A Mecenas
O poder da Performance
Em um museu de arte escandinavo, Anna (Carla Sehn), uma mulher trabalhadora, faz considerações para um pequeno grupo de visitantes acerca de um quadro exposto, indagando o que sentiria a figura feminina retratada e o que ela quis expressar. Contudo, tal apresentação é abruptamente interrompida quando outra pessoa surge e diz a todos que, na verdade, aquela moça não é guia; ela é responsável pela limpeza do espaço. De forma oblíqua, deixa-se claro que naquele espaço ela não deve ser ouvida, pois aquele é um espaço que não lhe pertence.
Nesta primeira cena de A Mecenas, longa-metragem de estreia da diretora Julia Thelin (que também escreve o roteiro), o “mapa” do filme já é exposto. Ali estão as principais questões a serem abordadas nos 100 minutos deste interessante filme sueco.
Após se perguntar o que sentiria a personagem retratada no quadro, Anna parece se implicar completamente neste questionamento: como faxineira, recebe a incumbência de uma das suas “patroas”, Annika Franke, figura influente no mundo das artes, para cuidar de sua casa enquanto faz uma viagem, percebendo a oportunidade de, finalmente, sentir o que é estar inserida efetivamente neste universo e resolve assumir a identidade de sua empregadora, aberta a viver o que de melhor e pior ele tem a oferecer.
Em uma festa exclusiva, em que entra justamente por “ser” Annika, desloca-se com outra postura, que muito difere da que inicialmente é apresentada ao público. Passeia entre figurões de forma altiva. Todavia, chama atenção Thelin fazer sua personagem não desenvolver conversa com algum deles, mas sim com os “serviçais” da festa, com dois garçons que, em breve momento de descanso, fumam.
Aqui, a diretora traz uma nuance bastante valiosa: embora tente enquadrar-se naquele cenário, Anna aborda quem mais se aproxima (verdadeiramente) de sua condição social, seja porque esteja mais confortável na conversa com aqueles garçons, ou porque é sobre seus iguais que almeja se sobrepor ao assumir a identidade de alguém que, naquele contexto, possui grande relevância.
Durante a conversa, ao se apresentar como Annika, descobre que aqueles dois homens, Salle (Maxwell Cunningham) e Gustav (Lucas Tønnesen), são artistas em início de carreira, que fazem “bicos” enquanto almejam destacar-se como grandes artistas. Anna os chama para visitar “sua casa” (uma mansão imponente) e é neste momento que o filme ganha outros contornos e torna-se mais interessante.
Ao acreditarem que Anna é Annika Franke, contrapõem-se duas formas de fingimento: a de Anna ao assumir outra identidade e a de ambos, performando sempre no sentido de impressionar aquela que pode catapultar suas carreiras artísticas. Enquanto Salle e Gustav fazem de tudo para disputar sua atenção, Anna parece se deleitar com a posição que assume e da espécie de poder que exerce sobre aqueles dois jovens em busca do “lugar ao sol”. Teria ela, finalmente, “sentido” o que é estar neste universo? Thelin faz uma crítica muito precisa e bem construída destas encenações que permeiam o mundo das artes e que parecem ser fundamentais para alguém que deseja se destacar, em que a performance (o parecer ser) se sobrepõe a algo mais concreto, como o saber técnico e o trabalho árduo.
Enquanto esse confronto de “encenações” ocorre, o espectador, por certo, fica submetido a uma tensão constante advinda da possibilidade de a verdadeira dona da casa chegar ao local e desminta Anna para seus convidados, mas também a causada pelo fato de que, a qualquer momento, os jovens podem perceber que estão sendo enganados.
É bem interessante que, enquanto o espectador está “aflito”, Anna, que arquitetou todo aquele cenário, age com extrema tranquilidade, parecendo não considerar que a qualquer momento o seu castelo de areia pode desmoronar. Neste contexto, cumpre indicar o trabalho bastante seguro de Carla Sehn.
À medida que A Mecenas avança, as respostas evasivas de Anna, o uso de álcool e a tensão sexual entre os protagonistas deslocam seus comportamentos para um lugar “menos performático” e mais genuíno. Ganham destaque cenas que exploram mais o sensorial, com enfoque no uso dos corpos de Salle e Gustav durante suas apresentações. Ainda que a ideia seja interessante, a repetição das performances se torna, por vezes, enfadonha por prejudicar o ritmo do filme.
Na reta final de A Mecenas, o desfazimento gradual das mentiras de Anna leva a um cenário em que a violência se evidencia, sobretudo quando Karsten (Ulf Stenberg), um amigo de Annika, chega à residência e deseja falar com ela. Enquanto Gustav e Salle encaram com normalidade a situação, Anna foge de todas as formas, “dobrando” a aposta em suas invencionices, esquivando-se do momento em que seria desmascarada.
Sua reação intempestiva e duvidosa parece ser o ponto crucial para que os dois artistas compreendam, com plena clareza, o que está ocorrendo: estão sendo enganados. Seus esforços para buscar maior visibilidade no campo artístico e suas expectativas de “vencer na vida” foram absolutamente inúteis.
E é neste momento que a violência toma conta do longa-metragem dirigido por Thelin. As mentiras contadas por Anna, a partir da chegada de Karsten, fazem com que Salle e Gustav o agridam de forma muito contundente. Ao “caírem em si”, esta brutalidade dirige-se para a própria Anna, que já não possui mais qualquer controle daquela situação que ela própria gerou e que lhe fez experimentar um dia com o poder de alguém influente no mundo das artes, mas que também lhe trouxe marcas indeléveis das violências sofridas, levando-a ao mesmo lugar da cena inicial, de desprezo de quem realmente faz parte daquela estrutura hermética do mundo das artes.
