interpretadas por Jéssica Pierina, que aproxima as personagens também pela voz e pelos gestos, embora suas personalidades sejam bastante distintas. O encontro produz um estranhamento inicial, seguido por uma curiosidade mútua. A chegada de Ana é especialmente bem construída: entre o desconforto de duas desconhecidas e a sensação quase inexplicável de familiaridade, a cena estabelece uma tensão delicada, na qual um vínculo parece existir antes mesmo que as personagens consigam compreendê-lo.
A princípio, Ana e Alice parecem ocupar posições opostas. Enquanto a primeira está imersa no luto e se mantém emocionalmente distante do mundo ao redor, a segunda também enfrenta suas próprias dificuldades, embora demonstre uma relação diferente com o cotidiano. O encontro acontece durante o Carnaval, e a movimentação da cidade contrasta com o estado de recolhimento da protagonista. Aos poucos, porém, Belo Horizonte deixa de ser apenas o destino de uma investigação familiar e passa a participar ativamente de sua transformação. Ao caminhar pelas ruas, a protagonista parece despertar a cidade, que ganha vida por meio de uma composição visual na qual paisagens, personagens e objetos se reorganizam diante de seu olhar.
A escolha da animação é fundamental para traduzir essa experiência. A diretora combina rotoscopia, stop-motion, colagens, aquarelas, desenhos e intervenções sobre imagens captadas em live action, construindo um universo que parece estar sempre em processo de composição. Os personagens se movimentam entre cenários feitos de materiais distintos, e elementos cotidianos assumem novas funções: cartas podem formar as paredes de um apartamento, enquanto uma fruta, ao ser retirada de uma composição, revela a superfície de papelão que a sustenta. Essa materialidade dá ao filme uma qualidade artesanal bastante particular, aproximando a imagem cinematográfica de um álbum de lembranças que se transforma diante de nossos olhos.
Há também uma relação interessante entre a aparência dos personagens animados e seus intérpretes. As vozes e os traços de Jéssica Pierina, Zezé Motta e Carlos Francisco são reconhecíveis, como se a animação não pretendesse apagar a presença dos corpos reais, mas encontrar outras maneiras de prolongá-los. O filme preserva uma ligação com o mundo concreto mesmo quando permite que seus elementos se desloquem, se transformem ou revelem suas estruturas. Em vez de recorrer a uma fantasia inteiramente desprendida da realidade, Salgado trabalha com pequenas alterações no cotidiano, criando uma atmosfera de nostalgia e contemplação. Os tempos de espera, os olhares e os silêncios têm tanta importância quanto os acontecimentos que impulsionam a narrativa.
Essa liberdade formal encontra correspondência na maneira como o filme aborda a memória. A metáfora dos mapas sugere que nossas histórias são compostas por trajetos, encontros e referências que nem sempre conseguimos reconhecer de imediato. Fotografias, objetos e vestígios materiais funcionam como pistas de uma cartografia familiar que Ana precisa reconstruir.
A busca da protagonista, portanto, não se restringe à recuperação de uma genealogia. Existe também uma dimensão identitária ligada à sua experiência como mulher negra franco-brasileira. Criada na França, Ana retorna ao Brasil para se aproximar de uma herança que permaneceu distante, mas que nunca deixou de fazer parte de sua constituição. A negritude aparece, assim, não como uma característica isolada ou uma identidade que possa ser explicada por uma única origem, mas como uma experiência formada por memórias familiares, pertencimentos culturais e deslocamentos geográficos. O filme sugere que a relação com as próprias raízes não depende de uma vivência contínua em determinado território. É possível carregar uma história mesmo quando se cresce longe dos lugares que a abrigam.
A relação entre Ana e Alice amplia essa reflexão. A semelhança entre as duas permite pensar a identidade para além de uma individualidade fixa: seriam elas duas pessoas distintas ou versões de uma mesma existência, moldadas por experiências e circunstâncias diferentes? A narrativa não precisa oferecer uma resposta definitiva para que a aproximação produza sentido. A personagem de Alice funciona como uma espécie de espelho para Ana, mas também como alguém com quem ela pode estabelecer uma relação de troca e reconhecimento. O vínculo entre as duas ganha uma dimensão que ultrapassa a coincidência física, sugerindo uma conexão entre mulheres negras que, embora tenham percorrido caminhos diferentes, compartilham referências e experiências capazes de aproximá-las.
Nesse sentido, Ana, en Passant constrói uma ligação entre Brasil e França que não se limita à distância geográfica. A viagem de Ana também questiona a ideia de que pertencimento depende exclusivamente de onde alguém nasceu ou foi criado. Sua identidade não precisa escolher entre a experiência francesa e a herança brasileira: ambas coexistem, ainda que a protagonista precise percorrer um caminho para compreender como se relacionam.
Os melhores momentos de Ana, en Passant estão na maneira como a diretora transforma a memória em experiência sensorial. A animação permite que sentimentos difíceis de traduzir em palavras encontrem expressão nas texturas, nas paisagens e nos pequenos deslocamentos da imagem. É nesse campo que o filme encontra singularidade, especialmente ao associar a busca por identidade à possibilidade de reconhecer no outro uma parte de si.
Ao final, a metáfora dos mapas ganha um sentido mais próximo da construção de uma identidade. Conhecer as próprias origens não significa encontrar um ponto definitivo de chegada, mas perceber quantos caminhos, pessoas e histórias participam de quem somos. Ao aproximar duas mulheres negras separadas por trajetórias distintas, Ana, en Passant propõe uma reflexão sensível sobre ancestralidade e pertencimento, ainda que nem sempre consiga dar à narrativa a mesma força de sua concepção visual. O filme encontra beleza em reconhecer que nossas raízes sobrevivem nos vínculos que construímos, nas memórias que herdamos e nas pessoas em quem, inesperadamente, conseguimos nos reconhecer.
