A Ginasta
o outro lado das grandes sagas esportivas
Quando se pensa em esporte e em atletas, no geral, se pensa nas trajetórias de sucesso. Pensa-se nos grandes campeões, nos grandes estádios e grandes performances – não é coincidência que a própria mídia direcione maior atenção a essas narrativas: as vitoriosas. Contudo, para cada campeão, há milhares de atletas que, a despeito de treinarem e se dedicarem diuturnamente, não são alvos dos holofotes. Pagam o alto preço e não chegam lá.
É a este outro grupo, o dos “operários” do esporte, que se dedica A Ginasta, filme ianque dirigido e roteirizado por Charlotte Glynn, que faz sua estreia em longas-metragens e que não tem por objetivo dirigir um filme convencional de esportes, mas sim mostrar uma realidade crua, dura e absolutamente honesta acerca do caminho que a grande maioria dos esportistas percorre.
A adolescente Monica (Britney Wheeler) pratica ginástica em sua escola, na década de noventa, com bons resultados em nível local. Sua rotina é permeada de treinos exaustivos, de trajetos feitos de ônibus pelas ruas de Pittsburgh e do convívio próximo de outras garotas do elenco de ginastas. Percebe-se, do que o filme nos mostra, que é filha de uma família de baixa renda e que, para além de inúmeros outros anseios, vê o esporte como uma possibilidade de ascensão social. Seu pai, Rich (Ethan Embry), é alguém que deposita todas as suas esperanças no futuro sucesso de sua filha, a quem devota uma grande (e sufocante) atenção, para que possa concretizar uma redenção de sua vida de pai solo, de trabalho duro e de um passado conturbado.
A forma como Monica se diverte é simples, com a felicidade estando nas pequenas coisas, nas singelas conversas com suas amigas (o que pode soar até estranho para quem já cresceu na era dos smartphones). Essa necessidade de buscar o prazer nestes momentos “banais” talvez seja decorrência de uma rotina bastante pesada, que implica uma série de limitações para além do ginásio, sendo a mais presente o receio que se tem (por parte da treinadora e do próprio pai) de que ela engorde. Há um controle rígido do seu corpo,que é tão naturalizado e introjetado naquelas pessoas mas que se torna absolutamente violento para uma adolescente, cuja vida é inundada por questões (quase) sempre ligadas à sua performance.
Durante um dos treinos, insatisfeita com a atuação, ela insiste em continuar o treino e, após suas súplicas, sua treinadora a autoriza. Em seguida, lesiona-se gravemente, rompendo o seu ligamento cruzado. A partir deste evento trágico, o filme percorre outros caminhos, que visam ir a fundo no estado anímico não só de Monica, mas também de seu pai.
Obrigada a ficar de fora dos treinamentos, a jovem ginasta passa a se defrontar com uma vida que não perpassa pelos treinos e pelo convívio diário com suas colegas. Ela vê-se forçada a encarar um cenário completamente diferente e, principalmente, é levada a descobrir-se fora do ambiente que a forjou. Ela experimenta uma espécie de “perda de identidade”. É neste cenário, por exemplo, que em vez de ser incensada pelas performances, passa a sofrer bullying de colegas da escola por conta do gesso e muletas.
Afastada daquele ambiente opressor, Monica começa a ter contato mais próximo com o mar de possibilidades que se mostram diante dos adolescentes. Esta maior liberdade, ocasionada pelo distanciamento da disciplina ínsita ao treinamento esportivo, a faz buscar outras companhias (sozinha, em casa, poucas eram as visitas das amigas), experimentar bebidas alcoólicas, etc. Seu prazer passa a estar vinculado à transgressão e àquilo que foi tolhida de fazer antes.
Esta mudança de comportamento, que gera inúmeros conflitos com Rich, faz com que desmoronem as expectativas criadas e mantidas por anos em relação ao futuro da filha. Diante disso, o pai canaliza sua frustração em noitadas irrequietas, levando, inclusive, parceiras sexuais para sua casa, o que só faz degradar a relação entre pai e filha.
O movimento errado, o ligamento rompido, fazem ruir tudo que cercava aquela família. O que há a partir da lesão da protagonista são consequências nefastas: a deterioração de sua relação com o pai, o consumo de álcool e a companhia daqueles que não a respeitam, bem como a absoluta falta de confiança quando tenta voltar aos seus treinos; há um grande medo em lesionar-se novamente fazendo aqueles difíceis movimentos, o que também frustra sua treinadora, que não lida bem com a situação, sendo insensível aos problemas de sua pupila. Toda esta dor é muitas vezes expressa no silêncio e introspecção de Monica, que é muito bem interpretada por Britney Wheeler.
É fundamental aqui destacar que isto ocorre em Pittsburgh, cidade que sofreu grave crise a partir dos fechamentos de grandes siderúrgicas, o que fez com que inúmeras pessoas experimentassem o desemprego, a pobreza e o afastamento de um futuro alinhado ao “sonho americano”. Portanto, as trajetórias “se assemelham”, e a história da cidade conecta-se de sobremaneira à história de Monica e sua família.
É neste sentido que o filme chama o espectador a refletir sobre as milhares de trajetórias dos atletas, que são muito mais do que a televisão nos mostra, já que não são máquinas: que sofrem, que brigam com a família, que ficam deprimidos e que tiveram que passar por uma jornada de muito sacrifício, com apenas uma parcela mínima chegando ao “topo da pirâmide”.
Aqui, o enfoque está ainda mais direcionado àqueles que, sequer se profissionalizaram. São aqueles que ficaram no meio do caminho, que não tiveram suas trajetórias finalizadas com a glória do pódio (e que são a esmagadora maioria).
A Ginasta é muito exitoso em expor, de uma forma honesta, todas as barreiras, os obstáculos que surgem àqueles que desejam viver do esporte e, sobretudo, lançar luz às carreiras de tantos e tantos que tiveram suas jornadas esportivas atravessadas por lesões e outros fatos impeditivos do prosseguimento da carreira esportiva, que não é só formada pelos considerados vencedores.
Longe da glória dos títulos ou da fortuna amealhada em premiações e contratos publicitários, expõe-se o outro lado da moeda, a história daqueles que tentaram e não conseguiram, ou melhor, daqueles que tentaram e aprenderam o que nem o primeiro lugar do pódio pode ensinar.
