Everytime | 2026

Everytime | 2026

Não é preciso dizer que o cinema é constituído de infinitas portas, cada qual aberta para uma possibilidade diferente de linguagem e narrativa na abordagem de um mesmo tema. Tampouco é necessário reiterar que, sendo a morte o maior mistério e a maior certeza humana, tudo o que a circunda é matéria de interesse para a sétima arte – incluindo, portanto, o luto. 

Quando achamos que todas as portas já foram abertas, obras como Everytime, dirigido por Sandra Wollner, laureado com o prêmio de melhor filme na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2026 e exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, nos recordam dessa infinitude, realizando que aquilo que já existe sobre a temática não é o bastante. De fato, ocorre que nos damos conta de que esse era o filme que nos faltava – um ciclo que se fecha e reinicia cada vez que nascem projetos como esses.

A história é simples. Uma família alemã composta por mulheres – a mãe, Ella (Birgit Minichmayr) e suas duas filhas menores, Jessie (Carla Hüttermann) e Melli (Lotte Shirin Keiling) – vê suas estruturas absolutamente abaladas com a morte trágica da mais velha, Jessie, nas vésperas de uma viagem de férias para Tenerife, na Espanha. O pós-morte parece protegido por uma rotina bem estabelecida, onde a genitora cuida de Melli, e ambas fazem visitas recorrentes ao túmulo da falecida, como se corriqueiramente estivessem indo tomar um café na casa de um parente muito querido. Esse cotidiano sofre ligeiras e graduais mudanças quando Lux (Tristán López), o jovem com quem Jessie estava no dia de sua morte, reaparece após ficar um ano no estrangeiro e se reaproxima da família.

Existe um desconforto discreto que permeia o filme antes mesmo que a tragédia ocorra. Esse sentimento cresce de forma progressiva, quase imperceptível, e nos engana: quando julgamos estar diante de algo, Wollner, sem alarde e em meio ao nosso total envolvimento, altera o rumo das coisas com tal despretensão que a estranheza provocada por essa guinada nos faz questionar a própria percepção sobre a obra – sensação incômoda que, note-se, ressurge à medida que este texto é escrito. 

Não se trata, porém, de um incômodo “simplificado” pelo luto. Não se trata, ainda, de uma mera reação à morte absolutamente precoce da adolescente. Everytime nos amarra num teia comedidamente forjada em tentativas silenciosas e desesperadas (e diga-se, vãs) de compreender o fato trágico. A câmera da diretora, por mais de uma vez, parece se perder nos cenários e planos abertos como se em busca de algo – derivando, inclusive, dentro das telas de Minecraft, jogo eletrônico de sobrevivência que faz parte da brincadeira das filhas.

A forma como a tragédia ocorre carrega uma estética e um tom quase gamificados – custamos, inclusive, a entender sua ocorrência, a ponto de refletir se aquilo que vemos não está, de fato, dentro do jogo, tamanho o distanciamento do acontecimento. Esse distanciamento, inclusive, torna-se cada vez mais dilacerante, para a família e também para nós, nessa empreitada sutil de busca de compreensão daquilo que é impossível de ser compreendido – e que poderia ser totalmente evitado. 

Onde achamos que há estabilidade, vem a tragédia. Onde achamos que há conformidade, a dor de repente soa ainda mais intensa. Onde achamos que há perdão, há culpa e julgamento. O que parece sereno e lúcido é repentinamente coberto pela alucinação e pela incapacidade de distinguir o que é real e o que é imaginado. Aquilo que é real parece necessitar, afitivamente, tomar uma forma fictícia. Essa a representação do verdadeiro limbo em que se encontram essas quatro pessoas que se conectam unicamente pela morte.

Ella, Melli e Lux reproduzem o que seriam as férias em família pré-tragédia. E aqui, o flerte com o surrealismo, a expressão do limbo emocional e existencial, é coroado por um sol que recusa repousar, pelo dia que não quer terminar e que suspende o tempo, até se tornar algo concreta e moralmente dúbio, duvidoso e até criminoso, mas estranhamente compreensível – somos incapazes de julgar as personagens por suas atitudes. Apenas nos afastamos e silenciamos. 

O ponto de vista escolhido por Wollner, ao final, é o infantil, o que nos posiciona em uma ambiguidade angustiante: a elaboração nunca se encerra, jamais encontra um fim. Quando nos damos conta, estamos envolvidos no mesmo limbo – perdidos, presos e tentando compreender como chegamos até ele. 

Nota:

★★★★★

Author

  • Natália Bocanera

    Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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